Crítica | Cinco Tipos de Medo - Um retrato brutal e perturbador da violência como um ciclo inevitável.
| Divulgação | Plano B Filmes |
• Por Alisson Santos
Há um tipo de cinema brasileiro que não busca conforto, ele se constrói no atrito, na colisão de mundos e na inevitabilidade da tragédia. Cinco Tipos de Medo, dirigido por Bruno Bini, pertence exatamente a essa linhagem. O filme se apresenta como um mosaico humano sobre a violência estrutural, onde sentimentos íntimos são constantemente sequestrados por forças maiores; o território, o crime, o passado e a própria ideia de sobrevivência.
A premissa é relativamente simples, cinco personagens — um músico em luto, uma enfermeira presa a um relacionamento abusivo, um traficante com aura de protetor comunitário, uma policial movida por vingança e um advogado de intenções ambíguas — têm suas trajetórias entrelaçadas até um ponto de não retorno. O que Bini faz com essa estrutura, no entanto, vai além da narrativa convencional de múltiplos protagonistas.
O filme aposta em uma construção fragmentada, quase em espiral. As histórias não avançam de forma linear, mas se revelam em camadas, como um quebra-cabeça emocional que exige do espectador não apenas atenção, mas envolvimento ativo. Esse tipo de estrutura poderia facilmente descambar para o didatismo ou para o excesso de coincidências — armadilhas comuns do chamado “cinema coral”. Mas aqui, há um controle notável de ritmo e revelação. Cada nova informação não apenas esclarece, mas reconfigura o que já foi visto.
O grande trunfo do filme talvez esteja na forma como ele encara a violência. Não como espetáculo, mas como herança. Como um ciclo quase biológico. Há uma lógica de contaminação; uma ação gera reação, que gera outra reação, e assim sucessivamente, numa cadeia que parece impossível de interromper. Nesse sentido Cinco Tipos de Medo se aproxima mais de uma tragédia moderna do que de um thriller tradicional. Não há exatamente vilões ou heróis, há pessoas tentando sobreviver dentro de um sistema que já as condenou.
Bruno Bini demonstra um olhar muito particular para o espaço urbano. Ambientado na periferia de Cuiabá, o filme foge do eixo Rio-São Paulo e encontra identidade justamente nessa escolha. A cidade pulsa nos personagens, nas relações e até nas decisões mais íntimas. Existe uma sensação constante de clausura social, como se todos estivessem presos em um labirinto invisível, onde cada saída leva apenas a outra forma de aprisionamento.
| Divulgação | Plano B Filmes |
O elenco é um dos pilares que sustentam essa proposta. Bella Campos imprime em Marlene uma mistura potente de fragilidade e desejo de ruptura, enquanto Xamã constrói um Sapinho ambíguo, que oscila entre o afeto e a brutalidade com naturalidade inquietante. João Vitor Silva traz humanidade ao arco de Murilo, evitando que o personagem se torne apenas um ponto de conexão narrativa. Já Bárbara Colen, como a policial Luciana, incorpora uma fúria silenciosa que funciona como motor dramático para boa parte dos conflitos. Essa organicidade coletiva reforça a sensação de que estamos observando vidas reais em colisão — não arquétipos.
Visualmente, o filme também chama atenção. Há uma crueza na fotografia que evita estilizações excessivas, privilegiando uma estética mais próxima do documental. Isso reforça a ideia de que a violência apresentada não é excepcional — é cotidiana. Quando o filme eventualmente flerta com momentos mais estilizados, eles surgem quase como rupturas emocionais, e não como exibicionismo formal.
Se há alguma fragilidade, ela reside justamente na ambição do projeto. Em determinados momentos, o acúmulo de tramas e intenções faz com que alguns arcos pareçam menos desenvolvidos do que poderiam. Não chega a comprometer o conjunto, mas deixa a sensação de que certos personagens mereciam mais tempo ou profundidade. Ainda assim, isso parece mais uma consequência de excesso de ideias do que de falta de controle.
O que permanece, no entanto, é a forma como Cinco Tipos de Medo se recusa a encerrar sua própria lógica. Em vez de oferecer uma conclusão reconfortante ou moralizante, o filme opta por um desfecho que sintetiza tudo o que veio antes com uma precisão impressionante. A cena final é excelente justamente porque não rompe com o ciclo de violência — ela o reconhece, o absorve e, ainda assim, revela algo inesperado; a vida resiste. Há uma poesia silenciosa nesse instante, quase contraditória diante de tudo o que foi construído, mas profundamente coerente com a proposta do filme. É um fechamento absurdamente eficaz, que não suaviza o impacto, mas o transforma em permanência. Não é sobre escapar do ciclo — é sobre continuar existindo apesar dele.
Cinco Tipos de Medo estreia em 9 de abril nos cinemas.
Avaliação - 8/10
Grande análise. Vou conferir no cinema.
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