Crítica | Todo Mundo em Pânico - Um retrato exagerado e histérico do caos cultural atual.

Divulgação | Paramount Pictures

• Por Alisson Santos 

Depois de anos desaparecida dos cinemas, a franquia Todo Mundo em Pânico retorna tentando reencontrar um espaço que parecia perdido no tempo. O humor escrachado, as referências absurdas e o desfile interminável de paródias poderiam facilmente soar como um produto preso nos anos 2000, mas surpreendentemente Todo Mundo em Pânico consegue funcionar melhor do que muitos imaginavam. Mesmo carregando vários problemas estruturais típicos da própria franquia, o longa entende exatamente o que ele quer ser; um caos completo movido por referências da cultura pop contemporânea.

O maior mérito do filme talvez esteja justamente em perceber que o mundo atual é ainda mais absurdo do que qualquer sátira poderia prever. Ao invés de depender apenas de filmes de terror recentes, o roteiro expande sua mira para memes virais, discussões políticas, influenciadores, cancelamentos online e fenômenos culturais extremamente específicos da internet moderna. Existe uma tentativa clara de atualizar o DNA da franquia para uma geração moldada por TikTok, trends e ciclos de atenção cada vez mais rápidos. E, curiosamente, isso funciona na maior parte do tempo.

Ainda assim, o longa também revive defeitos clássicos dos primeiros filmes escritos pelos irmãos Wayans. Muitas piadas simplesmente duram tempo demais. O filme frequentemente encontra um conceito engraçado, extrai uma boa reação inicial e continua insistindo nele até perder completamente o impacto. É um problema recorrente aqui; o humor funciona muito melhor quando surge como um golpe rápido e inesperado, mas várias sequências parecem incapazes de entender o momento certo de terminar.

As piadas sexuais também acabam entrando nesse problema. Algumas parecem colocadas apenas por obrigação histórica, como se o longa precisasse constantemente lembrar ao público que continua sendo Todo Mundo em Pânico. Em vários momentos elas não possuem construção cômica real, nem servem como comentário satírico — apenas interrompem o ritmo para inserir um humor juvenil que parece menos inspirado do que o restante do material.

Mas mesmo com esses tropeços, o saldo final continua positivo porque o filme mantém uma energia genuinamente divertida. De aproximadamente noventa piadas espalhadas ao longo da narrativa, mais da metade realmente funciona. Isso pode parecer uma taxa baixa para qualquer outro gênero, mas para uma comédia paródica baseada em excesso, exagero e improviso cômico, já é suficiente para manter a experiência constantemente entretida.

E quando Todo Mundo em Pânico acerta, ele acerta muito. Algumas sequências possuem um timing cômico impressionante. A paródia musical envolvendo Guerreiras do K-Pop é facilmente um dos momentos mais inspirados do filme, justamente porque abraça completamente o absurdo da ideia sem medo de parecer ridículo. O mesmo vale para as referências envolvendo A Substância e As Branquelas, que funciona quase como uma homenagem ao tipo de humor físico e exagerado que marcou os anos dourados desse estilo de comédia.

Divulgação | Paramount Pictures

Mas provavelmente os grandes destaques do longa seja as sequências inspiradas em Longlegs: Vínculo Mortal e Pânico 6. É nesses momentos que o filme encontra um equilíbrio perfeito entre terror e nonsense, utilizando a atmosfera perturbadora do original para criar uma escalada absurda de situações desconfortavelmente engraçadas. As cenas nentendem perfeitamente como transformar tensão em humor sem destruir completamente a identidade visual da obra parodiada.

O interessante é perceber como o longa também demonstra certo cuidado em construir suas referências. Diferente de várias comédias modernas que apenas citam elementos da cultura pop aleatoriamente, aqui existe uma tentativa real de transformar essas referências em piada. O filme brinca com linguagem visual, montagem, clichês narrativos e até tendências de atuação presentes no cinema recente. Existe um olhar genuinamente atento para os fenômenos culturais dos últimos anos.

Isso não significa que tudo funcione. Algumas referências envelhecerão rapidamente, principalmente as ligadas a memes extremamente específicos da internet. Parte do humor provavelmente perderá força conforme o tempo passar. Mas talvez isso faça parte da própria proposta do filme; ser um retrato exagerado e histérico do caos cultural atual.

Visualmente, o longa também surpreende mais do que o esperado. A direção entende o valor de reproduzir estilos cinematográficos distintos para fortalecer a paródia. Há momentos em que a fotografia muda completamente para imitar produções modernas de terror elevado, enquanto outras cenas abraçam deliberadamente uma estética artificial e cafona típica das comédias dos anos 2000. Essa flexibilidade visual ajuda bastante na dinâmica do humor.

No fim, Todo Mundo em Pânico talvez não alcance o status cult dos primeiros filmes da franquia, mas consegue algo que parecia improvável; voltar sem parecer totalmente ultrapassado. É um filme inconsistente, excessivo, bagunçado e muitas vezes infantil, mas também extremamente consciente da própria idiotice. E talvez seja justamente essa sinceridade caótica que torne a experiência tão divertida.

Todo Mundo em Pânico estreia amanhã nos cinemas.

Avaliação - 6/10

Comentários

  1. Carlos Fonseca3/6/26

    Que bom que vocês não odiaram.

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  2. Lucas Beltrão3/6/26

    Adorei a crítica. Ansioso!

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  3. Rosana Lopes3/6/26

    Muito divertido.

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  4. Daniel Batista4/6/26

    Concordo em número e grau.

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  5. Anônimo5/6/26

    Me diverti demais.

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