Criador de conteúdo, você não vai conseguir boicotar Harry Potter

Divulgação | HBO

• Por Alisson Santos 

A ideia de que criadores de conteúdo conseguiriam boicotar algo do tamanho de Harry Potter parte de uma premissa equivocada sobre o próprio funcionamento da influência na internet — e, principalmente, sobre o alcance real dessas vozes fora das bolhas digitais. Existe hoje uma confusão entre “falar contra” e “reduzir impacto”, como se engajamento negativo não fosse, ainda assim, engajamento. E no ecossistema atual, engajamento é combustível. Não importa se ele vem carregado de crítica, revolta ou militância — ele continua impulsionando o assunto, ampliando alcance, despertando curiosidade e, muitas vezes, convertendo espectadores em consumidores.

O influenciador moderno deixou de ser percebido como alguém que “vende” algo de forma direta. Ele é, acima de tudo, um amplificador. Um vetor de atenção. Quando um criador decide gravar um vídeo dizendo “não assistam isso”, o que ele efetivamente faz é inserir aquele produto no radar de milhares — às vezes milhões — de pessoas que sequer estavam pensando sobre aquilo. E as marcas já entenderam isso. Em vez de silêncio, que é a única forma real de boicote em larga escala, ele gera ruído. E ruído, nesse contexto, é publicidade.

Esse fenômeno se intensifica quando olhamos para a estrutura social do Brasil. Existe uma distância enorme entre o que se discute nas redes sociais e o que realmente ocupa o pensamento da maioria da população. Criadores de conteúdo, críticos e comunidades online vivem em bolhas muito específicas: bolha do cinema, bolha geek, bolha política, bolha militante. Dentro desses espaços, determinados debates parecem centrais, urgentes, quase universais. Mas fora deles, a realidade é outra.

Quando você desloca o olhar para a vida cotidiana — especialmente em regiões periféricas — percebe que o consumo de entretenimento segue uma lógica muito mais simples e direta. A pessoa que passa horas em transporte público, enfrenta uma jornada de trabalho exaustiva e chega em casa buscando algum alívio não está, na maioria dos casos, atravessada por debates ideológicos complexos sobre autores, posicionamentos políticos ou disputas culturais. Ela quer descansar. Quer se distrair. Quer algo que funcione.

E é nesse ponto que o tamanho de uma marca como Harry Potter se torna praticamente imune a tentativas de boicote vindas de nichos digitais. A franquia já ultrapassou, há muito tempo, a figura de sua criadora, J. K. Rowling. Ela se tornou um fenômeno cultural autônomo, incorporado ao imaginário coletivo de diferentes gerações e classes sociais. É um símbolo reconhecível, quase universal. Pessoas que nunca leram os livros sabem o que é Hogwarts. Pessoas que nunca acompanharam as polêmicas sabem identificar um bruxo com uma cicatriz na testa.

Essa dissociação entre obra e criador fica ainda mais evidente quando você testa na prática. Pergunte para pessoas fora do seu círculo digital quem é J. K. Rowling. Uma parcela significativa simplesmente não saberá responder. Algumas nem sequer saberão que se trata de uma mulher. Mas todas — ou quase todas — saberão o que é Harry Potter. Isso revela algo fundamental; a obra já não depende mais da identidade de quem a criou para existir no mundo.

E isso não é exclusivo desse caso. Grandes franquias culturais funcionam como organismos próprios. Elas atravessam gerações, mudam de formato, passam por diferentes mídias e continuam relevantes porque estão enraizadas em algo mais profundo; memória coletiva, nostalgia e pertencimento cultural. Quando um novo produto surge — seja uma série, um filme ou um jogo — ele não precisa convencer o público do zero. Ele ativa algo que já está lá.

Foi exatamente isso que aconteceu com o sucesso de adaptações recentes do universo como Hogwarts Legacy, mesmo diante de campanhas organizadas de boicote. A lógica é simples; o público que consome não é o mesmo que milita. E mesmo quando há interseção, ela é pequena em termos proporcionais. A internet amplifica vozes, mas não necessariamente representa a maioria.

Existe também um elemento de classe que raramente é discutido com profundidade nesse tipo de debate. O acesso à discussão sobre cultura pop, indústria do entretenimento e posicionamento político de artistas ainda é, em grande parte, mediado por tempo, acesso à informação e capital cultural. Isso não significa que pessoas de classes mais baixas não tenham opinião ou consciência crítica — longe disso — mas sim que as prioridades são diferentes. A urgência da vida prática frequentemente supera o interesse por disputas simbólicas que não impactam diretamente o cotidiano.

Por isso, há um certo grau de prepotência quando criadores assumem que possuem alcance suficiente para moldar decisões de consumo em larga escala, especialmente em camadas sociais com as quais eles não têm contato direto. A influência existe, claro — mas ela é localizada, concentrada, muitas vezes circular. Ela ecoa dentro da própria bolha de privilégios.

E aí surge a contradição central; ao tentar boicotar, o criador reforça exatamente aquilo que diz combater. Ele transforma o produto em pauta, alimenta algoritmos, gera curiosidade e, no fim, contribui para o aumento de relevância. É um ciclo onde a crítica vira marketing involuntário.

Isso não invalida o direito — ou até a importância — de posicionamento. Pessoas podem e devem escolher o que consomem com base em seus valores. Podem criticar, problematizar, debater. Mas é preciso compreender o limite entre posicionamento individual e impacto coletivo real. Uma coisa é decidir não assistir. Outra completamente diferente é acreditar que isso, amplificado em vídeo, resultará em um boicote efetivo de massa.

No fim das contas, a pergunta que fica é menos sobre ética e mais sobre dinâmica de atenção. Em um mundo onde visibilidade é moeda, até a rejeição pode ser convertida em alcance. E enquanto isso for verdade, franquias do tamanho de Harry Potter continuarão existindo acima — e apesar — de qualquer tentativa de silenciamento vinda de dentro das redes.

Comentários

  1. Igor Lima28/3/26

    Texto colossal! Acho que foi um dos maiores tapas na cara sociais que eu li esse ano. Absurdo.

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