Crítica | A Natureza das Coisas Invisíveis - Poucos filmes brasileiros recentes foram tão sutis e, ao mesmo tempo, tão importantes.

Divulgação | Sessão Vitrine Petrobras

• Por Alisson Santos 

Rara é a obra que consegue fazer do silêncio um personagem — e A Natureza das Coisas Invisíveis consegue justamente isso; transforma o não-dito, o olhar e a espera em matéria dramática. Filme de estreia (e já com trajetória festivaliera extensa), dirigido e roteirizado por Rafaela Camelo, o longa trabalha propondo uma narrativa que respira devagar, escuta mais do que fala e deposita grande parte de seu peso emotivo na química entre duas crianças que aparecem como se carregassem, desde muito cedo, toda a complexidade dos adultos.

A amizade entre Glória e Sofia, duas meninas de dez anos que se encontram num hospital — uma por proximidade familiar, outra por doença da bisavó — é o eixo narrativo óbvio. Mas o filme se desenrola não a partir da amizade em si, e sim das fissuras que o encontro revela; o medo da morte, a culpa herdada, o desamparo que as crianças sentem quando percebem que os adultos também estão tentando sobreviver, e, sobretudo, a travessia identitária de Sofia, uma criança trans cuja existência está inscrita com a precisão de quem não quer transformar dor em espetáculo.

Camelo toma uma decisão ousada; a identidade de Sofia não é um “tema” do filme, mas um fato do mundo. Isso altera tudo. Não há discursos inflamados, discussões pedagógicas, cenas montadas para serem o centro do filme. Há, em vez disso, um olhar radicalmente íntimo para o microcosmo do cotidiano; a troca de roupa que significa mais do que qualquer frase, a hesitação de uma mãe que ainda tenta aprender a linguagem do acolhimento, uma família do interior que não sabe muito bem como nomear o que vê, e, principalmente, Glória descobrindo que crescer também significa aprender a cuidar de alguém que o mundo insiste em ferir. Essa abordagem não dilui o peso do tema — ao contrário, o intensifica. Quando o cinema abandona a lógica da tese e escolhe o gesto, ele produz verdade. Sofia não está ali para ensinar nada a ninguém; está para ser. Essa aparente simplicidade é, na verdade, o gesto mais radical que o filme poderia oferecer.

No plano formal, a colaboração de Francisca Sáez Agurto na fotografia confere ao filme uma textura visual que é ao mesmo tempo concreta e etérea; a câmera privilegia planos médios e detalhes — mãos, olhares desalinhados, superfícies que guardam memórias — e trabalha muito bem a luz quente do interior rural versus a luz mais branca e asfixiante do hospital. A trilha, assinada por Alekos Vuskovic, apoia essa sensorialidade sem se tornar manipuladora; ela se instala como uma camada que murmura, reforçando os momentos de recolhimento e as pequenas explosões de alegria infantil. A edição (compartilhada entre Marina Kosa e a própria Camelo) respira — há longas tomadas que pedem ao espectador que espere e há cortes que surgem como pequenas picadas de realidade. Esses aspectos técnicos ajudam o filme a alcançar seu objetivo; não explicar tudo, mas permitir que o espectador sinta o espaço entre as coisas.

Divulgação | Sessão Vitrine Petrobras

Mas talvez o maior triunfo do filme esteja nas atuações das duas atrizes mirins. Laura Brandão (Glória) e Serena (Sofia) são um acontecimento. Não interpretam crianças — são crianças tentando entender o que não tem nome. É nesse ponto que o filme encontra sua poesia mais aguda; a infância não é tratada como metáfora, mas como lugar de profundidade legítima. As meninas carregam o luto, a identidade, a culpa, o afeto e o mistério com a naturalidade de quem ainda não aprendeu a mentir para si mesma.

A experiência do luto e da finitude vista pelo ângulo da infância — o que cria momentos de estranheza comovente, já que as crianças reagem com uma mistura de lógica literal e projeção mágica; por outro, uma sutileza política de cuidado e sororidade entre mulheres (mães, avós, e as próprias meninas) que atravessa o roteiro sem didatismo. Camelo não humaniza a morte nem a demoniza; ela a aproxima da paisagem — um campo, um interior goiano — e da crença infantil em causas e rituais. Essa ambiguidade entre o real e o imaginário é o que dá ao filme sua força poética. 

Ao abordar a experiência de uma criança trans sem transformá-la em espetáculo, Camelo atravessa um terreno ético arriscado — e sai vitoriosa. Sofia carrega dentro de si um fantasma que não a assombra, mas repousa — Breno, o nome antigo, o corpo que não lhe pertencia, a infância que não era dela. O filme trata essa ausência como se fosse um luto suave; não a morte de alguém que se perde, mas a despedida amorosa de alguém que finalmente pode existir. É comovente ver como a narrativa acolhe essa transição não como ruptura violenta, e sim como o desabrochar de uma verdade que sempre esteve ali, silenciosa, pedindo luz. Em Sofia, o que morreu não é uma pessoa, é uma prisão; e o que nasce, diante dos nossos olhos, é a forma mais delicada de liberdade.

No fim, A Natureza das Coisas Invisíveis é um filme sobre finitudes — de verões, de vidas, de identidades não reconhecidas — e sobre o pequeno milagre de sobreviver a elas. Sua força está no gesto calmo, na recusa de gritar o que pode ser sussurrado, na fé de que o espectador é capaz de enxergar o invisível se permanecer quieto o suficiente. Poucos filmes brasileiros recentes foram tão sutis e, ao mesmo tempo, tão importantes.

O filme chega aos cinemas brasileiros em 27 de novembro pela Sessão Vitrine Petrobras.

Avaliação - 9/10

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