| Divulgação | MDH Entretenimento |
• Por Alisson Santos
Aviso: esse conto pode parecer triste, mas foi escrito com saudade — e com você em cada palavra. Como eu queria estar com você agora.
Ele não lembrava exatamente quando começou.
Talvez tenha sido no dia em que viu a foto dela pela primeira vez depois de anos — sorrindo ao lado de outro homem, vestida de branco, os olhos brilhando de uma felicidade que ele conhecia bem demais. Ou talvez tenha começado antes… naquelas madrugadas silenciosas em que o nome dela surgia sem ser chamado, como um sussurro antigo ecoando dentro do peito.
O fato é que nunca terminou.
O nome dela era Helena.
E ele ainda não conseguia dizê-lo sem sentir algo quebrar.
Mateus costumava acreditar que o tempo resolvia tudo. Era o que diziam, afinal. Que as pessoas seguem em frente, que novos amores chegam, que a vida se rearranja como móveis depois de uma mudança.
Mentira.
A vida não se rearranja.
Ela só aprende a conviver com o espaço vazio.
Eles tinham sido jovens — e isso, por si só, já era uma tragédia anunciada.
Porque jovens amam como se o mundo fosse acabar amanhã… e às vezes acaba mesmo.
Helena era riso fácil, olhos atentos e um jeito de encostar a testa na dele quando o mundo parecia grande demais. Ela falava sobre futuro como se fosse um lugar possível. Ele… ele só sabia viver o agora.
E foi aí que deu errado.
Não houve traição. Não houve gritos. Não houve um grande desastre.
Só o tempo.
Só escolhas mal feitas.
Só o momento errado.
Eles se perderam devagar… como quem não percebe que está afundando.
Mateus ainda lembrava dos beijos.
Não dos beijos intensos, desesperados, esses são fáceis de substituir.
Mas daqueles…
Os lentos.
Os que aconteciam no meio de uma conversa interrompida.
Os que não pediam nada em troca.
Os que diziam: "fica".
Esses nunca voltaram.
E ele nunca encontrou nada parecido.
Ela casou.
Ele soube por terceiros, como sempre acontece quando a vida de alguém deixa de te pertencer. Uma cerimônia bonita, disseram. Um homem bom. Estável. Presente.
Tudo o que ele não foi.
Mateus tentou não pensar nisso… mas falhou miseravelmente.
Porque o problema nunca foi o casamento.
Era a certeza.
A certeza absurda, irracional, quase doentia de que…
Ela ainda pensava nele.
No começo, ele brigava com essa ideia.
Chamava de ego. De carência. De delírio.
Mas então começaram os sinais.
Pequenos. Quase invisíveis.
Uma música que ela postou — a mesma que eles ouviam naquela viagem que nunca terminou direito.
Uma frase solta nas redes sociais.
Um “visualizou” rápido demais em algo antigo.
Detalhes.
Mas Mateus conhecia Helena.
Ele conhecia o jeito como ela falava sem falar.
E aquilo não era silêncio.
Era um eco.
As noites se tornaram mais longas.
Ele começou a conversar com a ausência dela como se fosse uma pessoa real.
— Você também sente, né?
Silêncio.
— Não pode ser só eu…
E no fundo… ele sabia.
Sabia com uma certeza que doía.
Ela sentia.
Mas escolheu ficar.
E aí veio o sonho.
Ou pelo menos… ele achou que era um sonho.
Helena estava ali.
Sentada na beira da cama, exatamente como fazia anos atrás. O mesmo cabelo, o mesmo olhar… mas havia algo diferente.
Algo quebrado.
— Você demorou — ela disse, com um sorriso triste.
Mateus não estranhou. Não perguntou como, nem por quê.
Só respondeu:
— Eu nunca fui embora.
Ela abaixou os olhos.
— Eu fui.
Silêncio.
Pesado. Denso.
— Você é feliz? — ele perguntou.
Helena demorou.
Demorou o suficiente para que a resposta já estivesse clara antes mesmo de vir.
— Eu vivo.
Aquilo foi pior do que qualquer “não”.
Depois daquela noite, tudo mudou.
Porque ele começou a vê-la.
Não em sonhos.
Acordado.
Refletida no vidro de um ônibus.
Parada na esquina, olhando para ele… e desaparecendo quando ele piscava.
Sentada em cadeiras vazias.
Sempre com o mesmo olhar.
Sempre com a mesma frase não dita.
Mateus começou a perder o controle da própria realidade.
Mas não se importava.
Porque, pela primeira vez em anos…
Ele não estava sozinho.
Até que decidiu encontrá-la.
De verdade.
Sem fantasmas. Sem ilusões.
Ele precisava saber.
Precisava ouvir dela.
A casa era bonita. Tranquila. Perfeita demais.
Ele quase desistiu na porta.
Mas bateu.
Uma vez.
Duas.
Três.
O homem atendeu.
Educado. Sorridente.
— Pois não?
Mateus hesitou.
— Eu… eu queria falar com a Helena.
O sorriso do homem desapareceu.
Não com raiva.
Com estranheza.
— Acho que você está enganado.
— Não… ela mora aqui. Eu sei.
O homem respirou fundo.
E então disse algo que partiu o mundo ao meio.
— A Helena morreu há três anos.
O som do mundo sumiu.
Mateus ficou ali, parado, tentando entender.
— Não… — ele sussurrou. — Não, isso… não…
— Acidente de carro — continuou o homem, sem emoção. — Foi rápido.
Silêncio.
— Você era amigo dela?
Mateus não respondeu.
Não conseguiu.
Porque tudo fazia sentido agora.
Os sonhos.
As aparições.
Os sinais.
Ela nunca deixou de pensar nele.
Porque nunca teve tempo de esquecer.
Naquela noite, ele voltou para casa em estado de choque.
Sentou na cama.
Esperou.
E ela veio.
Como sempre.
Sentada ali.
Silenciosa.
Real.
Mais real do que tudo.
— É verdade? — ele perguntou, com a voz quebrando.
Helena apenas assentiu.
— Por que… por que você não foi embora?
Ela sorriu.
Aquele sorriso que ele conhecia tão bem.
— Porque você nunca me deixou ir.
O ar ficou pesado.
Irrespirável.
— Você sente minha falta… tanto assim? — ela perguntou.
Mateus não respondeu.
Não precisava.
Ela sabia.
Sempre soube.
Ela se aproximou.
Devagar.
Como antes.
Como sempre.
Encostou a testa na dele.
E então…
Beijou.
Mas não era um beijo de amor.
Era um beijo de despedida.
Ou de convite.
Ele ainda não sabia.
Na manhã seguinte, encontraram Mateus morto.
Sem sinais de violência.
Sem explicação.
Apenas deitado na cama…
Com um leve sorriso no rosto.
E, dizem…
Que naquela mesma casa, agora vazia…
Às vezes, durante a madrugada…
Dá para ouvir duas vozes conversando baixinho.
Como quem nunca conseguiu se despedir.
Ou pior…
Como quem finalmente não precisa mais fingir.
Comentários
Postar um comentário