Crítica | Destruição Final 2 - O problema é que, ao tentar ser maior, mais barulhento e mais espetacular, ele se torna menor como filme.

Divulgação | Diamond Films

• Por Alisson Santos

Destruição Final 2 parte de uma promessa curiosa; ampliar o universo de um filme que surpreendeu justamente por ir na contramão do espetáculo vazio. O primeiro longa não ficou marcado pelos meteoros rasgando o céu ou pelo colapso visual da civilização, mas pelo modo como usava o fim do mundo como pano de fundo para um drama familiar íntimo, quase sufocante, sobre escolhas, perdas e sobrevivência. A continuação, no entanto, parece esquecer exatamente isso — e paga um preço alto por essa amnésia.

A narrativa retoma a família Garrity anos após o impacto devastador que obrigou parte da humanidade a se refugiar em bunkers subterrâneos. A ideia inicial é interessante; como se vive depois do apocalipse? Que tipo de sociedade nasce quando o medo imediato passa e sobra apenas a gestão da escassez, do poder e da culpa? Há ali um potencial enorme para conflitos morais e políticos, especialmente quando o filme sugere uma rotina quase burocrática dentro do abrigo, com conselhos administrativos, votações e decisões sobre quem merece ou não continuar vivo.

O problema é que Destruição Final 2 raramente se compromete com essas questões. Ele as apresenta, flerta com dilemas éticos relevantes — como a entrada de novos sobreviventes, o controle de recursos e a redefinição de liderança —, mas logo abandona tudo em favor de uma sucessão interminável de cenas de perigo extremo. Cada momento parece construído para ser “o pior cenário possível”, como se o roteiro tivesse medo do silêncio, da pausa e da introspecção.

Gerard Butler continua sólido no papel do patriarca exausto, mas agora seu personagem soa menos humano e mais funcional, quase um avatar atravessando níveis de um jogo pós-apocalíptico. Morena Baccarin, por outro lado, assume um espaço dramático mais interessante ao representar o coração moral da história. Sua personagem tenta preservar algo que o filme, ironicamente, parece ter perdido; empatia. Ainda assim, nem mesmo ela consegue sustentar o peso emocional que o roteiro insiste em diluir.

Um dos maiores tropeços da continuação está na forma como trata elementos fundamentais do primeiro filme. Questões de saúde, que antes eram centrais e angustiantes, surgem aqui apenas como notas de rodapé convenientes, esvaziadas de impacto. É como se o filme quisesse apagar tudo o que lembrasse fragilidade humana para não atrapalhar o ritmo frenético da ação.

Divulgação | Diamond Films

Quando os personagens são forçados a abandonar o bunker e atravessar um mundo que deveria ser inóspito, o longa entra definitivamente no modo “espetáculo acima da lógica”. Ambientes antes descritos como tóxicos tornam-se subitamente transitáveis, obstáculos geográficos assumem proporções quase míticas e a sensação constante é de artificialidade e de conveniência. As sequências de travessia — que deveriam ser tensas e desesperadoras — acabam soando caricatas, mais próximas de uma atração de parque temático do que de uma luta real pela sobrevivência.

Esse excesso cobra seu preço emocional. Como os personagens escapam ilesos de praticamente todas as situações, o perigo deixa de ser perigo. O espectador se acomoda, consciente de que nada de verdadeiramente irreversível vai acontecer. Quando o roteiro tenta, no último ato, introduzir uma revelação dramática destinada a provocar comoção, o impacto simplesmente não vem. A conexão já se perdeu no meio do caminho, soterrada por explosões, desmoronamentos e trilhas sonoras insistentes.

Há também uma curiosa obsessão do filme em oferecer esperança em forma de lenda; um lugar quase mítico onde a Terra teria se regenerado, como se a humanidade estivesse destinada, por direito narrativo, a um novo Éden. A metáfora é clara, mas executada de forma tão literal que perde força. Em vez de inspirar, soa ingênua, quase deslocada dentro de um mundo que o próprio filme insiste em pintar como caótico e brutal.

No fim das contas, Destruição Final 2 não chega a ser um desastre completo. Ele entrega entretenimento básico, alguns momentos visualmente impressionantes e cumpre o papel de passatempo para quem busca tensão imediata e pouco envolvimento emocional. O problema é que, ao tentar ser maior, mais barulhento e mais espetacular, ele se torna menor como filme.

O primeiro Destruição Final funcionava justamente porque entendia que o verdadeiro apocalipse não estava no céu em chamas, mas dentro das pessoas. A sequência, infelizmente, troca esse olhar sensível por um desfile de perigos coreografados, esquecendo que o fim do mundo só é realmente interessante quando nos lembra por que ainda vale a pena salvá-lo.

O longa estreia em 5 de fevereiro nos cinemas.

Avaliação - 4/10
 

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