Conto | A Última Coisa que o Corpo Aprende

Divulgação | MDH Entretenimento

• Por Alisson Santos 

Não acordei. Porque acordar pressupõe retorno. E não havia mais para onde voltar.

A primeira coisa que percebi foi o peso. Não o peso da madeira, nem da terra, mas um peso anterior, mais antigo — como se o mundo tivesse decidido descansar exatamente sobre mim. Não havia dor imediata. Havia algo pior; consciência sem função.

Eu estava morto. Eu sabia disso com a mesma certeza com que um órgão sabe quando não é mais necessário.

Não havia respiração, mas havia ânsia. Não havia batimentos, mas havia urgência. Não havia movimento possível, mas tudo dentro de mim insistia em se mover. 

O caixão não era pequeno. Eu é que havia crescido por dentro. Não sei quanto tempo passou. Aqui, o tempo não anda — ele se deita ao seu lado. Cada segundo não passa, apenas se acumula, empilhando-se como camadas de terra invisível. O escuro não é ausência de luz. É uma presença ativa, um animal sem olhos que me observa desde todos os ângulos ao mesmo tempo.

Eu não tenho olhos.
Mas vejo.

Vejo o escuro como quem vê uma ideia fixa; impossível de desviar.

E então vem a falta de ar — não nos pulmões, mas na memória. Pensar exige espaço. E aqui, cada pensamento ocupa mais volume do que o corpo comporta.

Começo pequeno. Coisas simples. O nome de alguém. Uma rua. Uma frase interrompida.

Cada lembrança se materializa como pressão nas costelas. Cada palavra não dita empurra a tampa do caixão um milímetro para baixo. Descubro, horrorizado, que lembrar dói mais do que apodrecer.

A vida não me abandonou.
Ela apenas perdeu a educação.

Entendo, aos poucos, a regra que ninguém escreveu; a vida precisa terminar de passar por você. Ela passa de novo, sem pressa, agora que não há mais testemunhas. Repassa tudo o que foi deixado mal resolvido, tudo o que não encontrou linguagem, tudo o que foi sentido pela metade.

O amor que não tive coragem de sustentar pressiona meu esterno. A culpa que neguei se aloja na garganta inexistente. Os pedidos de desculpa jamais feitos escorrem pelos ossos como ácido lento.

Não há julgamento. Não há entidade. Há apenas continuidade.

E isso é pior.

Quando os vermes chegam, não sinto nojo. Eles não comem carne. Eles comem restos de intenção. Cada um deles carrega um fragmento do que eu fui; um pensamento recorrente, um medo infantil, uma esperança idiota que nunca morreu completamente. Eles se movem, como funcionários antigos que sabem exatamente o que retirar primeiro.

Percebo que a decomposição é burocrática. Nada aqui é cruel por prazer. É cruel por necessidade.

O corpo se desfaz, mas a consciência não acompanha. Ela fica para trás, comprimida, como uma ideia que não encontrou forma suficiente para desaparecer.

E então compreendo o horror maior

Não é a morte que sufoca.nÉ a vida que não sabe parar.

Em algum ponto — talvez quando o coração já não existe nem como lembrança — algo muda. A pressão deixa de vir apenas de dentro.

O caixão começa a responder. A madeira não range. Ela escuta.

A terra não cai. Ela espera.

Sinto o mundo acima de mim como uma presença pensante. Pessoas passam, carros atravessam ruas, crianças aprendem palavras novas, namorados erram nomes — tudo isso acontece sobre meu rosto imóvel, e cada acontecimento empurra a tampa um pouco mais para baixo.

A vida continua, e isso é um gesto de violência.

Quero morrer de verdade. Quero o apagamento. Quero o nada.

Mas o nada não me quer.

Quando penso que enfim estou desaparecendo, algo absurdo acontece.

O espaço cede.

Não abre — cede. Como se o conceito de dentro e fora tivesse cansado. O caixão não se rompe; ele se expande, revelando algo impossível.

Não há céu.
Não há inferno.

Há uma sala infinita, feita de caixões idênticos ao meu, empilhados até onde a ausência de olhos não alcança. Milhões deles. Bilhões. Cada um vibrando com um murmúrio interno — pensamentos residuais, memórias comprimidas, vidas que ainda não terminaram de acontecer.

Entendo, num lampejo absurdo:

"O mundo dos vivos é construído sobre um cemitério que nunca se cala."

Cada pessoa viva é sustentada por incontáveis mortos que ainda pensam.

A vida não nasce.
Ela se apoia.

E então vejo — não com olhos, mas com uma lucidez cruel — que meu caixão começa a se mover. Não para cima. Para fora. Ele se encaixa numa estrutura colossal, tornando-se mais um tijolo da realidade.

Sinto algo impossível; função.

Minha consciência, esmagada, fragmentada, diluída, passa a sustentar pequenas coisas:
— o impulso de alguém atravessar a rua
— a ideia súbita de escrever uma carta
— o medo inexplicável antes de dormir

Eu não sou mais eu.
Sou pressão ontológica.

Sou o que sobra quando uma vida ainda não terminou de morrer.

No último instante em que ainda posso pensar como indivíduo, compreendo a piada final — absurda, magnífica, insuportável:

"A morte não é o fim da vida. É o momento em que ela começa a trabalhar."

E então não há mais palavras. Não há mais medo. Não há mais desejo de escapar.

A vida segue. Sufocada. Sustentada. Indiferente.

E eu continuo aqui, para sempre, fazendo com que o mundo não desabe — mesmo sem nunca mais poder vivê-lo.

Comentários

  1. Rodrigo Moreira18/1/26

    Absurdamente bom!

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  2. Marcos Rangel18/1/26

    Ótimo texto.

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  3. Maria Clara19/1/26

    Absurdo. Terror filosófico, linguagem densa, metafísica da morte, essa obsessão com consciência, finitude e continuidade que atravessa vários dos seus textos. É, honestamente, é um dos mais maduros dentro do que você vem produzindo.

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