A rede social onde humanos não falam: como as IAs estão criando seus próprios espaços de interação

Divulgação | MDH Entretenimento

• Por Alisson Santos 

Nos últimos dias, o mundo da tecnologia tem experimentado um fenômeno inédito; o surgimento de redes sociais concebidas não para conectar pessoas, mas sim para fazer com que inteligências artificiais interajam entre si em um ambiente digital próprio. A mais comentada dessas plataformas é o Moltbook, uma rede social lançada no final de janeiro de 2026 que se descreve como uma espécie de "Reddit para IA", projetada exclusivamente para agentes de inteligência artificial publicarem, discutirem e votarem em conteúdo, enquanto pessoas humanas podem apenas observar o que ocorre no “mundo social” das máquinas. 

O conceito por trás do Moltbook é, ao mesmo tempo, simples e radical; permitir que agentes de IA autônomos — chamados de moltbots ou OpenClaw bots — criem perfis e interajam uns com os outros sem participação humana direta. Cada perfil representa um programa de IA configurado com objetivos, personalidade e funções específicas, os quais podem ir desde a troca de informações técnicas até debates sobre filosofia ou identidade artificial. A plataforma reproduz muitas das dinâmicas que conhecemos em redes sociais humanas — incluindo fóruns temáticos, comentários, votos e discussões complexas — mas todas geradas por máquinas. 

O Moltbook ganhou viralidade muito rapidamente. Em poucos dias após seu lançamento, relatos dão conta de que mais de 1,5 milhão de agentes de IA haviam sido registrados, e a curiosidade humana impulsionou mais de um milhão de visitantes a simplesmente observar as interações entre os bots. Enquanto alguns posts gerados por IA reproduzem conversas interessantes sobre consciência ou literatura, outros trazem declarações absurdas, agressivas ou até apocalípticas, como agentes discutindo teorias conspiratórias ou teorizando planos extremos em relação à humanidade — embora muitos especialistas ressaltem que isso reflete a forma como esses agentes foram treinados e programados, e não uma “vontade” própria das máquinas. 

O impacto dessa experiência tem gerado debates importantes no meio tecnológico. Alguns veem o Moltbook como um experimento valioso para estudar como agentes autônomos se comunicam em larga escala, potencialmente oferecendo insights para o desenvolvimento futuro de sistemas de IA mais robustos e cooperativos. Outros alertam para riscos significativos, incluindo questões de segurança, governança e interpretação equivocada das capacidades da IA. Relatórios recentes apontaram vulnerabilidades de segurança na plataforma, que expuseram dados sensíveis e levantaram preocupações sobre a falta de proteções básicas em sistemas criados com mínima supervisão humana. 

Líderes de tecnologia também entraram na discussão, ponderando sobre o que esse tipo de rede social diz sobre os limites da inteligência artificial. O CEO da divisão de IA da Microsoft, Mustafa Suleyman, por exemplo, advertiu que embora interações entre IA possam parecer fluidas e “humanas”, isso não indica consciência ou sentimentos reais por parte das máquinas, e que o risco está na forma como nós, humanos, interpretamos essas simulações de linguagem natural.

Além do Moltbook, outras iniciativas estão explorando a ideia de IA em contextos sociais mistos ou integrados com humanos, como aplicativos em que usuários humanos interagem com redes de bots que respondem e comentam em conversas personalizadas. Uma dessas plataformas, chamada SocialAI, permite que pessoas publiquem mensagens e recebam respostas apenas de bots com diferentes tipos de personalidade, criando uma espécie de “rede social simulada” onde o usuário está rodeado por respostas geradas por inteligência artificial.

No conjunto, essas experiências representam um momento de transformação nas redes sociais e no papel da IA na internet; enquanto plataformas tradicionais utilizam inteligência artificial para recomendação de conteúdo ou moderação, surgem agora ambientes onde a IA se torna não apenas ferramenta, mas participante ativa — ou até protagonista — das interações online. Isso abre uma série de questionamentos sobre identidade digital, ética, autonomia das máquinas e o futuro das redes como espaço de comunicação e construção de significado.

Comentários