| Divulgação | HBO Max |
• Por Alisson Santos
O sexto episódio de IT: Bem-Vindos a Derry é, ao mesmo tempo, o mais fascinante e o mais instável da temporada. Ele se constrói como um mosaico de boas ideias — visualmente ousadas, emocionalmente ambiciosas — mas luta para conciliar tudo que tenta abarcar. Há momentos de verdadeiro brilho, especialmente na escolha estética dos flashbacks em preto e branco, que funcionam como janelas para memórias contaminadas, traumas que nunca se dissolveram e o passado insistente dessa cidade maldita. Esses recortes contrastam de maneira elegante com a paleta saturada da década de 1960, criando uma narrativa visual quase hipnótica. No entanto, o episódio frequentemente colide consigo mesmo, como se sua grandiosidade fosse maior do que sua capacidade de organizar suas próprias intenções.
Essa falta de equilíbrio fica clara quando olhamos para o coração emocional do capítulo; a relação entre Marge e Rich. A série dedica muito tempo aos dois, e sabemos exatamente o porquê — Rich é um personagem adorável, doce, construído com esmero para que a dor que se aproxima tenha o efeito devastador planejado. A estratégia funciona; a conexão entre eles é genuína, sensível e dá ao episódio um fio afetivo importante. Mas é também um sintoma claro de como o roteiro tenta sustentar mais do que pode. No meio de tantas tramas, revelações e expansões mitológicas, esse vínculo — que poderia ser ainda mais poderoso — acaba sofrendo com o ritmo apressado. A série quer que nos importemos profundamente com Rich, enquanto ao mesmo tempo tenta abrir alas para o Black Spot, para a sombra crescente de Pennywise, para a tensão racial, para Ingrid Kersh, para a mitologia, para os flashbacks, para a construção do horror social. É muita coisa ao mesmo tempo, e a pressa se torna inevitável.
A revelação envolvendo Ingrid Kersh aparece como outro ponto de peso — e de incômodo pra mim. Ingrid, até aqui construída como presença inquietante e enigmática, perde um pouco de sua força justamente porque a série tenta aproximar aquilo que deveria permanecer distante, quase metafísico. A série tira um pouco do terror dos episódios anteriores, para expor em uma lógica mais humana. É como tentar enquadrar um abismo dentro de um retrato de família. A narrativa ganha uma potencialidade dramática nova, sim, mas perde parte da grandeza sombria que torna Pennywise aquilo que ele é; uma representação pura do mal primordial.
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E então chegamos ao ponto mais delicado do episódio; a preparação para o incêndio do Black Spot. O capítulo se encerra anunciando com clareza que está pavimentando o caminho para um dos eventos mais traumáticos do livro. Porém, por mais que a série mostre pequenos sinais de tensão racial — olhares tortos, diálogos hostis, sutis lembranças do racismo entranhado nos anos 1960 — falta densidade histórica. Falta sentir o peso sufocante da segregação. Falta perceber, no cotidiano dos personagens negros, o clima de ameaça constante que Stephen King descreveu com tanta crueldade. A série tentou estabelecer essa atmosfera, mas fez isso de forma tímida, quase decorativa. O racismo aparece, mas não se impõe. Não molda a narrativa como deveria. Assim, quando o roteiro aponta para a tragédia iminente, percebemos que a base emocional não está tão sólida quanto precisaria estar para que o impacto seja devastador.
E ainda assim, há beleza na tentativa. Há momentos genuinamente perturbadores, imagens que grudam na mente, performances que elevam cenas que poderiam ser comuns. O problema é a soma de tudo isso. O episódio tenta expandir a mitologia, aprofundar personagens, preparar a tragédia, explicar traumas, humanizar monstros e conectar tempos diferentes. Ele quer ser muita coisa ao mesmo tempo — e frequentemente é —, mas não consegue que todas essas camadas existam com peso igual.
O resultado final é um capítulo visualmente memorável, narrativamente ambicioso e emocionalmente desigual. Ele provoca, arrisca, encanta em certos instantes e frustra em outros. Quer criar vínculo, quer ampliar o universo, quer intensificar o horror — e em vários momentos chega perto de algo realmente grandioso. Mas seu maior inimigo é o próprio ritmo; um episódio que corre porque precisa, e tropeça porque tenta correr longe demais. Mesmo com falhas, deixa curiosidade para o que vem depois, especialmente pela proximidade do Black Spot, mas também deixa a sensação de que, se tivesse respirado um pouco mais, poderia ter sido um dos melhores capítulos da temporada.
O sexto episódio vai ao ar às 23h, na HBO e na HBO Max.
Avaliação - 6/10
Achei um episódio bem morno também.
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