| Divulgação | Universal Pictures |
• Por Alisson Santos
Cinebiografias musicais costumam caminhar sobre uma linha delicada; entre o espetáculo e a revelação. Michael, dirigido por Antoine Fuqua, escolhe claramente um lado — e não é o da complexidade. O filme abraça o mito de Michael Jackson com reverência quase inabalável, entregando uma experiência cuidadosamente moldada para agradar o grande público e, principalmente, fãs que desejam reviver o auge do artista sem grandes desconfortos.
Desde sua montagem de abertura, há uma intenção evidente de criar impacto imediato. A edição conduz o espectador por uma linha emocional eficiente, ainda que previsível, estabelecendo rapidamente o talento precoce de Michael e o ambiente opressivo dentro da família Jackson. É nesse ponto que o filme encontra uma de suas maiores forças; a atuação de Colman Domingo como Joe Jackson. Há uma tensão constante em sua presença — um controle silencioso que explode em agressões físicas e psicológicas contra o pequeno Michael, retratadas de forma direta e perturbadora. Não há exagero melodramático aqui; o terror é seco, cotidiano, quase banal — e justamente por isso tão eficaz.
O jovem Michael, vivido por Juliano Krue Valdi, impressiona mesmo com pouco tempo de tela. Há uma fragilidade genuína em sua performance, especialmente nas cenas que exploram o peso de ser constantemente apontado como “o mais talentoso” entre os irmãos — um rótulo que, no filme, funciona tanto como bênção quanto como condenação. Já Jaafar Jackson, interpretando a versão adulta, entrega um trabalho meticuloso; trejeitos, postura, voz, respiração — tudo parece estudado à exaustão, mas nunca mecânico. Há momentos em que ele simplesmente desaparece, dando lugar à figura icônica do tio.
No palco, o filme atinge seu ápice. A sinergia das performances é eletrizante, e as recriações de shows e videoclipes são executadas com um nível de precisão quase obsessivo. Aqui, o trabalho de sonorização e edição de som merece destaque especial — cada batida, cada grito da plateia, cada respiração é cuidadosamente construída para transportar o espectador para dentro do espetáculo. É o tipo de reconstrução que não apenas homenageia, mas tenta eternizar.
Fora do palco, o roteiro busca humanizar Michael, mas sem se aprofundar demais. Há pinceladas sobre o vitiligo, o uso de medicamentos e seu trabalho social com crianças, além de momentos mais íntimos que destacam seu amor por animais, sua fascinação por Peter Pan e sua conexão com o cinema. As cenas com sua mãe surgem como respiros emocionais, oferecendo um contraponto à rigidez paterna. No entanto, tudo isso é tratado de maneira breve, quase protocolar.
| Divulgação | Universal Pictures |
O recorte temporal deixa isso ainda mais evidente. Ao limitar a narrativa até o lançamento do álbum Bad, o filme evita deliberadamente as controvérsias que marcaram a vida de Michael após o Jackson 5. Em vez disso, opta por focar no início de sua carreira solo, no perfeccionismo em estúdio e em eventos marcantes como o acidente durante as filmagens de um comercial da Pepsi em 1984. É uma escolha narrativa segura — talvez estratégica, considerando a já confirmada continuação que deve mergulhar nessas zonas mais controversas.
Tecnicamente, Michael é irrepreensível. O trabalho de maquiagem, cabelo e figurino é simplesmente excelente, acompanhando com precisão as diferentes fases do artista sem cair na caricatura. Cada transformação visual reforça a obsessão do filme pela fidelidade estética — um cuidado que, ironicamente, não se estende à profundidade dramática.
No fim, Michael é um espetáculo eficiente, emocionalmente calculado e visualmente impressionante, mas que se recusa a ir além da superfície. Para fãs, será uma experiência quase catártica — uma celebração de um ícone em seu auge. Para quem busca um retrato mais complexo, desafiador e revelador, fica a impressão de que o filme guarda suas verdadeiras ambições para sua continuação que ainda precisa provar que virá com mais coragem. Até lá, o que temos é um retrato bonito, bem executado… e seguro demais para ser inesquecível.
O filme, distribuído pela Universal Pictures, será lançado exclusivamente nos cinemas brasileiros em 23 de abril, em versões acessíveis e em IMAX, com sessões antecipadas a partir das 20h, de 21 de abril.
Avaliação - 7/10
Adorei sua crítica.
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