Crítica | Zico, o Samurai de Quintino - Há um cuidado evidente em reconstruir a aura de Zico não apenas como ídolo, mas como figura formadora de identidade coletiva.
| Divulgação | Downtown Filmes |
• Por Alisson Santos
Zico, o Samurai de Quintino chega aos cinemas com uma missão delicada; transformar uma figura quase mitológica do futebol brasileiro em cinema — e não apenas em memória ilustrada. Dirigido por João Wainer, o documentário parte de um material riquíssimo — arquivos raros, registros em Super-8, objetos pessoais — para construir algo que oscila entre o tributo e a investigação emocional.
O primeiro impacto do filme é inevitavelmente afetivo. Há um cuidado evidente em reconstruir a aura de Zico não apenas como ídolo, mas como figura formadora de identidade coletiva. O longa revisita gols, títulos e momentos emblemáticos, mas acerta mesmo quando desacelera e observa o homem por trás do mito — especialmente nas passagens mais íntimas, com a família e nos registros pessoais. Nesse sentido, o filme entende algo essencial; a memória esportiva não vive só de feitos, mas de afetos.
No entanto, há uma certa previsibilidade estrutural que limita sua potência cinematográfica. Como muitos documentários biográficos tradicionais, ele segue uma linha cronológica segura, quase reverente demais, evitando fricções mais profundas. Os conflitos — que existem, como a ida ao Japão ou decisões de carreira — aparecem mais como obstáculos superados do que como dilemas complexos. Falta ao filme a coragem de tensionar sua própria narrativa, de questionar o ícone que celebra.
Ainda assim, o uso do arquivo é um dos grandes trunfos. Não se trata apenas de ilustrar, mas de criar textura; as imagens antigas, as fitas VHS e os registros pessoais funcionam como fragmentos de um Brasil que também já não existe mais. Há momentos em que o documentário transcende o esporte e se torna um retrato geracional — algo raro em produções desse tipo.
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Outro acerto está na pluralidade de vozes. Depoimentos de figuras como Ronaldo Nazário e Carlos Alberto Parreira ajudam a ampliar o alcance da narrativa, posicionando Zico não apenas como ídolo de um clube, mas como referência global. Ainda assim, essas participações reforçam mais o coro de admiração do que oferecem contrapontos — o que reforça o tom celebratório quase unânime.
O título, Samurai de Quintino, não é gratuito. Ele sintetiza bem o que o filme tenta construir; disciplina, honra e um certo estoicismo que atravessa a carreira de Zico, especialmente em sua relação com o Japão. Mas, ironicamente, o filme raramente questiona essa imagem — ele a reafirma, a lapida, a eterniza.
No fim, o documentário funciona melhor como experiência emocional do que como obra crítica. É um filme que entende seu público — e talvez por isso não queira desafiá-lo. Para quem cresceu vendo Zico, há algo de quase litúrgico na experiência; para quem não viu, é uma introdução eficiente, embora pouco ousada.
Zico, o Samurai de Quintino não reinventa o gênero, mas cumpre seu papel com respeito e sensibilidade. E, às vezes, no cinema biográfico, isso já é o suficiente — ainda que fique a sensação de que havia espaço para ir além do mito e tocar, de fato, no homem.
Zico, o Samurai de Quintino estreia em 30 de abril nos cinemas.
Avaliação - 6/10
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