Crítica | Demolidor: Renascido (2° Temporada) - Tudo aquilo que torna Matt Murdock um personagem fascinante está presente aqui, agora inserido em uma narrativa que não tem medo de assumir riscos.
| Divulgação | Disney+ |
• Por Alisson Santos
Existe algo quase incômodo na segunda temporada de Demolidor: Renascido. Não é apenas a violência — que é constante, crua e, muitas vezes, sufocante. É a sensação de que ninguém ali está seguro. Nem os personagens. Nem o espectador. Desde o primeiro episódio, a temporada deixa claro que não há mais espaço para respiro. O que antes era uma escalada narrativa agora se transforma em um estado permanente de tensão. Cada cena parece carregada de consequência, como se qualquer decisão pudesse implodir tudo — e, muitas vezes, implode mesmo.
Muito disso vem da forma como a série entende seus personagens. Matt Murdock nunca esteve tão exposto. Não no sentido físico — embora os combates aqui sejam mais brutais —, mas no emocional. Existe um desgaste visível, uma exaustão que se acumula episódio após episódio. Ele não luta apenas contra o crime. Ele luta contra a ideia de que ainda vale a pena lutar. E então há Wilson Fisk.
Se Matt é o desgaste, Fisk é o avanço. Um avanço esmagador, institucional, impossível de ignorar. Como prefeito, ele não precisa mais agir nas sombras — e essa é talvez a decisão mais inteligente da temporada. O vilão deixa de ser apenas uma ameaça física para se tornar um sistema inteiro. Ele não quebra ossos com as próprias mãos (embora ainda faça), ele quebra estruturas, manipula narrativas, redefine quem é herói e quem é criminoso.
É impossível não perceber os paralelos políticos que a série constrói. E não são sutis. A Força-Tarefa Anti-Vigilante surge como uma extensão direta desse novo poder — violenta, legitimada e assustadoramente familiar com o momento político dos Estados Unidos. A comparação pode parecer extrema, mas a série trabalha justamente nesse limite; o momento em que a autoridade deixa de proteger para começar a oprimir.
E é nesse cenário que Benjamin Poindexter, o Mercenário, retorna como uma força absolutamente caótica. Se Fisk representa o controle e Matt representa o conflito moral, Mercenário é a ruptura. Ele não segue lógica, não responde a sistemas — ele apenas destrói. E a série entende isso perfeitamente, usando o personagem como catalisador de algumas das sequências mais tensas e imprevisíveis da temporada.
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A direção acompanha essa proposta com uma confiança rara dentro do universo Marvel. Se antes a violência era seca, desconfortável, quase documental, agora ela se aproxima de algo mais estilizado. Ainda dói — mas impressiona também. Ainda é agressiva — mas, em certos momentos, beira o espetáculo. Existe uma construção mais próxima dos quadrinhos, onde o exagero e a estética caminham lado a lado com o impacto físico. E essa escolha não é um erro. É uma identidade.
A série entende que não está mais operando no mesmo espaço criativo da Netflix. Agora, inserida de forma mais orgânica no universo maior da Marvel, ela equilibra dois impulsos; o realismo cru que a consagrou e a estilização quase operística dos quadrinhos. O resultado é uma ação que, paradoxalmente, parece mais controlada — mas não menos intensa.
Mas talvez o maior acerto esteja na estrutura. Diferente de muitas produções recentes do estúdio, que parecem filmes fragmentados, Demolidor: Renascido abraça sua natureza episódica. Cada capítulo tem ritmo próprio, conflitos internos e consequências que reverberam. Personagens secundários deixam de ser acessórios narrativos e passam a interferir diretamente no curso da história. Há uma sensação constante de que tudo importa — e isso mantém o envolvimento em um nível alto do início ao fim. Essa escolha também permite que a temporada arrisque mais. E ela arrisca. O último episódio da temporada é uma das melhores coisas já feitas de Demolidor.
Mas o mais importante, algumas decisões narrativas são desconfortáveis. Outras são quase cruéis. Mas todas carregam peso. A série não tem medo de ferir seus personagens — física e emocionalmente — e, mais importante, não tenta consertar tudo depois. Tudo aquilo que torna Matt Murdock um personagem fascinante está presente aqui, agora inserido em uma narrativa que não tem medo de assumir riscos. O resultado é um salto evidente em relação à primeira temporada, resgatando com mais precisão a essência que consagrou a versão anterior, ao mesmo tempo em que a atualiza com confiança.
O primeiro episódio da segunda temporada de Demolidor: Renascido já está disponível no Disney+.
Avaliação - 8/10
O final desse primeiro episódio 🫢
ResponderExcluirO começo foi extremamente promissor. Só achei que dá uma barriga no meio.
ResponderExcluirEu sinto que, depois de tempos sombrios, estamos testemunhando o novo auge do UCM. Tudo esse ano sendo bem recebido, se Homem-Aranha e Vingadores forem bons, esquece.
ResponderExcluirTô confiando em você que o último episódio é tudo isso mesmo.
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