Crítica | Como Mágica - É um filme que acredita na empatia como ferramenta de transformação sem soar ingênuo demais.
| Divulgação | Netflix |
• Por Alisson Santos
Em uma indústria de animações cada vez mais moldada por fórmulas previsíveis, Como Mágica, novo longa da Netflix em parceria com a Skydance Animation, surge como uma obra curiosamente mais sensível do que sua premissa aparentemente infantil deixa transparecer. Sob direção de Nathan Greno, o filme utiliza o clássico recurso da troca de corpos para construir uma aventura fantástica que fala sobre medo, convivência, identidade e, acima de tudo, empatia. E embora a estrutura narrativa siga caminhos relativamente familiares, existe sinceridade suficiente em sua execução para transformá-lo em algo emocionalmente genuíno.
Ambientado no Vale, um universo mágico dividido por conflitos históricos e preconceitos herdados, Como Mágica acompanha Ollie, um Pookoo curioso e inquieto. Os Pookoo vivem isolados, enxergando os Javans — criaturas híbridas entre corujas e papagaios — como ameaças naturais. O medo entre os povos não nasce exatamente de maldade, mas da repetição de uma lógica ancestral baseada na sobrevivência. O roteiro entende isso de maneira interessante; ninguém nasce odiando o outro naquele universo; o preconceito é construído pela escassez, pela desinformação e pelo medo constante de perder espaço.
A grande força do filme está justamente em transformar essa metáfora social em algo acessível para crianças sem subestimar a inteligência delas. Quando Ollie e Ivy trocam de corpos após entrarem em contato com as misteriosas cápsulas brilhantes, Como Mágica abandona momentaneamente o espírito de aventura para mergulhar numa discussão sobre perspectiva. A troca física vira uma troca cultural, emocional e até política. Pela primeira vez, os protagonistas não apenas observam o outro lado — eles precisam sobreviver dentro dele.
É impossível assistir ao filme sem perceber como ele ecoa debates contemporâneos sobre polarização, xenofobia e desumanização coletiva. Porém, o roteiro evita cair no didatismo agressivo que muitas animações recentes adotam ao tentar dialogar com questões sociais. Em vez de discursos explícitos, a narrativa trabalha sensações. Ollie sente o medo de ser rejeitado. Ivy sente a vulnerabilidade de ser tratada como inimiga apenas por existir. E a animação encontra sua maturidade justamente nessa delicadeza.
Visualmente, Como Mágica é um trabalho extremamente competente. O design das criaturas é carismático sem parecer excessivamente infantilizado, e o Vale possui uma identidade visual rica em detalhes orgânicos, cores vibrantes e iluminação quase etérea. Existe um cuidado perceptível na direção de arte para que cada ambiente reflita emocionalmente os personagens. As florestas densas, os céus carregados e as cápsulas luminosas ajudam a criar uma atmosfera constantemente encantadora, mas também melancólica. Há uma sensação contínua de que aquele mundo está à beira do colapso.
Nathan Greno demonstra enorme habilidade ao equilibrar humor e dramaticidade. O personagem Boogle, poderia facilmente ser apenas o alívio cômico irritante típico desse tipo de produção, mas o filme encontra humanidade até nele. Seu humor funciona porque nasce do absurdo daquele universo, não apenas de piadas jogadas aleatoriamente para manter crianças entretidas.
| Divulgação | Netflix |
Ainda assim, Como Mágica não escapa completamente de alguns problemas estruturais comuns ao gênero. A ameaça principal envolvendo o Lobo de Fogo acaba sendo desenvolvida de maneira superficial, funcionando mais como representação simbólica do extremismo destrutivo do que como antagonismo verdadeiramente memorável. Em alguns momentos, o roteiro parece mais interessado na mensagem do que na construção dramática do conflito central. Isso enfraquece parte da tensão no terceiro ato.
Além disso, existe certa previsibilidade emocional na jornada dos protagonistas. O espectador entende rapidamente qual será a lição aprendida e como o filme pretende concluir sua mensagem sobre aceitação e convivência. Porém, talvez o mérito esteja justamente na forma de Como Mágica escolhe contar algo simples sem cinismo. Diferente de muitas animações contemporâneas que tentam desesperadamente soar irônicas ou autoconscientes, aqui existe sinceridade emocional.
E talvez seja exatamente isso que torne o filme tão eficiente. Ele entende que empatia não nasce de discursos grandiosos, mas da capacidade de enxergar humanidade no desconhecido. O longa não propõe soluções fáceis para conflitos sociais complexos, mas insiste numa ideia importante; compreender o outro exige desconforto. Exige abandonar privilégios, abandonar certezas e experimentar o mundo através de olhos diferentes.
Em muitos sentidos, Como Mágica lembra animações familiares produzidas no auge criativo da primeira década dos anos 2000, quando Hollywood ainda acreditava que filmes infantis poderiam carregar discussões filosóficas genuínas sem perder o senso de aventura. Existe algo de Irmão Urso em sua essência narrativa, principalmente na maneira como trabalha medo social e reconciliação cultural.
No fim, Como Mágica talvez não reinvente a animação contemporânea, mas encontra valor justamente na honestidade de sua proposta. É um filme que acredita na empatia como ferramenta de transformação sem soar ingênuo demais. E em um período onde boa parte do entretenimento parece obcecada por cinismo ou nostalgia vazia, existe algo genuinamente bonito numa animação que ainda acredita que compreender o outro pode salvar mundos — reais ou imaginários.
Como Mágica já está disponível na Netflix.
Avaliação - 7/10
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