Crítica | Pluribus - Inquietante, bela e dolorosamente humana, mesmo quando fala sobre um mundo que decidiu deixar a humanidade para trás.
| Divulgação | Apple TV+ |
• Por Alisson Santos
Há séries que retratam o apocalipse com explosões, ruínas e hordas em desespero. Pluribus escolhe o caminho oposto; o silêncio. Em vez do caos, oferece harmonia. Em vez do grito, um sorriso sereno demais. E é justamente nessa calmaria artificial que a nova criação de Vince Gilligan encontra sua força mais perturbadora. A primeira temporada é menos sobre o fim do mundo e mais sobre o fim daquilo que nos torna humanos; o conflito, a dor, o desejo de ser alguém único.
A premissa já nasce poderosa. Um sinal vindo do espaço, decodificado como uma sequência viral, desencadeia uma transformação global; quase toda a humanidade passa a compartilhar uma consciência coletiva. Não há destruição visível, nem corpos nas ruas. Há pessoas pacíficas, cooperativas, felizes. A sociedade, enfim, parece ter resolvido seus maiores dilemas. Mas Pluribus é sábia ao sugerir, desde o primeiro episódio, que toda utopia carrega uma violência invisível — aquela que apaga o “eu”.
Nesse mundo estranho, acompanhamos Carol Sturka, interpretada com precisão dolorosa por Rhea Seehorn. Carol é uma escritora cínica, irônica, emocionalmente ferida, que retorna a Albuquerque no exato momento em que a humanidade deixa de ser plural para se tornar uma só voz. Imune à chamada Junção, ela observa ao redor uma população que fala como se tivesse ensaiado cada palavra, que oferece ajuda com gentileza excessiva e que trata a tristeza como um erro de programação. O luto pela perda da esposa, Helen, durante o surto, transforma Carol em uma espécie de relíquia viva; talvez a última pessoa que ainda sente dor em um mundo que decidiu que sentir dói demais.
Seehorn entrega aqui uma atuação que consolida sua transição definitiva para o panteão das grandes intérpretes da TV contemporânea. Sua Carol é espinhosa sem ser caricata, amarga sem perder humanidade. Cada olhar desconfiado, cada resposta atravessada ao coletivo, carrega a tensão de quem resiste não apenas a um inimigo externo, mas à tentação íntima de abrir mão de tudo e descansar naquela felicidade fabricada. O espectador sente que, em muitos momentos, o maior perigo não é ser forçada a se juntar à mente coletiva — é querer fazê-lo.
Ao redor dela, Pluribus constrói personagens que aprofundam o dilema central da série. Karolina Wydra vive Zosia, uma representante da colmeia que se torna o principal elo entre Carol e o novo mundo. Zosia é educada, solícita, quase maternal. Mas sua calma absoluta, desprovida de qualquer rachadura emocional, é mais inquietante do que qualquer vilão tradicional. Já Carlos Manuel Vesga interpreta Manousos Oviedo, outro imune, mas que escolhe o isolamento radical. Ele não confia no coletivo, mas tampouco acredita que a resistência trará algo além de mais sofrimento. Sua presença introduz uma terceira via; nem adesão, nem heroísmo — apenas sobrevivência cética.
O maior triunfo de Pluribus está em sua atmosfera. Gilligan e sua equipe entendem que o verdadeiro horror não está no que explode, mas no que parece funcionar bem demais. As ruas vazias, as casas impecáveis, as conversas tranquilizadoras que soam como discursos terapêuticos intermináveis — tudo cria uma sensação de estranhamento constante. Cada cena que deveria transmitir segurança carrega uma tensão subterrânea, como se algo estivesse profundamente errado, mesmo quando ninguém levanta a voz.
Visualmente, a série aposta em uma estética limpa, quase asséptica, que reforça a ideia de um mundo “curado”. A fotografia evita contrastes extremos, privilegiando luzes suaves e composições organizadas demais, como se o próprio enquadramento tivesse sido contaminado pela Junção. A trilha sonora, econômica, surge nos momentos certos para lembrar que, sob aquela ordem perfeita, pulsa algo que não deveria estar ali.
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Narrativamente, Pluribus abraça o ritmo lento e contemplativo. Não é uma série para maratonar distraído. Ela exige atenção, pede que o espectador permaneça nos silêncios, nos diálogos que parecem simples, mas carregam camadas de sentido. O humor negro surge como alívio e provocação, especialmente nas interações entre Carol e o coletivo, quando a franqueza cortante dela expõe o absurdo daquela “paz” compulsória.
Tematicamente, a série se alinha às melhores tradições da ficção científica filosófica. O que vale mais; um mundo sem guerras, sem desigualdade e sem solidão, ou o direito de sentir raiva, tristeza, ciúme e amor de forma imperfeita? A felicidade tem valor se não pode ser recusada? A individualidade é um luxo egoísta quando comparada ao bem-estar coletivo? Pluribus não entrega respostas. Ela coloca o espectador no mesmo impasse de Carol e o obriga a encarar o desconforto de suas próprias escolhas.
Para quem conhece a obra de Vince Gilligan, há algo de familiar nessa construção de tensão moral e nesse foco obstinado em personagens quebrados. Mas, ao contrário de Breaking Bad ou Better Call Saul, aqui não se trata da queda de um indivíduo, e sim da dissolução de todos. O mal não é um cartel, nem uma ambição desmedida — é a promessa de uma vida sem dor. E talvez essa seja a virada mais ousada de sua carreira; transformar a utopia no verdadeiro antagonista.
Ao final da temporada, Pluribus não deixa a sensação de fechamento, mas de assombro. É como acordar de um sonho bonito demais e perceber que algo essencial ficou para trás. A série permanece na mente porque toca em um medo profundo e contemporâneo; o de que, em nossa busca por conforto, eficiência e paz, possamos aceitar abrir mão daquilo que nos torna singular.
Pluribus é ficção científica de alto nível, mas também é um drama íntimo sobre luto, identidade e resistência emocional. É uma obra que aposta na inteligência do público e confia que grandes ideias ainda podem encontrar espaço na televisão de prestígio. Inquietante, bela e dolorosamente humana, mesmo quando fala sobre um mundo que decidiu deixar a humanidade para trás, a série se impõe como uma das estreias mais marcantes dos últimos anos.
No fim, a pergunta que ela deixa ecoando é simples e devastadora; se a felicidade perfeita batesse à sua porta, exigindo apenas que você deixasse de ser quem é… você abriria?
A primeira temporada de Pluribus já está disponível no Apple TV+.
Avaliação - 9/10
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