Crítica | O Drama - Um romance que começa como fantasia, se transforma em pesadelo psicológico e termina como uma reflexão incompleta sobre os limites do amor diante do imperdoável.
| Divulgação | Diamond Films |
• Por Alisson Santos
Há algo profundamente irônico — e até um pouco cruel — na forma como O Drama se apresenta ao espectador. O filme de Kristoffer Borgli começa como uma promessa quase sedutora de romance contemporâneo, embalado por uma estética milimetricamente calculada que remete ao ideal de relacionamento perfeito vendido nas redes sociais. Tudo ali parece desenhado para provocar identificação imediata; o encontro casual, o flerte constrangedor, a construção gradual de intimidade. Mas o que Borgli faz não é exatamente desconstruir esse imaginário — ele o sabota desde dentro, criando uma obra que funciona menos como uma comédia romântica e mais como um experimento desconfortável sobre até onde o amor suporta o peso da verdade.
O primeiro encontro entre os protagonistas já revela essa dualidade. Há charme, há humor, há aquele tipo de artificialidade adorável que o gênero consagrou ao longo de décadas, mas também existe um ruído — algo fora do lugar — que se manifesta tanto na encenação quanto no desenho de som. A escolha de transformar um momento aparentemente banal em uma situação de mal-entendido não é apenas um recurso narrativo simpático; é o prenúncio de que a comunicação entre esses personagens será sempre parcial, falha, contaminada por omissões e pequenas mentiras. E é justamente nesse detalhe que o filme começa a construir sua tensão mais eficaz; o espectador percebe antes dos personagens que a base desse relacionamento já nasce comprometida.
Durante boa parte do primeiro ato, o longa se apoia na química inegável entre Robert Pattinson e Zendaya, que sustentam com naturalidade a idealização de um casal que parece ter tudo sob controle. Há uma inteligência clara na forma como o roteiro utiliza dispositivos clássicos — como o discurso de casamento — para condensar anos de relação em poucos minutos, criando uma sensação de completude emocional que rapidamente se transforma em armadilha. Porque quanto mais perfeito esse relacionamento parece, mais devastador se torna o momento em que ele é colocado à prova.
E essa ruptura vem de forma abrupta, quase violenta. O filme não prepara o terreno com sutileza; ele simplesmente desloca o espectador para um território desconfortável, onde o passado deixa de ser um detalhe irrelevante e passa a ser o elemento central da narrativa. A revelação que estrutura o segundo ato não funciona apenas como um ponto de virada dramático — ela redefine completamente a maneira como olhamos para a personagem de Zendaya e, por consequência, para tudo o que vimos até então. É uma escolha ousada, mas também problemática, porque Borgli parece mais interessado no impacto imediato do choque do que na complexidade moral que ele inevitavelmente exige.
Quando você coloca um elemento extremamente grave dentro da engrenagem de uma comédia romântica, existe um risco estrutural; o de que o próprio formato “trabalhe” para suavizar aquilo que deveria permanecer incômodo. E Borgli parece consciente disso — tanto que o filme constantemente sabota a ideia de conforto —, mas não o suficiente para escapar completamente dessa armadilha. Porque, ao manter o foco narrativo na dúvida de Charlie (“consigo continuar amando essa pessoa?”), o filme desloca o centro moral da história. A questão deixa de ser “o que isso significa?” e passa a ser “isso é superável dentro de um relacionamento?”. E é aí que a possibilidade de romantização do tema começa a se insinuar.
Não necessariamente porque o filme diga que aquele passado é aceitável, mas porque ele o insere dentro de uma lógica de prova amorosa. Como se o conflito central fosse uma espécie de teste extremo de compromisso, o que é um enquadramento perigoso. O espectador é conduzido a acompanhar o sofrimento, a confusão e até o esforço de compreensão — e isso, por si só, já cria uma zona ambígua onde a gravidade do ato pode acabar sendo relativizada pela lente emocional do romance.
| Divulgação | Diamond Films |
Nesse ponto, O Drama começa a oscilar de maneira evidente. O humor ácido, que antes servia como ferramenta de observação social, passa a conviver com um tipo de provocação que beira o desconforto gratuito. Há ecos claros do cinema de Yorgos Lanthimos e Ari Aster, especialmente nessa tentativa de transformar o absurdo em linguagem, mas sem a mesma precisão ou densidade temática. Borgli quer tensionar o espectador, mas nem sempre sabe o que fazer depois que essa tensão é estabelecida.
É nesse desequilíbrio que o filme revela sua principal fragilidade; a assimetria na construção dos personagens. Enquanto Charlie, vivido por Pattinson, é explorado em suas contradições, inseguranças e colapsos internos, Emma permanece como uma figura opaca, definida mais pelo impacto de seu passado do que por sua subjetividade. Zendaya faz um trabalho notável ao tentar preencher essas lacunas, conferindo humanidade e ambiguidade a uma personagem que o roteiro insiste em reduzir a um enigma funcional. Ainda assim, fica a sensação de que há um filme mais interessante tentando emergir ali — um que se permitiria mergulhar nas motivações e conflitos internos dela com a mesma profundidade dedicada a ele.
A partir da revelação, o longa passa a operar quase como um estudo sobre paranoia emocional. Pequenos gestos cotidianos ganham novos significados, e o olhar do protagonista se torna o filtro através do qual tudo é reinterpretado. Essa mudança de perspectiva é, talvez, o elemento mais instigante do filme, pois transforma o romance em algo instável, quase ameaçador. O amor deixa de ser um espaço de conforto e passa a ser um campo minado, onde qualquer detalhe pode reacender dúvidas e medos.
Visualmente, Borgli reforça essa ideia ao contrastar a estética limpa e aspiracional do início com uma atmosfera progressivamente mais sufocante. O apartamento impecável, símbolo de estabilidade e sucesso, passa a funcionar como um espaço de confinamento emocional. Há uma clara intenção de dialogar com obras como História de um Casamento, mas enquanto o filme de Noah Baumbach se ancora na complexidade dos afetos, aqui tudo parece filtrado por uma lente mais cínica, quase niilista.
O problema é que, ao priorizar o impacto e a provocação, O Drama acaba sacrificando a permanência. O filme impressiona no momento, causa desconforto, gera discussão, mas não se sustenta emocionalmente após o término. Sua tentativa de subverter o gênero se revela, no fim das contas, mais superficial do que parece, como se estivesse constantemente à beira de algo mais profundo que nunca se concretiza.
Ainda assim, há mérito na ambição. Borgli claramente não está interessado em entregar uma comédia romântica convencional, e sua disposição em tensionar expectativas é louvável, mesmo quando falha. O resultado é um filme que provoca mais pelo que sugere do que pelo que efetivamente constrói — um romance que começa como fantasia, se transforma em pesadelo psicológico e termina como uma reflexão incompleta sobre os limites do amor diante do imperdoável.
No fim, talvez essa seja a maior ironia de O Drama; um filme que fala sobre a incapacidade de sustentar uma relação após a revelação de uma verdade incômoda, mas que também não consegue sustentar plenamente as próprias ideias que apresenta. É instigante, por vezes brilhante, mas também frustrante — um convite elegante que, ao ser aberto, revela menos do que promete.
O filme estreia nos cinemas de todo o Brasil no dia 09 de abril. Antes disso, será exibido em algumas sessões especiais a partir do dia 02 de abril.
Avaliação - 7/10
Argumentação excelente.
ResponderExcluirGostei bastante da forma como você constrói a leitura do filme, principalmente quando aponta essa virada brusca que muda completamente a percepção do espectador. Essa questão da possível romantização também me pegou, porque realmente, quando o conflito vira quase um “teste” do amor, fica um terreno meio perigoso mesmo.
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