Crítica | O Mandaloriano e Grogu - O longa diverte, possui momentos genuinamente encantadores e entrega ação eficiente, mas raramente transcende sua própria natureza de um grande episódio estendido.
| Divulgação | Lucasfilm |
• Por Alisson Santos
Há algo quase melancólico em assistir O Mandaloriano migrar para os cinemas justamente no momento em que sua própria existência parece já ter encerrado o que tinha de mais emocionalmente poderoso. A despedida entre Din Djarin e Grogu ao final da segunda temporada continua sendo um dos raros momentos em que o universo de Star Wars conseguiu encontrar sinceridade emocional sem depender de explosões, nostalgia ou grandes revelações genealógicas. Era um encerramento definitivo. Doloroso. Bonito. Completo. E talvez seja justamente por isso que O Mandaloriano e Grogu funcione simultaneamente como um reencontro divertido e como um enorme exercício de regressão narrativa.
Jon Favreau parece plenamente consciente de que o público não quer abandonar Grogu — e honestamente, a Disney também não. O resultado é um longa que assume sem vergonha sua natureza episódica, quase como se estivéssemos diante de um “capítulo especial” extremamente caro da série. Isso possui vantagens claras; a familiaridade instantânea, o ritmo leve, o charme dos personagens e a sensação confortável de retornar para casa. Mas também limita profundamente qualquer ambição cinematográfica maior. O filme nunca parece realmente interessado em justificar sua existência nas telas de cinema. Ele apenas existe. E talvez isso seja suficiente para muita gente.
Narrativamente, a trama é propositalmente simples; Din Djarin segue trabalhando para a Nova República enquanto enfrenta remanescentes imperiais espalhados pela galáxia. A missão envolvendo os Hutts e o desaparecimento de Rotta serve basicamente como desculpa para perseguições, confrontos e encontros excêntricos pelo caminho. Não há urgência épica. Não há ameaça galáctica iminente. Não existe a sensação de que estamos vendo um capítulo crucial da saga. Favreau abandona completamente a grandiosidade operística que definiu tantas eras de Star Wars para abraçar algo mais próximo de um western espacial familiar. Em alguns momentos, isso funciona incrivelmente bem.
Existe uma honestidade quase infantil no filme. Uma recusa em transformar tudo em mitologia pesada ou em discursos sobre destino, linhagem e equilíbrio da Força. Em vez disso, o longa entende que boa parte do apelo de O Mandaloriano sempre esteve nas pequenas interações; Grogu roubando comida, Din tentando agir como um pai funcional enquanto explode dezenas de inimigos e criaturas absurdas surgindo em cantinas decadentes. O grande triunfo do filme está justamente nesses detalhes aparentemente menores.
Favreau finalmente compreende que Grogu não funciona apenas como mascote. O personagem opera através de silêncio, timing visual e reação. Há uma longa sequência praticamente muda envolvendo Grogu e os Anzellans — criaturas que carregam o caos energético de Babu Frik — que representa facilmente o trecho mais inspirado do longa. É puro cinema físico. Humor construído através de expressão corporal, sons incompreensíveis e pequenos acidentes cômicos. Curiosamente, são nesses momentos quase mudos que O Mandaloriano e Grogu encontra mais personalidade do que em qualquer cena de exposição. Porque quando os personagens começam a explicar demais, o filme perde força rapidamente.
Os diálogos envolvendo Rotta, por exemplo, frequentemente mergulham naquele problema clássico de George Lucas; personagens falando como conceitos ao invés de pessoas reais. Existe um artificialismo estranho na forma como certos Hutts verbalizam trauma, legado e ressentimento. Em vez de soar trágico, tudo parece deslocado dentro da leveza quase cartunesca do restante da obra. E ainda assim… o filme continua sendo estranhamente agradável. Talvez porque ele nunca tente se vender como algo revolucionário.
Há uma humildade inesperada aqui. O Mandaloriano e Grogu não quer redefinir Star Wars como O Império Contra-Ataca fez. Não quer reconstruir a mitologia como Os Últimos Jedi tentou. Não deseja nem mesmo alcançar o peso bélico e trágico de Rogue One. Favreau simplesmente entrega uma aventura episódica sobre um homem cansado e seu filho adotivo atravessando missões perigosas pela galáxia. É Star Wars transformado em rotina de trabalho. E existe algo curiosamente simpático nisso.
| Divulgação | Lucasfilm |
Visualmente, o longa também evidencia essa dualidade constante entre televisão premium e experiência cinematográfica. Algumas cenas de ação possuem escala impressionante, especialmente perseguições aéreas e confrontos urbanos envolvendo remanescentes imperiais. A fotografia mantém aquela textura empoeirada característica da série, reforçando a influência de westerns clássicos e filmes de samurai. Mas o filme raramente transmite grandiosidade visual genuína. Muitas vezes parece apenas um episódio muito bonito exibido numa tela gigantesca. Isso não é necessariamente um defeito fatal, mas limita o impacto da experiência. Há poucos momentos verdadeiramente “cinematográficos” no sentido mais clássico da palavra. Favreau privilegia conforto ao invés de deslumbramento.
Pedro Pascal continua carregando Din Djarin com um equilíbrio admirável entre rigidez e vulnerabilidade. Mesmo escondido atrás de um capacete durante quase toda a duração, o ator encontra maneiras sutis de demonstrar exaustão, irritação e afeto paternal. É impressionante como a relação entre Din e Grogu permanece emocionalmente eficiente apesar da simplicidade estrutural do roteiro. Talvez porque o filme entenda algo essencial; o vínculo entre os dois já foi construído anteriormente. Não é preciso reinventá-lo. Basta observá-lo. E é justamente isso que o longa faz durante quase todo o tempo.
No fundo, O Mandaloriano e Grogu parece menos interessado em contar uma nova história e mais empenhado em preservar uma sensação. A sensação de assistir Star Wars sem precisar carregar o peso de salvar franquias, reinventar cânones ou agradar setores específicos da fandom. É uma aventura relativamente pequena, confortável e ocasionalmente muito engraçada.
Ao mesmo tempo, existe algo artisticamente frustrante nisso tudo. Porque o filme constantemente sugere possibilidades mais interessantes do que aquelas que decide explorar. O universo continua vasto. Os conflitos políticos pós-Império seguem fascinantes. A Nova República ainda parece uma ideia dramaticamente rica. Mas Favreau evita aprofundar qualquer complexidade para manter o foco absoluto em Grogu fazendo sons fofos enquanto pequenos alienígenas gritam frases incompletas. Dependendo do espectador, isso será exatamente o suficiente. Ou exatamente o problema.
No fim, O Mandaloriano e Grogu funciona como um retorno confortável a personagens extremamente carismáticos, mas também evidencia o quanto Star Wars parece atualmente presa entre nostalgia e medo de avançar. O longa diverte, possui momentos genuinamente encantadores e entrega ação eficiente, mas raramente transcende sua própria natureza de um grande episódio estendido. Ainda assim, talvez exista um mérito nisso.
Depois de anos tentando transformar cada novo projeto da franquia em um evento histórico ou em uma batalha cultural interminável entre fãs, O Mandaloriano e Grogu apenas quer ser divertido. Às vezes isso basta. Às vezes não. E o filme parece perfeitamente confortável convivendo com essa contradição.
O Mandaloriano e Grogu estreia em 21 de maio nos cinemas.
Avaliação - 6/10
Ansioso por esse.
ResponderExcluirBelíssima crítica.
ResponderExcluirEstou indo só para ver o Grogu 💚
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