Crítica | A Morte do Demônio: Em Chamas - Vai além do sangue e encontra nos traumas humanos a força que alimenta seus horrores.

Divulgação | Sony Pictures

• Por Daniel Pereira 

Um filme que tem como missão dar continuidade e enriquecer uma saga certamente enfrenta um desafio grandioso e, para muitos, representa uma aposta ousada que pode intimidar. Felizmente, esse não parece ser o caso de Sébastien Vanicek, cujo trabalho se mostra ousado, honesto e brutalmente sangrento, sem qualquer limitação. É essa ousadia que traz o brilho que o filme exige, encaixando-o de maneira coesa na mitologia já estabelecida.

A história tem um ritmo acelerado, em que tudo acontece com uma velocidade que parece dedicada a manter o sentimento de ansiedade, pois são poucos os momentos em que o público consegue parar para respirar antes do próximo susto. Apesar disso, esse método funciona por instigar o espectador a manter a atenção em cada detalhe, seja das cenas ou dos diálogos, garantindo uma compreensão mais ampla do filme como um todo.

A Morte do Demônio: Em Chamas consegue se destacar não apenas por ser um filme sangrento, mas também por abordar tópicos mais sérios enquanto trabalha os sustos e o desconforto do espectador. O roteiro de Vanicek se enriquece ao tratar de temas ligados à esfera familiar, como o abandono paterno e a sobrecarga que essa ausência impõe aos filhos, que crescem com o peso de manter a família unida. Esse desejo de unificação acaba por cegar a percepção, e o que antes era preocupação passa a ser apenas uma visão distorcida do que é o certo.

Essa abordagem também se destrincha em questões de validação e dependência emocional, trazendo temas sérios, como a violência doméstica e os efeitos que agressões físicas e psicológicas podem causar ao indivíduo, assim como a culpa que passa a ser internalizada como uma imposição. Ao tratar dessas questões, Vanicek consegue trazer mais identidade à sua obra, tornando-a original dentro da franquia, e isso ressalta seu compromisso em entregar uma experiência digna dos fãs.

Além da profundidade do roteiro, Vanicek também demonstra cuidado na construção visual do filme. Cada cena é construída por meio de enquadramentos que valorizam a narrativa e enriquecem a experiência. Combinados às cenas de ação, esses elementos trazem vibração para a sala. A direção transmite a sensação de que o espectador está envolvido no combate, e cada personagem manifesta uma autonomia que se entrelaça às demais, tornando possível reconhecer a possessão em cada um como parte de uma grande colmeia, sem abrir mão da individualidade de cada personagem.

Divulgação | Sony Pictures

É justamente essa individualidade que faz tudo funcionar, a ponto de extrair risadas, seja em determinados momentos dos diálogos ou até mesmo nas situações absurdas, que acabam se tornando críveis graças ao excelente uso dos efeitos práticos. Como esperado, o trabalho de maquiagem está impecável, alcançando um realismo incômodo que busca transmitir essa agonia ao público, causando um espanto genuíno.

Souheila Yacoub brilha como Alice, e suas cenas têm um toque de realismo que eleva sua personagem. Alice é construída com camadas de raiva, tristeza e medo, tornando-se uma personagem complexa e profundamente humana. Ela é vulnerável, e esse aspecto é justamente o que faz o público torcer por alguém que está sendo despedaçada ao longo da trama.

A Morte do Demônio: Em Chamas se mostra uma continuação fidedigna ao conjunto da obra, entregando um enredo coeso, com camadas profundas e uma experiência visceral. O filme ainda conta com duas cenas pós-créditos que servem como gancho para uma continuação potencialmente ainda mais sangrenta.

A Morte do Demônio: Em Chamas estreia em 9 de julho nos cinemas.

Avaliação - 8/10

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