Crítica | O Sobrevivente - É um bom filme. É bem filmado, bem atuado, e exala entretenimento. Mas falta a ele algo que Edgar Wright sempre entregou com naturalidade; identidade.
| Divulgação | Paramount Pictures |
• Por Alisson Santos
Poucos diretores contemporâneos têm o mesmo senso de ritmo e identidade visual de Edgar Wright. Desde "Todo Mundo Quase Morto" até "Em Ritmo de Fuga", seu cinema é marcado pela cadência precisa, pela montagem musical e pela ironia cômica com a qual retrata heróis deslocados em meio ao caos. Por isso, quando foi anunciado que Wright iria revisitar O Sobrevivente, havia algo quase profético na expectativa; o diretor de ação pop por excelência adaptando um dos textos mais sombrios de Stephen King — um livro escrito sob o pseudônimo Richard Bachman e que já havia gerado um clássico trash com Arnold Schwarzenegger em 1987.
O resultado, porém, é um filme que se equilibra num fio tênue entre duas visões de mundo — e acaba, por vezes, refém delas. O Sobrevivente de 2025 é tecnicamente afiado, estilisticamente inventivo em momentos e politicamente relevante, mas também é um produto dividido entre o espetáculo autoconsciente e a melancolia distópica que King originalmente concebeu.
A premissa continua essencialmente a mesma; em um futuro distópico dominado por corporações midiáticas e governos autoritários, um homem é forçado a participar de um jogo televisivo mortal — um reality show onde a audiência se alimenta de violência em tempo real. O protagonista Ben Richards (agora vivido por Glen Powell, em sua primeira grande performance de ação) se torna o símbolo involuntário de uma revolta contra o sistema.
Mas o que Wright tenta fazer — e nem sempre consegue — é unir o tom niilista do livro de King com o espírito satírico e explosivo da versão estrelada por Schwarzenegger. O resultado é um híbrido curioso; uma crítica social envolta em pirotecnia pop.
O filme parece constantemente dividido entre dois pulsos. Há a distopia melancólica, onde Wright aposta em silêncios, planos longos e tons frios; e há o blockbuster barulhento, que pede ritmo, frases de efeito e coreografias exuberantes. A colisão dessas linguagens produz um cinema visualmente fascinante, mas emocionalmente desigual. O Sobrevivente nunca parece decidir se quer ser um grito de desespero ou um show de fogos.
Glen Powell mostra versatilidade ao interpretar um Richards mais vulnerável do que seus antecessores. É uma figura que carrega raiva e desespero em doses quase contraditórias — um homem que tenta manter alguma humanidade num mundo que já a vendeu em parcelas. Wright confia nele, e o ator retribui com uma performance sólida, embora contida demais em alguns momentos.
Ao lado de Powell, o sempre magnético Colman Domingo rouba a cena como Bobby Thompson, o apresentador cruel e carismático do programa de mortes televisivas. Sua presença colorida e estilosa é a válvula de escape estética do filme. Domingo encarna a síntese do entretenimento moderno; superficial, sedutor e brutalmente indiferente. Quando ele entra em cena, O Sobrevivente se ilumina — e também revela seu próprio comentário sobre o fascínio da barbárie disfarçada de espetáculo.
| Divulgação | Paramount Pictures |
Josh Brolin, por outro lado, interpreta o executivo Dan Killian com competência, mas sem a dimensão necessária para se tornar memorável. Seu vilão é o arquétipo do homem de terno que manipula massas — eficaz, mas previsível. O roteiro não o leva longe o suficiente para que sua derrocada tenha impacto.
O design de produção é um dos pontos altos. Wright cria uma paisagem urbana opressiva, de concreto, drones e propaganda neon. Há um detalhe quase cyberpunk nas vitrines que exibem medicamentos como se fossem bens de luxo e nas revistas que mostram uma “Tia Sam” sensualizada — um toque satírico que denuncia o esgotamento moral dessa sociedade. Esses elementos visuais são mais eloquentes do que muitos diálogos.
No entanto, o mesmo cuidado estético não se estende a toda a narrativa. Em alguns momentos, Wright parece recuar diante do próprio desconforto que cria. O filme tem lampejos de genialidade visual — como a cena em que um drone percorre os corredores onde Richards é perseguido, ou o plano-sequência de abertura que sintetiza a desigualdade de um país em colapso —, mas falta consistência. O diretor parece querer manter sua assinatura sem se comprometer com o radicalismo que o tema exige.
Em sua essência, O Sobrevivente é uma história sobre a fabricação da verdade e a banalização da dor. O livro de King, escrito em 1982, antecipava com precisão o nosso presente; o império das fake news, o voyeurismo midiático e a espetacularização da violência. Wright tenta atualizar essas ideias, mas tropeça ao não escolher entre o sarcasmo e o desespero.
Como sátira, o filme não é afiado o suficiente. Sua distopia é próxima demais da realidade — e, portanto, menos caricatural. Já como drama, falta-lhe sutileza; quando a narrativa se torna mais sombria, Wright parece desconfortável em abandonar o ritmo ágil que o consagrou. A mistura resulta em uma obra que provoca, mas raramente fere.
Mesmo as cenas de ação, que deveriam carregar o DNA do diretor, carecem de invenção. São competentes, mas não memoráveis — longe da inventividade rítmica de Em Ritmo de Fuga ou da coreografia precisa de Scott Pilgrim contra o Mundo. O filme explode, mas não reverbera.
O Sobrevivente é um bom filme. É bem filmado, bem atuado, e exala competência técnica em cada plano. Mas falta a ele algo que Wright sempre entregou com naturalidade; identidade. Aqui, sua voz parece diluída entre o respeito à fonte e o desejo de fazer um espetáculo acessível. O resultado é uma distopia esteticamente impecável e emocionalmente cautelosa — como se o diretor estivesse sempre olhando por cima do ombro, temendo trair um dos lados de seu público.
O filme estreia em 20 de novembro nos cinemas.
Avaliação - 7/10
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