Crítica | Davi: Nasce um Rei - Como obra familiar e porta de entrada para o imaginário bíblico, cumpre bem seu papel. Como adaptação definitiva da vida de Davi, deixa espaço — e necessidade — para leituras mais densas, adultas e corajosas no futuro.

Divulgação | Heaven Content

• Por Alisson Santos 

Davi: Nasce um Rei chega como uma proposta ambiciosa; transformar uma das figuras mais complexas do Antigo Testamento em uma animação musical voltada para toda a família, equilibrando espiritualidade, espetáculo visual e acessibilidade infantil. Produzido pela Sunrise Animation e distribuído pela ANGEL Studios nos Estados Unidos e pela Heaven Content no Brasil, o filme se insere em um território delicado — o do cinema religioso que deseja dialogar com o grande público sem abrir mão de sua mensagem de fé. O resultado é um longa tecnicamente impressionante, emocionalmente envolvente em muitos momentos, mas narrativamente contido, por vezes excessivamente cuidadoso com a própria matéria-prima que adapta.

Desde os primeiros minutos, o filme deixa claro seu recorte; este não é o Davi bíblico em toda a sua brutalidade, contradição e grandeza trágica. É, antes, um Davi idealizado, moldado para inspirar, acolher e ensinar os pequenos. A abertura pastoral, com o jovem pastor cuidando das ovelhas sob o sol de Belém, já estabelece um tom quase contemplativo, que será reforçado ao longo da narrativa. A unção de Davi por Samuel surge menos como um evento político-religioso explosivo e mais como um gesto íntimo, espiritualizado, quase etéreo. A história avança em ritmo sereno, sempre preocupada em não assustar, não ferir e não confrontar demais seu público-alvo.

Essa escolha narrativa, embora compreensível, cobra um preço. A figura bíblica de Davi é uma das mais ricas das Escrituras justamente por sua ambiguidade; poeta e guerreiro, escolhido por Deus e profundamente falho, autor de salmos sublimes e líder responsável por atos violentos. O filme opta por amputar boa parte dessas camadas. O guerreiro feroz dá lugar a um jovem essencialmente pacifista; a força física e a experiência de combate — fundamentais para compreender sua fé diante de Golias — são suavizadas ou reinterpretadas. O episódio do leão, por exemplo, transforma um ato de sobrevivência brutal em um gesto de resgate simbólico, esvaziando o peso do testemunho que, no texto bíblico, sustenta a coragem de Davi.

Essa suavização se repete em outros momentos-chave. A prisão entre os amalequitas, retratada de forma quase alegórica, destoa radicalmente do relato original e reforça uma leitura de Davi como mártir silencioso, mais próximo de uma figura cristológica do que do líder militar hebreu descrito em Samuel. Não por acaso, o filme recorre a referências visuais que evocam a crucificação de Cristo — uma escolha simbólica que, embora potente para o público cristão, soa deslocada dentro da lógica histórica da narrativa e levanta questões sobre a fusão excessiva de arquétipos.

Ainda assim, quando o filme se permite ser cinema em sua plenitude estética, ele brilha intensamente. A batalha entre Davi e Golias é o grande ápice do longa, não apenas por sua importância cultural e simbólica, mas pela execução visual extraordinária. O Vale de Elá, coberto por papoulas vermelhas, é uma escolha imagética inspirada; belo e ameaçador, lírico e sangrento em potencial. A encenação da espera, o escárnio do exército filisteu, o contraste entre a estatura de Golias e a fragilidade aparente de Davi — tudo converge para um momento verdadeiramente épico. O detalhe do reflexo de Davi na espada do gigante derrotado é um desses achados visuais que justificam a ambição cinematográfica do projeto.

Divulgação | Heaven Content

Tecnicamente, Davi: Nasce um Rei está entre as animações religiosas mais sofisticadas já produzidas. A direção de Phil Cunningham e Brent Dawes investe em linguagem cinematográfica clássica; closes emocionais, planos abertos grandiosos, movimentos de câmera que ampliam o impacto dramático. A animação em 3D é rica em texturas, iluminação e composição, criando ambientes que parecem tangíveis e personagens expressivos, facilmente distinguíveis entre si. O design de personagens é particularmente eficaz — Davi, com seus olhos intensos e cabelos ondulados, corresponde fielmente à descrição bíblica, enquanto figuras como Saul e Samuel ganham imponência visual através de silhuetas marcantes e barbas quase míticas.

Outro grande trunfo do filme está em sua dimensão musical. A escolha de artistas da música cristã contemporânea, em vez de grandes estrelas de Hollywood, confere autenticidade espiritual ao projeto. As canções não funcionam apenas como interlúdios, mas como extensões emocionais dos personagens. Momentos como Davi tocando harpa para acalmar o espírito atormentado de Saul são genuinamente tocantes. A música “Tapeçaria”, cantada em dueto com sua mãe, é talvez o ponto mais poético do filme, traduzindo em imagens e versos a ideia de um plano divino tecido fio a fio. O uso direto de salmos em algumas composições reforça a ligação entre personagem e legado, lembrando que Davi não é apenas um herói narrativo, mas um autor espiritual cuja voz ecoa até hoje.

Por outro lado, nem todas as escolhas tonais funcionam. Certos alívios cômicos e caracterizações exageradamente cartunescas — como a figura de Achish — quebram a imersão e enfraquecem a solenidade do épico. O humor, aqui, parece mais um reflexo da tentativa de agradar crianças pequenas do que uma necessidade orgânica da narrativa.

No fim, Davi: Nasce um Rei é um filme de contrastes. Ele encanta pelo cuidado técnico, pela beleza visual e pela força musical. Inspira pela mensagem de fé, propósito e confiança divina. Mas também frustra ao evitar os conflitos mais profundos e desconfortáveis que tornam Davi uma figura universalmente fascinante. Ao escolher a segurança da edificação moral em vez da complexidade humana, o filme se torna menos um retrato completo e mais uma introdução idealizada.

Ainda assim, há mérito em sua existência. Em um cenário dominado por grandes estúdios e fórmulas repetidas, trata-se de uma produção independente de alto orçamento que ousa competir em qualidade técnica e alcance emocional. Como obra familiar e porta de entrada para o imaginário bíblico, cumpre bem seu papel. Como adaptação definitiva da vida de Davi, deixa espaço — e necessidade — para leituras mais densas, adultas e corajosas no futuro.

O filme estreia em 15 de janeiro nos cinemas.

Avaliação - 7/10

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