Conto | Aquilo que Escuta de Volta

Divulgação | MDH Entretenimento

• Por Alisson Santos 

Eu trabalhava analisando padrões acústicos captados por sondas em ambientes extremos. Era um trabalho técnico, repetitivo — traduzir ruídos em gráficos, transformar vento em dados. Marte era perfeito para isso; morto, estável, previsível.

Ou pelo menos era isso que diziam.

Os microfones da nova sonda — mais sensíveis que qualquer coisa antes — começaram a enviar gravações contínuas da região da Cratera Erebus. Vento baixo, constante. Frequências graves dominando tudo. Nada fora do esperado.

Até o arquivo 77-B.

Eu estava quase cochilando quando aquilo atravessou o áudio.

Não foi alto.

Não foi súbito.

Foi… errado.

Como se o som tivesse nascido no lugar errado da realidade.

Puxei os fones do ouvido na hora, com o coração disparando. Não por susto comum — mas por uma sensação instintiva, animal. Como se meu corpo tivesse entendido algo que minha mente ainda não.

Esperei alguns segundos. Voltei a escutar.

Nada.

Só o vento marciano.

Mas havia algo ali… um resíduo. Como se o áudio tivesse sido ferido.

Reproduzi de novo, dessa vez reduzindo as frequências altas.

E então eu ouvi.

Não era um grito.

Era algo tentando ser um grito.

Como se uma coisa que nunca teve garganta estivesse imitando dor.

Passei horas puxando arquivos antigos. Dias, na verdade.

E encontrei mais.

Espalhados.

Raros.

Mas sempre presentes.

E havia um padrão.

Eles não estavam fixos.

Eles estavam… se movendo.

Abri um mapa da trajetória da sonda e marquei cada ocorrência.

A linha que se formou me gelou.

Não era aleatória.

Era uma curva suave, quase inteligente.

Como algo que não só se movia — mas acompanhava.

A sonda não estava encontrando o som.

O som estava encontrando a sonda.

Na terceira noite sem dormir, comecei a sonhar.

Não com Marte como conhecemos.

Mas com Marte antes.

Não havia cidades.

Havia estruturas.

Coisas erguidas sem forma definida, como se arquitetura e carne fossem a mesma coisa.

E havia… vibração.

Tudo vibrava.

O solo, o ar, os corpos.

Até que algo caiu do céu.

Não uma nave.

Um impacto sem forma.

E o mundo… aprendeu a gritar.

Acordei vomitando.

Não comida.

Poeira.

Fina. Vermelha.

E com um gosto metálico que eu nunca tinha sentido antes.

Voltei aos dados.

As amostras coletadas pela sonda — análises microscópicas — mostravam algo novo.

Não vida.

Mas também não morte.

Partículas que reagiam ao som.

Não como resposta.

Como alimentação.

Quando o “grito” aparecia nos registros… essas partículas se multiplicavam.

Quando não havia som… elas entravam em estado inerte.

Como se estivessem esperando.

Ou ouvindo.

Tentei reportar.

Meu supervisor sorriu como quem já tinha ensaiado aquilo.

— "Você está cansado. Interpretação errada de dados é comum nesse estágio."

Mas naquela mesma tarde, todos os arquivos foram reclassificados.

Restritos.

Selados.

Como se nunca tivessem existido.

Exceto… pelas cópias locais que eu escondi.

Mostrei tudo para o único colega em quem confiava.

Rafael não riu.

Ele ouviu.

E então fez uma pergunta que eu não tinha considerado:

— "E se isso não for um som?"

— Como assim?

— "E se for o contrário?"

Ele virou a tela para mim.

— "E se isso for… algo usando o som como forma de existir?"

Naquela noite, analisamos o áudio invertido.

Não recomendo isso a ninguém.

Porque o que ouvimos… não era mais imitação.

Era linguagem.

Não havia palavras.

Mas havia intenção.

Chamado.

Insistência.

E algo pior; reconhecimento.

Rafael começou a sangrar pelo ouvido primeiro.

Ele disse que o som estava diferente.

Mais próximo.

Eu não ouvi nada.

Até ouvir.

Baixo.

Constante.

Dentro da cabeça.

No dia seguinte, ele não apareceu.

Fui até o apartamento dele.

A porta estava aberta.

O silêncio… pesado demais.

Não havia sinais de luta.

Só o corpo.

Sentado no chão.

As unhas arrancadas.

As paredes marcadas com linhas irregulares — padrões que, quando vistos de longe…

Pareciam ondas.

E no centro da sala, escrito com o próprio sangue:

"ELE NÃO PRECISA DO AR"

Voltei para casa tremendo.

E liguei o sistema pela última vez.

Só para confirmar uma coisa.

A trajetória.

O padrão.

O movimento.

Não estava mais em Marte.

As últimas gravações não vinham da sonda.

Vinham daqui.

Da Terra.

Agora eu entendo.

Não era um organismo.

Não era um vírus.

Não era vida como conhecemos.

Era…

propagação.

Mas não por matéria.

Por percepção.

Ele não atravessa o espaço.

Ele atravessa a escuta.

Se você ouviu algo estranho recentemente…

Um zumbido.

Um eco sem origem.

Um som que parece vir de dentro…

Então já é tarde.

Porque o maior erro não foi trazer amostras de Marte.

Foi ter ouvido.

E pior ainda…

ter entendido.

Eles estão entre nós.

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