Crítica | Justiça Artificial - Sem profundidade, sem risco e sem alma, o filme se perde na própria artificialidade que tenta questionar.
| Divulgação | Sony Pictures |
• Por Alisson Santos
Justiça Artificial é um filme que pretende discutir os limites da inteligência artificial na aplicação da lei e acaba revelando, ele próprio, os limites criativos de um cinema que confunde conceito com profundidade. Ambientado em um futuro onde julgamentos criminais passaram a ser conduzidos por juízes de IA, o longa parte de uma premissa potente, quase inevitável diante do nosso presente tecnológico, mas tropeça de maneira constante na execução, transformando uma ideia provocadora em uma experiência apática, visualmente confusa e tematicamente contraditória.
O ponto de partida é claro e, à primeira vista, instigante. Em um mundo assolado por índices elevados de criminalidade, o sistema judiciário decide apostar na eficiência algorítmica; decisões rápidas, baseadas em dados, livres de vieses humanos — ao menos em teoria. Chris Raven, interpretado por Chris Pratt, é um detetive que acredita firmemente nesse novo modelo. Para ele, a IA representa o futuro da justiça, uma ferramenta capaz de eliminar erros emocionais e subjetividades perigosas. O filme então opera seu movimento mais óbvio — e ainda assim eficaz — ao colocar o protagonista diante do próprio sistema que defendeu quando ele se torna o principal suspeito do assassinato da esposa. Em noventa minutos, preso a uma cadeira e julgado por uma juíza artificial, Raven precisa provar sua inocência antes que a sentença final seja executada.
Esse dispositivo narrativo, quase teatral, poderia render um thriller claustrofóbico e moralmente inquietante. Há ecos claros de Minority Report - A Nova Lei, não apenas na discussão sobre justiça preditiva, mas na tentativa de tensionar o embate entre livre-arbítrio e determinismo tecnológico. No entanto, Justiça Artificial jamais encontra o rigor necessário para sustentar essas ideias. Tudo soa raso, como se o filme estivesse mais interessado em simular um debate contemporâneo do que em realmente confrontá-lo.
A escolha estética agrava ainda mais esse problema. O longa adota o chamado “screenlife”, linguagem que constrói a narrativa quase inteiramente por meio de telas, câmeras de segurança, interfaces digitais e transmissões virtuais. É uma abordagem que já provou sua eficácia em filmes como Buscando... e Desaparecida, quando utilizada com inventividade e precisão. Aqui, porém, o resultado é caótico. As telas se acumulam sem hierarquia visual, os enquadramentos parecem desordenados e a poluição gráfica constante dilui qualquer tentativa de tensão. Em vez de intensificar o confinamento psicológico do protagonista, o excesso de informações visuais gera distanciamento e cansaço.
A própria ambientação do tribunal virtual, que deveria ser um espaço simbólico poderoso — uma arena onde humanidade e máquina se confrontam — nunca ganha identidade. O design de produção soa genérico, e os efeitos visuais, especialmente quando o filme tenta expandir esse espaço digital, revelam um acabamento pobre, conferindo ao longa uma aparência artificial no pior sentido possível; fria, plastificada e desprovida de impacto.
| Divulgação | Sony Pictures |
As atuações pouco ajudam a elevar o material. Chris Pratt entrega uma performance surpreendentemente inerte para um personagem que deveria carregar o peso emocional do filme. Sua dor, sua revolta e seu desespero raramente transparecem de forma convincente, tornando difícil criar empatia ou urgência. Rebecca Ferguson,, interpretando a juíza de IA Maddox, deve estar com muito boleto em casa para aceitar esse papel.
Ainda assim, até certo ponto, Justiça Artificial consegue manter uma aparência de coerência temática. Durante boa parte de sua duração, o filme parece caminhar para uma crítica clara à substituição do julgamento humano por sistemas algorítmicos, destacando a incapacidade da IA de compreender nuances emocionais, contextos subjetivos e aquilo que o próprio protagonista chama de “instinto”. A justiça, sugere o filme inicialmente, não pode ser reduzida a dados frios.
É justamente por isso que o último ato soa tão desastroso. Em uma reviravolta apressada e mal articulada, o longa abandona sua postura crítica e tenta conciliar humanos e máquinas como se fossem equivalentes morais. A mensagem final, que flerta perigosamente com um discurso pró-IA, surge de maneira tão confusa e contraditória que esvazia todo o conflito construído até então. O filme não apenas perde sua seriedade, como compromete qualquer impacto reflexivo que poderia ter alcançado. O que deveria ser um clímax perturbador se transforma em um amontoado de decisões narrativas desconexas, incapazes de sustentar o próprio discurso.
No fim, Justiça Artificial se revela um exemplo claro de como boas ideias não sobrevivem sem direção firme, identidade estética e coragem temática. Sua crítica à inteligência artificial é superficial, seu mistério é previsível e sua linguagem visual, em vez de inovar, apenas reforça a sensação de um projeto mal resolvido. Resta ao espectador acompanhar a contagem regressiva que permeia o filme — não como um elemento de tensão dramática, mas quase como um alívio, indicando o quanto falta para que a experiência chegue ao fim.
Mais do que um alerta sobre os perigos da justiça automatizada, Justiça Artificial acaba funcionando como um sintoma de um cinema que acredita que discutir tecnologia é suficiente para ser relevante. Sem profundidade, sem risco e sem alma, o filme se perde na própria artificialidade que tenta questionar.
O filme estreia em 22 de janeiro nos cinemas.
Avaliação - 4/10
Assisti ontem e me arrependi de ter pago o ingresso kkk
ResponderExcluirEu queria saber como a Rebecca Ferguson se meteu nesse projeto? TIPO, o Chris Pratt já fez filmes até parecidos com isso, mas ela???
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