Beatriz Saldanha revela os bastidores da Mostra Mestras do Macabro e a "era de ouro" do horror feminino

Divulgação | MDH Entretenimento

• Por Alisson Santos 

Em uma entrevista conduzida por Tabatha Oliveira para a MDH Entretenimento, Beatriz Saldanha, idealizadora e curadora da segunda edição da Mostra Mestras do Macabro, abordou o impacto, a importância e as nuances da participação feminina no cinema de horror. Historicamente visto como um gênero dominado por perspectivas e espectadores masculinos, o terror tem passado por uma "era de ouro" contemporânea, impulsionada por mulheres que não apenas dirigem, mas atuam em diversas funções essenciais nos bastidores e à frente das câmeras.

A conversa lança luz sobre os critérios de curadoria, a evolução do gênero sob a ótica feminina e como a mostra, que compila 38 filmes, consolida a visão da mulher no macabro, misturando reflexões sobre corpo, identidade e subversão.

A DESCONSTRUÇÃO DO "PLAYGROUND DOS MENINOS"

Durante muito tempo, o senso comum ditava que as mulheres não consumiam ou não se adequavam ao gênero de horror. Beatriz desmistifica essa ideia e aponta para o crescimento expressivo da presença feminina na direção, que ganhou força a partir dos anos 2010. Ela relata que o conceito da mostra nasceu justamente da necessidade de evidenciar esse cenário:

"A Mostra Mestras do Macabro ela começou com a vontade assim de destacar o trabalho das mulheres fazendo filme de horror, porque a gente sabe que o horror por muito tempo ele foi como um playground dos meninos assim, né? Tipo: 'ah, as meninas não veem filmes de terror'."

Saldanha defende que a presença de mais mulheres no comando naturalmente injeta visões de mundo mais amplas para a tela, diversificando assim as temáticas e os estilos dentro do gênero.

COMPLEXIDADE FEMININA E NOVAS ABORDAGENS DA VIOLÊNCIA 

Ao analisar o que difere o cinema de horror atual dirigido por mulheres daquele feito tradicionalmente (como nos anos 80 por homens), a curadora ressalta a profundidade no desenvolvimento das personagens e a mudança no tratamento de temas sensíveis.

"As mulheres acabavam trazendo temas que em filmes feitos por homens você não via, você via uma complexidade maior das personagens mulheres... havia mais chance também delas sobreviverem nos filmes, né, de assassinos... também tem muitos filmes de horror que têm uma violência sexual, e nos filmes feitos por mulheres isso é mostrado geralmente de uma maneira diferente."

As temáticas passam a incorporar elementos biológicos e sociais inerentes à experiência feminina, como a maternidade, os hormônios e os relacionamentos. A mostra também serve de espaço para celebrar o trabalho de mulheres em papéis técnicos — como fotografia, maquiagem e roteiro — lembrando, por exemplo, o impacto da maquiadora no clássico O Vingador Tóxico (1984).

A MONSTRUOSIDADE COMO INSTRUMENTO DE LIBERTAÇÃO 

Um dos pontos mais ricos da entrevista diz respeito ao uso do grotesco. Baseada em suas pesquisas acadêmicas de doutorado, Beatriz explora como a figura da "mulher monstruosa" e a exibição visceral de fluidos corporais deixam de ser simples recursos de choque para se tornarem símbolos de rebeldia frente às regras patriarcais.

"A questão da monstruosidade das mulheres nesses filmes feitos por mulheres, muitas vezes ele sai de um elemento meramente grotesco para um elemento de rebeldia, de empoderamento... em alguns contextos artísticos eles podem ser usados como uma forma de você dizer: 'Ah, eu não me importo com as regras, né?' e ser uma forma de libertação."

CURADORIA: O EQUILÍBRIO ENTRE O COMERCIAL E O EXPERIMENTAL 

Equilibrar produções tão distintas em um evento que já possui um recorte bastante específico é um desafio de curadoria. Para não afastar o grande público, Beatriz opta por navegar pelas mais variadas vertentes do cinema, desde obras abertamente comerciais ("filmes de shopping", como ela chama) até longas fortemente autorais.

"Eu não gosto de maneira alguma de me limitar... se eu nichar ainda mais para falar assim: 'Ah, não, só vou mostrar filmes experimentais ou só vou mostrar filmes comerciais', eu perco a chance de dialogar com o público muito mais amplo."

Ainda assim, obras desafiadoras e subversivas ganham sessões de destaque — como é o caso das exibições em homenagem à diretora estadunidense Cecelia Condit, cujo foco é estritamente o horror experimental.

RECOMENDAÇÕES PARA OS "INICIANTES" NO TERROR 

Muitas pessoas evitam o gênero por medo dos habituais sustos ou cenas sangrentas (os jumpscares e gore). Para esse público, Beatriz Saldanha indicou duas produções da mostra que utilizam o terror através de abordagens criativas e inusitadas:

A Flor da Felicidade: "É um horror assim muito mais sugerido... é sobre uma mãe solo que cria flores artificiais e ela cria uma flor que se você cuida dessa flor, ela te devolve um tipo de cheiro que te dá felicidade... ele é mais tenso do que de fato assustador."

Vampira Humanista Procura Suicida Voluntário: "É sobre uma vampira que ela tem muita empatia pelas vítimas, então ela não consegue morder e ela precisa aprender de alguma forma a morder. Então é um filme que ele mistura comédia romântica com elementos de comédia e terror assim."

A conversa no MDH Entretenimento reforça que a Mostra Mestras do Macabro é, em essência, uma afirmação política e uma festa cinematográfica sobre o poder e a multiplicidade do olhar feminino nas telonas. E, para o público que acompanha a mostra, fica o valioso lembrete da curadora ao final da entrevista; não deixar de prestigiar as sessões dos filmes brasileiros, que contam majoritariamente com a presença enriquecedora das próprias cineastas e diretoras.

Assista à entrevista completa no nosso canal do YouTube

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