Crítica | Marty Supreme - O triunfo da exaustão como forma de arte.

Divulgação | Diamond Films

• Por Alisson Santos 

Há filmes que pedem nossa atenção. Marty Supreme exige nossa resistência. Josh Safdie não quer ser visto; quer ser suportado, atravessado, digerido com dificuldade — como um acesso de ansiedade que se recusa a passar. E é justamente aí que reside sua grandeza. Em um cinema contemporâneo cada vez mais obcecado em confortar, explicar e anestesiar, Marty Supreme surge como um objeto agressivo, hostil e brilhante, uma obra que não pede empatia, mas confronto.

Desde os primeiros minutos, fica claro que Safdie não está interessado em criar uma narrativa de ascensão esportiva ou em romantizar o talento. O tênis de mesa, aqui, é apenas o pretexto — um campo de batalha improvável onde se projetam obsessões muito maiores; ego, sobrevivência, identidade e a fabricação violenta do próprio mito. Assim como "Joias Brutas" usava o basquete como pano de fundo para a compulsão autodestrutiva, Marty Supreme transforma o tênis de mesa em um ritual quase bélico, onde cada troca de bola carrega a tensão de um ultimato existencial.

Timothée Chalamet entrega, sem exagero, a atuação mais arriscada e desconfortável de sua carreira. Ele é espetacular. Seu Marty Mauser não é carismático, não é sedutor e não busca redenção. É um personagem profundamente desagradável, moldado por um narcisismo patológico e por uma paranoia constante de irrelevância. Chalamet constrói esse homem como alguém sempre à beira do colapso, com o corpo inquieto, o olhar faminto e uma fala que oscila entre a autoconfiança delirante e o desespero mal disfarçado. Não há glamour em Marty — apenas uma fome insaciável de ser visto, lembrado, temido.

Safdie filma esse personagem como se estivesse preso a ele. A câmera raramente concede descanso; planos fechados, enquadramentos sufocantes e um ritmo que parece sempre acelerar, mesmo nas cenas mais banais. O filme se passa nos anos 50, mas não há nostalgia aqui. A reconstituição de época é crua, quase suja, desprovida de qualquer verniz romântico. É uma América que já nasce cansada, corroída por promessas ocas e pela ideia de que vencer — não importa como — é a única forma legítima de existir.

Narrativamente, Marty Supreme é episódico, errático e deliberadamente excessivo. Marty cruza com figuras que parecem saídas de um pesadelo febril; estrelas decadentes, gângsteres caricaturalmente amargos, figuras de autoridade tão frágeis quanto corruptas. Cada encontro adiciona uma camada à mitologia que Marty constrói sobre si mesmo — uma mitologia sustentada por mentiras, exploração e um determinismo quase religioso. Ele acredita ser o centro do mundo, mas vive aterrorizado com a possibilidade de ser descartável. É o tubarão que teme descobrir que sempre foi apenas a rêmora.

Divulgação | Diamond Films

O grande feito de Safdie é fazer com que o espectador sinta tudo isso no corpo. O filme é exaustivo por design. Há um ponto em que a experiência deixa de ser prazerosa e se torna quase um teste de resistência emocional. A duração estendida não é um capricho; ela reflete a própria lógica do protagonista, incapaz de parar, de silenciar, de aceitar qualquer forma de estagnação. Quando o cansaço se instala, o filme nos força a encarar uma pergunta incômoda; por que continuamos assistindo? A resposta é simples e perturbadora — porque estamos presos à mesma lógica de Marty. Queremos ver até onde isso vai, custe o que custar.

Há também um discurso profundamente político em Marty Supreme, ainda que Safdie nunca verbalize isso de forma explícita. O filme é uma autópsia da promessa do sonho americano, exposta não como uma falha pontual, mas como um sistema inteiro baseado na autoidolatria e na destruição alheia. Marty passa o filme inteiro vendendo a narrativa de sua genialidade autodidata, enquanto se apoia, explora e descarta todos ao seu redor. Safdie não o pune de forma convencional, nem oferece uma moral reconfortante. O julgamento é transferido para o espectador.

Nesse sentido, a comparação implícita com "Apocalypse Now" não é exagerada. Assim como o clássico de Coppola usava a guerra para explorar a loucura e o vazio moral, Marty Supreme usa o esporte para dissecar a obsessão americana pelo sucesso. O tênis de mesa, tratado com uma seriedade quase absurda, ganha contornos épicos e grotescos. Cada partida é filmada como um duelo psicológico, onde o que está em jogo não é o placar, mas a própria identidade de Marty.

Ao final, quando os créditos sobem, a sensação não é de alívio, mas de estranha euforia. O filme nos esgota para, então, nos devolver uma lucidez incômoda. Gostar de Marty é impossível. Admirar o filme, não. Safdie sabe exatamente o que está fazendo; cria uma obra que repele e atrai na mesma medida, que desafia a expectativa de entretenimento e insiste em tratar o cinema como experiência — não como distração.

Marty Supreme não é um filme para todos, nem quer ser. É uma obra que provoca, desgasta e questiona. Ao fim, a pergunta que ecoa não é se Marty venceu ou perdeu, mas até que ponto estamos dispostos a tolerar — em nós mesmos — a mesma fome cega que o move. Safdie não exige resposta. Ele apenas expõe o espelho e nos obriga a encarar o reflexo.

O filme estreia em 22 de janeiro nos cinemas.

Avaliação - 9/10

Comentários

  1. Geovane Ferreira12/1/26

    Cara, que coisa bem escrita.

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  2. Luigi Moraes12/1/26

    Nesta nossa “Era da Trapaça”, MARTY SUPREME é o filme definitivo, uma homenagem a todos os trambiqueiros que, no final, vencem porque jamais perderão a audácia.

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  3. Rodrigo Silva12/1/26

    O que o menino Timóteo faz em "Marty Supreme" é para sepultar, de uma vez por todas, as birrinhas que alguns têm por ele ser escalado para 200 filmes por ano. Monstruoso.

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  4. Lya Bento12/1/26

    Poderia facilmente assistir mais umas 2 horas de Marty Supreme, juro filme bom demais, não cai o ritmo um segundo, varios momentos inesperados pra ficar gagged e a atuação do timmy eu nem preciso dizer. Textão.

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  5. Sabrina Gomes12/1/26

    O que mais me chamou atenção foi como a crítica conecta o filme a algo maior do que só a história em si. Não fica presa apenas na atuação ou na direção, mas puxa o debate pra essa obsessão por sucesso, ego e validação que todo mundo reconhece no mundo real. Também achei interessante a leitura política, mesmo sem o filme aparentemente “discursar” sobre isso de forma direta. Parabéns pelo texto.

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  6. Osmar Lima12/1/26

    Achei a crítica bem honesta.

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  7. Anônimo13/1/26

    Menino Timóteo é absurdo!

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  8. Ágatha Maria14/1/26

    Meu Timothée arrassa como sempre! Filmãooooooo

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  9. Hiago Lopes31/1/26

    Minha nossa senhora que texto absurdo 👏

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