Crítica | Supergirl - Com uma abordagem mais íntima sobre perda e identidade, 'Supergirl' funciona melhor quando olha para sua heroína do que para as convenções do gênero que a cerca.

Divulgação | Warner Bros. Pictures

• Por Alisson Santos 

Após assistir a Supergirl, saí da sessão com a sensação de que este é um filme muito mais interessado em falar sobre dor, perda e pertencimento do que propriamente em reinventar o gênero de super-heróis. E isso joga totalmente a seu favor.

Embora a campanha de marketing tenha vendido uma grande aventura espacial, o coração da história continua sendo Kara Zor-El. A personagem interpretada por Milly Alcock carrega um vazio que a distingue de Clark Kent. Enquanto Superman simboliza esperança e adaptação, Supergirl surge como alguém que perdeu tudo e ainda tenta encontrar seu lugar em um universo que jamais pareceu verdadeiramente seu. É justamente quando o roteiro se dedica a essa dimensão mais humana que o longa encontra seus momentos mais fortes, transformando uma jornada intergaláctica em uma reflexão sobre identidade, luto e pertencimento.

Essa abordagem também se reflete na construção do universo ao redor da protagonista. A direção abraça uma estética que mistura fantasia cósmica, ficção científica e influências visuais e narrativas que remetem claramente a Mad Max. Os cenários áridos, os povos espalhados pelos confins da galáxia e a constante sensação de deslocamento transformam a jornada em algo visualmente distinto dentro da DC, mesmo que sua estrutura narrativa permaneça relativamente familiar. O CGI é competente; raramente impressiona, mas também nunca compromete a experiência, servindo mais como ferramenta para sustentar a aventura do que como espetáculo em si.

Em meio a esse universo, Jason Momoa rouba algumas cenas como Lobo. Seu carisma é imediato e sua presença injeta energia na narrativa sempre que surge em tela. O humor, aliás, é utilizado com muito mais moderação do que em boa parte das produções recentes do gênero. As situações envolvendo Krypto apostam principalmente no humor físico, enquanto Lobo concentra a maior parte dos comentários sarcásticos. O resultado é um equilíbrio bem-vindo, que permite ao filme preservar seu peso emocional sem transformar constantemente seus momentos dramáticos em piadas.

Se há um ponto em que a produção encontra mais dificuldades, ele está em Krem. Matthias Schoenaerts é um ator talentoso, mas o personagem jamais alcança a complexidade necessária para se tornar um antagonista verdadeiramente memorável. Sua construção permanece excessivamente dependente de trejeitos, frases de efeito e de uma maldade quase caricatural. Como figura dramática, ele funciona; como grande vilão, deixa a desejar.

Ainda assim, Krem talvez represente a mudança mais significativa que o filme promove em relação à obra original. Sua caracterização bebe claramente da iconografia dos tiranos pós-apocalípticos; um predador sexual que exerce poder através da violência, da intimidação e da exploração dos mais vulneráveis. Essa escolha não parece acidental. Em um contexto social cada vez mais atento às discussões sobre violência contra mulheres, abuso de poder e crimes sexuais, o filme demonstra pouco interesse em preservar qualquer ambiguidade moral ao redor do personagem. Se na HQ existe espaço para reflexões mais desconfortáveis sobre justiça, responsabilidade e vingança, aqui Krem é concebido como a personificação de tudo aquilo que a narrativa deseja condenar.

Divulgação | Warner Bros. Pictures

Ao tornar seu antagonista tão monstruoso, o filme inevitavelmente altera o peso filosófico de alguns dos dilemas presentes na obra de Tom King. A questão deixa de ser apenas o que fazer diante da violência e passa a ser como preservar a própria humanidade quando confrontado com alguém que parece ter abdicado completamente da sua. Não se trata necessariamente de uma mudança melhor ou pior, mas de uma mudança que redefine o significado da história e a forma como ela dialoga com debates contemporâneos sobre justiça, punição e compaixão.

Naturalmente, essas alterações devem provocar discussões, especialmente entre aqueles que enxergam na HQ uma reflexão mais áspera e ambígua sobre consequências e responsabilidade moral. Ainda assim, o filme encontra coerência dentro de sua própria visão de mundo. Supergirl não parece interessado em defender a inocência dos cruéis nem em oferecer respostas fáceis para dilemas complexos. Seu olhar está voltado para algo mais íntimo; o peso que a dor exerce sobre quem a carrega.

Ao longo da narrativa, Kara compreende que o luto possui uma natureza insidiosa. Ele não apenas nos fere; ele tenta nos moldar. Tenta nos convencer de que somos definidos pelas nossas perdas, pelos nossos traumas e pelos impulsos que eles despertam. Nesse sentido, a história não questiona apenas o que é justo, mas o que resta de nós quando permitimos que o sofrimento dite nossas escolhas.

É por isso que o filme funciona menos como uma história sobre vingança e mais como uma história sobre a interrupção de ciclos. Sobre a coragem necessária para impedir que a violência continue produzindo novas feridas. Sobre entender que proteger alguém nem sempre significa salvá-lo de um inimigo, mas, por vezes, salvá-lo de si mesmo. Em um universo povoado por deuses, monstros e planetas distantes, Supergirl encontra sua maior humanidade justamente nessa ideia; a de que a compaixão não nasce da ausência de dor, mas da capacidade de impedir que ela tenha a última palavra.

Outro elemento que me surpreendeu foi a presença de Superman. Há mais Clark Kent no filme do que eu imaginava, e a dinâmica entre ele e Kara funciona muito bem. Depois de acompanhar a trajetória emocional da protagonista, fica evidente que existe potencial para uma relação extremamente interessante entre os dois personagens daqui para frente. O longa faz um bom trabalho ao posicionar Supergirl como uma heroína independente, mas também como alguém que complementa e amplia a visão de mundo do Superman.

No fim das contas, Supergirl não revoluciona o cinema de super-heróis. Sua estrutura segue caminhos conhecidos, suas cenas de ação cumprem o esperado e seu antagonista está longe de ser memorável. Mas a força emocional de Kara, a excelente presença de Milly Alcock, o carisma de Jason Momoa e a maneira como o filme aborda luto, pertencimento e empatia fazem com que a experiência funcione.

Supergirl estreia nas salas de em todo o mundo a partir de 25 de junho de 2026.

Avaliação - 7/10

Comentários

  1. Telma Assis24/6/26

    No geral, fiquei com a sensação de que é um filme que talvez não reinvente nada, mas que entende muito bem quem é sua protagonista. E, sinceramente, isso já vale bastante.

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  2. Sara Lopes24/6/26

    Gostei da crítica. Pelo que você descreveu, parece que o filme funciona mais pelo desenvolvimento da Kara do que pela ação em si, e isso me interessa bastante. Não parece revolucionário, mas parece ter coração.

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  3. Tiago Lima24/6/26

    Adorei a crítica.

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  4. Pedro Henrique24/6/26

    Filme mediano, né? TRISTEZA.

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  5. Geovana Silva24/6/26

    Vou assistir hoje.

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  6. Isadora de Jesus25/6/26

    Gostei bastante do filme.

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