Crítica | Tatame - Mais do que um drama esportivo, Tatame é um retrato sufocante de controle e coerção, onde competir pode significar abrir mão da própria existência.
| Divulgação | Kajá Filmes |
• Por Alisson Santos
Há filmes que utilizam o esporte como metáfora. Tatame, codirigido por Zar Amir Ebrahimi e Guy Nattiv, faz algo mais incisivo; transforma o esporte em um campo de guerra onde as regras existem apenas como ilusão. O longa não está interessado na vitória, no pódio ou na glória competitiva — ele está interessado no instante em que o jogo deixa de ser jogo e passa a ser instrumento de poder.
A história acompanha Leila, judoca iraniana em plena disputa por uma medalha mundial, cuja trajetória é violentamente atravessada por uma ordem estatal; ela deve perder ou abandonar a competição para evitar enfrentar uma atleta israelense. O ponto de partida, inspirado em episódios reais, poderia facilmente resvalar em um drama protocolar sobre injustiça. Mas Tatame se recusa a seguir esse caminho previsível. O que o filme constrói, com precisão quase cirúrgica, é um estudo sobre coerção — não apenas física, mas psicológica, moral e identitária.
Diferente de muitos dramas esportivos ocidentais, que ainda romantizam a superação individual, aqui a ideia de escolha é constantemente corroída. Leila não é uma heroína tradicional; ela é alguém sendo lentamente comprimida por forças invisíveis, até o ponto em que qualquer decisão parece já ter sido tomada por outros. Essa sensação de aprisionamento é o que aproxima o filme de certos filmes políticos europeus e até de obras iranianas contemporâneas, onde o conflito central não está no evento em si, mas na impossibilidade de agir livremente dentro dele.
A direção opta por um estilo visual frequentemente em preto e branco, que elimina qualquer distração estética e reforça a aridez emocional da narrativa. Não há glamour no tatame, não há espetáculo. A câmera insiste em rostos suados, em músculos tensionados, em olhares que carregam mais peso do que qualquer golpe. Essa escolha dialoga com uma tradição de cinema mais rigorosa, quase documental, onde cada enquadramento parece buscar não beleza, mas verdade. E essa verdade é desconfortável.
A atuação de Arienne Mandi é o eixo emocional do filme. Seu desempenho evita qualquer exagero melodramático, preferindo uma contenção que torna tudo mais angustiante até seus eventuais momentos de explosão. Mas ela raramente explode — e é justamente isso que torna sua situação mais devastadora. Há uma implosão constante, uma tentativa de manter o controle enquanto tudo ao redor desmorona.
O que diferencia Tatame de outras obras com temática semelhante é sua recusa em transformar o conflito em discurso explícito. Não há longos monólogos sobre política, nem tentativas didáticas de explicar o contexto. Em vez disso, o filme confia na progressão da tensão. Telefonemas interrompem lutas. Ordens chegam de forma seca, incontestável. Pequenos gestos — um olhar hesitante, uma pausa antes de entrar no tatame — passam a carregar um peso desproporcional. Eu valorizo demais esse minimalismo narrativo, que valoriza o subtexto como motor dramático, em vez da exposição direta.
| Divulgação | Kajá Filmes |
Há também uma dimensão quase existencial no percurso de Leila. Em determinado ponto, a questão deixa de ser “ganhar ou perder” e passa a ser “existir ou desaparecer”. O esporte, que deveria ser um espaço de afirmação individual, torna-se um mecanismo de apagamento. E é nesse deslocamento que o filme encontra sua força mais perturbadora; ele revela como estruturas de poder podem se infiltrar até mesmo nos territórios mais aparentemente neutros.
O ritmo é deliberadamente tenso, por vezes sufocante. Não há alívio, não há respiro. Cada avanço na competição aumenta o risco, não a esperança. Isso subverte completamente a lógica clássica do gênero esportivo, onde o progresso costuma ser associado a redenção. Em Tatame, avançar significa se aproximar de um ponto de ruptura inevitável.
Eu acho que é um filme que repele o espectador casual, ele possui uma rigidez formal que, em alguns momentos, pode afastar quem procura um drama comum. A insistência na contenção emocional e na estética austera pode soar fria para quem espera um envolvimento mais imediato. Mas essa frieza é, em grande medida, intencional. Ela reflete um mundo onde emoções precisam ser reprimidas para sobreviver.
No fim, Tatame é um filme que ecoa depois de terminar, não pelas cenas de combate, mas pelas ausências que ele evidencia. Pela liberdade que nunca chega. Pela escolha que nunca foi realmente dada.
Tatame chega exclusivamente aos cinemas brasileiros no dia 02 de abril, com a distribuição da Kajá Filmes.
Avaliação - 8/10
Comentários
Postar um comentário