"A invasão é da casa, mas também do corpo feminino": adaptação brasileira de 'Quarto do Pânico' chega ao Telecine no dia 13 de fevereiro

Divulgação | Telecine

• Por Alisson Santos 

A clássica tensão de Quarto do Pânico ganha uma versão brasileira com proposta assumidamente autoral, e não apenas uma reprodução do filme original. Após ser exibido no Festival do Rio em 2025, Quarto do Pânico chega com exclusividade direto ao catálogo do Telecine no streaming — disponível no Globoplay, Prime Video Channels e via operadoras — no dia 13 de fevereiro. Na TV, o filme dirigido por Gabriela Amaral Almeida faz sua Superestreia no Telecine Premium no sábado (dia 14), às 22h, e será exibido novamente no domingo (dia 15), no Telecine Pipoca, às 20h. 

Com roteiro adaptado por Fábio Mendes a partir do sucesso de 2002 dirigido por David Fincher, a produção transporta a premissa para um contexto nacional, adicionando novas tensões, leituras sociais e uma estética que privilegia o suspense psicológico. No elenco estão Isis Valverde, Marianna Santos, André Ramiro, Marco Pigossi, Caco Ciocler e Leopoldo Pacheco. A produção é da Floresta.

Durante coletiva de imprensa realizada nesta terça-feira (3), Gabriela Amaral Almeida explicou que o convite para dirigir o filme fez sentido por tocar em temas que atravessam sua filmografia, como “o embate entre o masculino e o feminino” e a maternidade em situações-limite. Para a diretora, o grande desafio foi se aproximar de um filme considerado canônico sem tentar imitá-lo, mas sim encontrar sua essência e recriá-la com outra linguagem. “Eu gosto no desafio de me aproximar de um filme canônico é tentar extrair dele a seiva… o que faz essa história, qual é sua espinha dorsal… e a partir daí entendo como eu posso me apropriar dela para trazer ingredientes tanto da nossa cultura local quanto meus como artista. Por isso é mais uma adaptação do que remake”, afirmou.

A história acompanha uma mulher (Isis Valverde) e sua filha pré-adolescente (Marianna Santos), que se mudam para uma casa equipada com um quarto do pânico, um espaço secreto projetado para proteger moradores em caso de perigo. Quando supostos ladrões invadem o local, mãe e filha se refugiam ali, até perceberem que o verdadeiro objetivo do trio está justamente dentro daquele ambiente, transformando o refúgio em uma armadilha.

Na visão da diretora, a narrativa ganhou novas camadas ao ser reescrita e produzida no Brasil, e principalmente por ser conduzida por uma mulher. Gabriela afirmou que a invasão não se limita ao espaço físico, mas carrega uma dimensão simbólica ainda mais profunda. “A invasão desses ladrões é da casa mas também do corpo feminino”, declarou, defendendo que o filme trabalha um medo primordial ligado à violação, mesmo que isso não esteja explícito na superfície da trama. Ela explicou que essa leitura atravessa o trabalho de câmera, a dramaturgia, o roteiro e até mesmo a escolha da casa, descrita como “sinuosa, redonda”, construída para refletir uma tensão constante. “Todo tipo de agressão que a personagem principal sofre é uma espécie de violação”, completou.

Isis Valverde também ressaltou que o processo foi emocionalmente intenso e que a abordagem brasileira se afastou do impacto visual do filme norte-americano para mergulhar na subjetividade e na interpretação. “Nós tiramos a roupagem, os efeitos especiais do filme e fomos para os ossos da história”, afirmou. Para ela, a casa funciona como um símbolo do feminino, e o suspense se sustenta justamente porque o filme acontece quase todo no mesmo espaço, exigindo que os atores sustentem a tensão em camadas internas. Isis descreveu o trabalho como algo transformador. “Foi um trabalho muito forte, um filme que foi me ‘descamando’ ao longo dos dias. Fui entrando nessa maternidade, em como a gente carrega a responsabilidade de cuidar e como nos sentimos incapazes quando o limite desse cuidar aparece e não conseguimos mais”, disse, apontando que a experiência foi também de “reconexão com o feminino”.

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No elenco que interpreta os invasores, Caco Ciocler destacou que a preparação foi determinante para o resultado final, especialmente por se tratar de um filme sustentado em tensão contínua e dinâmica entre poucos personagens. Ele contou que o trabalho em sala de ensaio foi profundo e raro no audiovisual atual, e que a diretora criou um ambiente em que errar fazia parte do processo. “Foi nessa sala que a gente pôde principalmente errar”, afirmou, elogiando a postura de Gabriela por não chegar ao set “sabendo tudo”. No caso do seu personagem, ele explicou que a dificuldade em definir quem ele era acabou virando justamente a chave da interpretação. “O pulo do gato foi que eu estava tão perdido com essas possibilidades todas que a saída foi: já que não conseguimos definir quem é esse cara, vamos investir justamente nisso. É um cara que provoca medo porque não conseguimos entender quem ele é”, resumiu.

André Ramiro também reforçou a importância desse processo, afirmando que o caminho do ator no audiovisual costuma ser solitário e que a preparação de elenco tem sido cada vez menos valorizada. Para ele, foi um privilégio ter tido tempo para construir o personagem em diálogo com a diretora e com os colegas. Ramiro revelou que chegou ao filme com uma ideia pré-concebida, mas que o entendimento do papel mudou ao perceber o lugar que Gabriela queria para seu personagem dentro do trio. Segundo o ator, a intenção não era retratar “um bandido”, e sim alguém levado àquela situação por uma fatalidade. Ele descreveu seu personagem como o “coração” da história e destacou um ponto específico; o fato de ser “o único homem preto dessa história” exigia uma leitura mais humana e complexa, com traços ligados à paternidade e à família. “É o único que realmente quer o dinheiro como ferramenta de salvação, e não pretende ferir ninguém”, afirmou.

Marco Pigossi, que completa o trio, avaliou que o filme se fortaleceu justamente por ser construído de forma coletiva, algo que ele considera a alma do cinema, mas que muitas vezes se perde por falta de tempo ou dinheiro. Pigossi explicou que cada um dos três invasores tem uma motivação diferente e que o desafio era conduzir tudo para um mesmo caminho narrativo, sem que os personagens virassem caricaturas. Para ele, a sala de ensaio foi fundamental para que o trio encontrasse equilíbrio e unidade. “O segredo do sucesso do filme é essa criação coletiva que tivemos”, resumiu.

Já o roteirista Fábio Mendes afirmou que a adaptação surgiu a convite da Floresta e que a entrada de Gabriela no projeto foi decisiva para transformá-lo em algo maior do que uma simples transposição. Mendes lembrou que, mesmo com mudanças em relação ao filme original, a realidade brasileira tornou a história ainda mais urgente, já que a violência urbana cresceu e, segundo ele, “só separa as pessoas cada vez mais”. A intenção, explicou, era criar um suspense que não fosse apenas frio e mecânico, mas que carregasse emoção e afeto. “Nossa intenção era fazer um filme que obviamente fosse tenso, mas que também tivesse outras camadas, como emoção, afeto, que fosse um filme mais quente. É um thriller tropical”, declarou.

O roteirista também ressaltou que o projeto se beneficiou diretamente da visão feminina da diretora, destacando “os olhos e a mente afiada da Gabriela” e sua maneira particular de contar histórias. Mendes afirmou ainda que as limitações naturais do cinema brasileiro — como orçamento, tempo e diárias — foram superadas com colaboração e qualidade humana, defendendo que o país tem técnica e capacidade para produzir suspense e terror com força e identidade.

Na mesma linha, Gabriela reforçou que a parceria com o roteirista foi essencial justamente por permitir que a direção participasse do processo desde a sala de roteiro, algo que ela considera fundamental para que um filme alcance potência. A diretora também defendeu o cinema nacional como um cinema que se apoia no artesanal e que, por isso, preserva uma identidade própria. Para ela, ao aceitar dirigir uma obra, ela inevitavelmente passa a ser atravessada por sua sensibilidade. “Para mim, a partir do momento em que topo fazer um filme, ele vira um filme meu, da minha sensibilidade, do meu universo interno”, afirmou, concluindo que o resultado final "É um Quarto do Pânico brasileiro único, de identidade muito própria”.

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