Crítica | Zafari - É uma fábula distópica brutal que transforma o colapso social e a fome em um retrato sufocante da perda da humanidade.

Divulgação | Vitrine Filmes

• Por Alisson Santos 

Zafari, de Mariana Rondón, é um filme que se recusa a ser confortável desde o primeiro minuto. A diretora transforma a crise social e moral em matéria física, quase palpável, criando uma experiência cinematográfica que não se limita a representar o colapso, mas o faz vibrar na carne do espectador. Não há aqui qualquer tentativa de didatismo ou explicação sociopolítica direta. Rondón prefere o caminho mais arriscado; o da alegoria sufocante, onde o absurdo convive com o cotidiano e a sobrevivência corrói lentamente tudo aquilo que um dia foi chamado de civilização.

A narrativa se constrói em torno de uma família de classe média-alta isolada em um prédio que vai se esvaziando à medida que a cidade ao redor mergulha na escassez de água, comida e energia. O que poderia ser apenas um retrato de decadência social ganha contornos inquietantes com a presença simbólica do zoológico vizinho e, sobretudo, do hipopótamo Zafari, um animal que continua sendo alimentado em meio à fome generalizada. Essa imagem, ao mesmo tempo grotesca e profundamente irônica, funciona como um espelho distorcido da lógica social; enquanto tudo se desfaz, ainda há corpos que seguem sendo nutridos, protegidos e preservados, não por justiça, mas por hierarquia e arbitrariedade.

Mariana Rondón constrói o filme como uma lenta descida ao instinto. As relações familiares, inicialmente sustentadas por convenções e pequenos rituais de normalidade, vão se desfazendo à medida que a fome e o medo se impõem. Não há grandes explosões dramáticas; o horror aqui é cotidiano, silencioso, infiltrado em gestos banais e decisões aparentemente pequenas. Um olhar que se prolonga demais, um silêncio desconfortável, um ruído vindo do corredor escuro são suficientes para instaurar uma tensão constante. O filme entende que o verdadeiro terror não está no colapso repentino, mas na adaptação gradual a ele.

A construção visual e espacial é essencial para essa sensação de sufocamento. A câmera de Rondón raramente oferece alívio visual. Os enquadramentos são fechados, os espaços parecem sempre menores do que deveriam ser, e a cidade, quando aparece, surge como um território hostil e quase irreconhecível. A luz falha, as sombras dominam os ambientes e o som — ou a ausência dele — funciona como um lembrete permanente de que algo vital está faltando. É um cinema que opera no nível sensorial, fazendo com que o espectador sinta o desconforto antes mesmo de compreendê-lo racionalmente.

Divulgação | Vitrine Filmes

O hipopótamo, figura central do imaginário do filme, é um dos grandes acertos simbólicos de Zafari. Ele não é apenas um animal exótico em um cenário urbano, mas uma presença quase mítica, carregada de significados contraditórios. Representa abundância em meio à miséria, força em meio à fragilidade humana e, paradoxalmente, uma certa inocência diante da degradação moral dos personagens. Enquanto os humanos se veem obrigados a negociar seus próprios limites éticos, o animal apenas existe, come e sobrevive. A comparação implícita é devastadora; quanto mais a crise avança, menos humanos os personagens parecem se tornar.

Rondón evita qualquer romantização da pobreza ou do colapso. O filme não busca empatia fácil nem oferece redenção. Ao contrário, expõe como privilégios não desaparecem de forma limpa quando a estrutura social entra em colapso; eles se deformam, se escondem, reaparecem de maneiras ainda mais violentas. A transformação dos personagens não é apresentada como exceção, mas como consequência. Zafari sugere, de forma perturbadora, que a barbárie não nasce do caos, mas já estava latente, apenas aguardando a retirada das camadas de conforto que a mantinham disfarçada.

Ao final, Zafari se impõe como uma obra dura, incômoda e profundamente necessária. Não é um filme que se assiste em busca de respostas ou alívio, mas uma experiência que confronta o espectador com perguntas desconfortáveis sobre ética, instinto e desigualdade. Mariana Rondón demonstra um domínio raro da linguagem cinematográfica ao transformar uma crise concreta em uma fábula sombria e universal, capaz de ecoar muito além de seu contexto imediato.

Zafari é uma co-produção entre Brasil, Venezuela, Peru, México, França, Chile e República Dominicana e será lançado nos cinemas brasileiros pela Vitrine Filmes em 5 de fevereiro.

Avaliação - 8/10

Comentários

  1. Cristiane Dualba31/1/26

    Muy buen análisis. Muy buena redacción.

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  2. Fernando Gomes31/1/26

    Me interessei.

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  3. Anônimo1/2/26

    Lo verán en los cines

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  4. Marcos Gaspar1/2/26

    Eu adorei o texto, vou colocar na minha agenda para ver assim que possível.

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