Crítica | O Velho Fusca - Em certos momentos, a sensação é que ser atropelado por esse fusca poderia render uma experiência mais impactante do que os 97 minutos que o filme oferece.
| Divulgação | A2 Filmes |
• Por Alisson Santos
Existe uma linha muito tênue entre o cinema popular e o cinema que subestima o público. Em teoria, O Velho Fusca, dirigido por Emiliano Ruschel, tenta ocupar o primeiro espaço; um drama familiar leve, com pitadas de comédia e nostalgia, estruturado em torno da ideia de reconectar gerações através de um objeto simbólico. Na prática, no entanto, o filme acaba escorregando constantemente para algo mais incômodo — um produto artificial, carregado de clichês, que parece menos interessado em contar uma história do que em simular uma sensação de afeto.
A premissa, isoladamente, não é ruim. O jovem Junior, interpretado por Caio Manhente, descobre um fusca esquecido na garagem do avô — vivido por Tonico Pereira — e decide restaurá-lo. O carro, naturalmente, torna-se uma metáfora para a reconstrução de uma família marcada por ressentimentos e traumas. O avô é um homem amargurado, endurecido por uma juventude violenta e por experiências de guerra, alguém que observa a geração atual com desprezo quase caricatural.
É o tipo de estrutura dramática que poderia render um bom estudo de personagens; o choque entre gerações, a memória como herança emocional, o peso do passado nas relações familiares. Mas O Velho Fusca nunca se aproxima desse nível de complexidade.
O roteiro de Bill Labonia opera quase inteiramente no território do lugar-comum. Os personagens não possuem nuances nem contradições; eles são construídos como arquétipos extremamente simplificados. Junior é o jovem sensível e incompreendido. O avô é o velho rabugento que odeia a modernidade. Os pais aparecem como figuras funcionais, quase decorativas, enquanto o restante do elenco orbita a narrativa como se estivesse cumprindo funções dramáticas pré-programadas. Nada surpreende. Nada se aprofunda. Tudo parece previamente mastigado.
E quando o roteiro tenta articular conflitos mais complexos, ele simplesmente não consegue sustentá-los. Os diálogos são frágeis, muitas vezes constrangedores, cheios de frases que soam artificiais ou excessivamente explicativas. Em vez de revelar personagens, as falas apenas reiteram o que o espectador já percebeu. O texto não tem ritmo, não tem ironia, não tem densidade — e frequentemente parece escrito para ser imediatamente substituído por algo que o filme considera mais eficiente; música.
É aqui que O Velho Fusca revela talvez seu problema mais gritante. A quantidade de canções que surgem ao longo da narrativa é tão grande que o filme frequentemente abandona qualquer tentativa de desenvolvimento dramático para se transformar em uma espécie de videoclipe prolongado. A trilha reúne nomes importantes da música brasileira, como Jorge Aragão, Teresa Cristina, Xande de Pilares e Péricles — artistas que, por si só, carregam uma força cultural enorme. Mas aqui a música parece menos uma escolha estética e mais um recurso de emergência.
| Divulgação | A2 Filmes |
Sempre que o roteiro ameaça revelar sua fragilidade, entra uma canção. Sempre que uma cena exige um mínimo de profundidade emocional, a narrativa simplesmente se dissolve em uma montagem musical. Em vez de complementar a dramaturgia, a trilha funciona como um preenchimento constante, quase como se o filme tivesse medo do silêncio — ou pior, medo de deixar seus personagens falarem demais. E talvez com razão, porque quanto mais eles falam, mais evidente se torna a pobreza do texto.
Esse problema inevitavelmente respinga no elenco. Há atores experientes em cena — como Cleo Pires e Danton Mello — e intérpretes jovens que já demonstraram talento em outros projetos, como Christian Malheiros. Mas todos parecem aprisionados dentro de personagens tão superficiais que só lhes resta recorrer a expressões exageradas, caras e bocas, reações amplificadas. O filme frequentemente flerta com um tom quase televisivo, onde o exagero substitui a construção dramática. Em vários momentos, a atuação parece menos interpretação e mais ilustração emocional. Acho que, tirando Tonico Pereira, que carrega grande parte desse humor escrachado contra a modernidade — dentro do arquétipo do velho ranzinza que despreza a geração atual —, o restante do elenco parece perdido em personagens pouco desenvolvidos. Curiosamente, é justamente nesse exagero que sua atuação encontra algum sentido dentro do filme. Enquanto os demais intérpretes parecem reféns de figuras rasas e de um texto frágil, Tonico ao menos abraça a caricatura e a transforma em uma presença cômica que funciona melhor dentro do tom irregular da obra.
Nem mesmo o Rio de Janeiro escapa dessa simplificação. O filme insiste em afirmar que a cidade é um personagem central da narrativa, mas o que vemos é um Rio idealizado, reduzido a cartões-postais solares e imagens turísticas. Não há complexidade urbana, não há conflito social, não há textura real. É um Rio de propaganda — bonito, limpo e dramaticamente vazio.
O fusca, que deveria funcionar como coração simbólico da história, também sofre do mesmo problema. A ideia de usar um carro antigo como metáfora para reconstruir afetos poderia ser potente. Mas aqui o veículo nunca ganha peso dramático verdadeiro. Ele é apenas um dispositivo de roteiro, um pretexto para colocar personagens em movimento sem que o filme precise realmente desenvolver suas relações.
No fim das contas, O Velho Fusca parece acreditar que nostalgia, música e paisagens bonitas são suficientes para fabricar emoção. Não são. O resultado é um filme que tenta desesperadamente parecer caloroso, mas que frequentemente transmite a sensação oposta; a de algo artificial, calculado e profundamente raso. Um produto que parece inspirado por fórmulas de comédias familiares americanas — só que reproduzidas sem a mínima compreensão de por que elas funcionam (quando funcionam).
Talvez o maior problema de O Velho Fusca seja justamente esse; ele quer ser um filme sobre memória, família e reconciliação, mas não demonstra interesse real em explorar nenhuma dessas coisas. E quando a história termina, fica uma sensação curiosa — a de que, no fundo, o filme não tinha muito a dizer. Por isso cantou tanto.
O Velho Fusca estreia em 19 de março nos cinemas.
Avaliação - 3/10
Meu Deus do céu, destruiu o filme hahaha
ResponderExcluirMinha nossa senhora HAHAHAHAH
ResponderExcluir