Crítica | O Primata — É um filme que ruge alto em seus primeiros minutos, mas termina domesticado demais para deixar marcas duradouras.
| Divulgação | Paramount Pictures |
• Por Alisson Santos
Há algo profundamente inquietante em histórias que lidam com animais selvagens inseridos à força no convívio humano. Não apenas pelo potencial de violência, mas pelo espelho moral que essas narrativas costumam levantar; a ilusão de controle, a domesticação como arrogância e a incapacidade humana de aceitar os limites da própria autoridade. O Primata parte exatamente desse terreno fértil, inspirado em eventos reais e em um medo coletivo que já se mostrou mais do que justificado. O problema é que, ao longo do caminho, o filme prefere o atalho fácil do terror genérico à exploração mais honesta e perturbadora de sua própria premissa.
Ambientado no Havaí, o longa acompanha Lucy, uma jovem universitária que retorna para casa e reencontra Ben, um chimpanzé criado desde filhote como membro da família. A dinâmica inicial sugere um drama sobre afeto, pertencimento e negação — afinal, Ben não é um animal qualquer, mas um “filho adotivo”. Essa construção poderia render reflexões interessantes sobre os limites da convivência entre espécies. No entanto, quando Ben é infectado pela raiva após ser mordido por um mangusto, o filme abandona rapidamente qualquer ambiguidade e o transforma em um vilão clássico de slasher, apenas substituindo a máscara por pelos e presas.
A sequência de abertura é, sem dúvida, o ponto alto da obra. Brutal, gráfica e desconfortável, ela não poupa o espectador ao mostrar um veterinário sendo mutilado de forma explícita. É um começo que estabelece uma promessa; O Primata parece disposto a tratar a ameaça com seriedade e a encarar o chimpanzé como o que ele realmente é — um animal absurdamente forte, imprevisível e letal fora de seu habitat natural. Infelizmente, essa promessa não se sustenta.
Conforme a narrativa avança, o filme passa a tratar Ben menos como um animal selvagem e mais como um antagonista humano travestido de macaco. Suas ações seguem conveniências de roteiro, não instintos. Ele surge e desaparece conforme a necessidade dramática da cena, alternando entre a ferocidade absoluta e uma estranha contenção quase “educada”. Em vez de imprevisível, Ben se torna funcional. E isso mina completamente a tensão.
| Divulgação | Paramount Pictures |
Essa inconsistência fica ainda mais evidente na forma como os personagens reagem à ameaça. Pessoas que conviveram com um chimpanzé por anos — um animal cuja força física supera facilmente a de vários humanos adultos — tomam decisões que beiram o cômico. Cordas frágeis, portas improvisadas, confrontos físicos diretos… tudo soa como uma aplicação automática de clichês do terror, sem qualquer adaptação à natureza específica do perigo. Há uma cena particularmente absurda em que um personagem entra em uma luta corpo a corpo com Ben, algo que contradiz frontalmente tudo o que o próprio filme já mostrou sobre sua força devastadora. O resultado não é tensão, mas incredulidade.
Ainda assim, O Primata não é um desastre completo. O desempenho de Troy Kotsur como Adam, o pai de Lucy e principal cuidador de Ben, injeta uma humanidade que o roteiro raramente alcança. O fato de Adam ser surdo e se comunicar por linguagem de sinais adiciona uma camada sensorial e dramática potente, especialmente em uma sequência angustiante em que ele caminha pela casa alheio ao caos enquanto sua filha luta pela vida em outro cômodo. É um momento genuinamente eficaz, não por ser violento, mas por explorar o medo através da limitação perceptiva — algo que o filme deveria fazer com mais frequência.
O problema é que Adam passa boa parte do tempo fora de cena. Quando está ausente, o longa recai em arquétipos rasos, diálogos funcionais e uma progressão previsível. Falta ousadia para explorar o que realmente diferencia O Primata de outros filmes de terror com criaturas assassinas. Um chimpanzé com raiva não deveria ser apenas forte e sanguinário, mas caótico, errático, assustador justamente por não seguir padrões. No entanto, o filme opta por um controle excessivo, como se temesse perder o público caso a ameaça fugisse demais do convencional.
No fim, O Primata parece um filme preso entre duas intenções; quer chocar com violência explícita, mas também quer se comportar como um terror seguro, reconhecível, quase confortável em sua estrutura. Essa hesitação impede que a obra se destaque. Há ideias interessantes, bons momentos de gore e um conceito que carrega peso suficiente para sustentar algo mais perturbador e memorável. O que falta é coragem narrativa — ou tempo de maturação — para permitir que essas ideias realmente evoluam.
Como resultado, O Primata se junta à longa lista de filmes de terror que começam com força, mas se contentam em repetir fórmulas já desgastadas. É um filme que ruge alto em seus primeiros minutos, mas termina domesticado demais para deixar marcas duradouras. Um macaco feroz, sim — mas uma obra que, ironicamente, nunca se permite sair da jaula do óbvio.
O filme estreia no dia 29 de janeiro nos cinemas.
Avaliação - 5/10
Que crítica boa.
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