Crítica | A Grande Viagem da Sua Vida - Kogonada talvez não tenha feito o romance perfeito, mas entregou uma experiência que insiste em permanecer, como uma chuva que se recusa a passar.
| Divulgação | Sony Pictures |
• Por Alisson Santos
Dirigido por Kogonada e escrito por Seth Reiss, A Grande Viagem da Sua Vida se apresenta como um drama romântico de tintas fantásticas, embalado pela presença magnética de Margot Robbie e Colin Farrell. À primeira vista, é um filme arrebatador, construído sobre imagens oníricas e símbolos que se repetem como ecos de uma mesma melodia — chuva, portas, faróis, estradas. Mas essa beleza visual, ainda que inegável, convive com um problema que atravessa toda a narrativa; a tentativa de sustentar uma metáfora grandiosa sem oferecer um alicerce narrativo suficientemente sólido.
A premissa é potente. David (Farrell), um homem marcado pela solidão e pelo medo da entrega, encontra Sarah (Robbie), igualmente dilacerada por suas próprias cicatrizes. Unidos por um GPS misterioso que os guia a portas para seus passados, eles são obrigados a revisitar dores, perdas e memórias que moldaram quem são. O filme, nesse sentido, funciona como um espelho de nossas próprias existências; todos nós, em algum momento, somos obrigados a atravessar portas que preferiríamos manter fechadas.
O problema é que o fantástico aqui não se ancora em regras mínimas de coerência. O GPS surge quase como uma divindade sem rosto, onisciente, mas nunca explicado; as portas mudam de função conforme a cena exige, alterando idades, contextos e até a própria relação entre passado e presente. O resultado é uma experiência flutuante; o espectador é convidado a se perder nesse estado de sonho, mas corre o risco de se sentir distante dos personagens, já que a ausência de lógica cria uma camada de artificialidade que nem sempre se traduz em emoção.
Ainda assim, A Grande Viagem da Sua Vida não deixa de ter momentos de brilho. Farrell e Robbie exploram suas fragilidades com intensidade crua, expondo tanto o encanto do encontro humano quanto a inevitabilidade da dor. São atuações que pedem entrega emocional, e os dois atores correspondem com profundidade. Se falta chama romântica no casal, sobra densidade dramática; eles funcionam mais como cúmplices espirituais do que como amantes ardentes, o que, paradoxalmente, reforça a ideia de que a vida a dois muitas vezes é mais sobre enfrentar sombras compartilhadas do que sobre paixões instantâneas.
| Divulgação | Sony Pictures |
O simbolismo é o verdadeiro coração do filme. A chuva constante, que inicialmente parece mero recurso estético, transforma-se em metáfora da purificação — cada encontro sob o aguaceiro é uma tentativa de limpar feridas antigas. As portas, por sua vez, funcionam como arquétipos junguianos; passagens para o inconsciente, convites para enfrentar o que foi reprimido. Já os carros e estradas, sempre presentes, marcam o deslocamento não apenas físico, mas existencial — não há destino fixo, apenas um movimento contínuo em direção a si mesmo.
Kogonada, fiel ao estilo contemplativo que já havia demonstrado em Columbus e After Yang, aposta na beleza da mise-en-scène. Planos longos, paisagens que beiram o sublime e uma trilha sonora que insiste em abrir frestas no silêncio constroem a atmosfera. A canção final, “Let My Love Open the Door”, sela a intenção; o amor, aqui, não é um romance açucarado, mas a chave que abre passagens internas, a coragem de encarar o que somos quando a máscara cai.
Contudo, o filme sofre com sua pressa narrativa. Algumas revelações surgem apressadas, e a viagem interior de David e Sarah nem sempre tem o tempo necessário para amadurecer. Há a sensação de que a obra quis ser grandiosa demais, mas não ofereceu chão suficiente para que essa grandiosidade se sustentasse.
No fim, A Grande Viagem da Sua Vida é um paradoxo fascinante; ao mesmo tempo que encanta com imagens, metáforas e atuações intensas, frustra por carecer de uma lógica emocional contínua que mantenha o espectador enraizado. Ainda assim, talvez essa contradição seja parte do que o filme tenta expressar; a vida, afinal, também é uma sucessão de fragmentos, incoerências e encontros inexplicáveis que, de alguma forma, se tornam jornada.
É uma obra imperfeita, mas que toca fundo. Para uns, será apenas um devaneio estético; para outros, um espelho de memórias e dores pessoais. Kogonada talvez não tenha feito o romance perfeito, mas entregou uma experiência que insiste em permanecer, como uma chuva que se recusa a passar.
O filme estreia em 18 de setembro nos cinemas.
Avaliação - 6/10
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