Crítica | Dias e Dias - Transforma o ordinário em algo cinematograficamente significativo, mostrando que o verdadeiro drama muitas vezes reside nos gestos mais simples e na persistência diária de seguir em frente, um dia após o outro.

Divulgação | Fílmica

• Por Alisson Santos 

Dias e Dias, média-metragem dirigido pela dupla conhecida como 2Vilão — os cineastas Mary Abrantes e Peri — é uma obra que transpira sensibilidade e urgência a cada segundo de seus aproximados 20 minutos de duração, funcionando menos como narrativa convencional e mais como um estudo poético e político sobre o tempo, o espaço e o existir numa cidade gigantesca como São Paulo.

O filme segue Caíque, um jovem fotógrafo interpretado por Bias, cuja vida está dividida entre a necessidade de um emprego estável e o desejo de viver da arte em que acredita. A jornada dele não é marcada por grandes acontecimentos dramáticos, mas por um deslocamento contínuo — físico, emocional e social — entre a periferia da Zona Sul e o Centro da capital paulista. Nessa travessia, Dias e Dias transforma o simples ato de ir e vir em metáfora para as tensões e desigualdades que atravessam o cotidiano urbano; o trânsito interminável, o tempo gasto nos trajetos, os pequenos intervalos de contemplação que se tornam momentos de resistência.

O que diferencia este média-metragem de muitos filmes de temática social contemporâneos é justamente a sua recusa a responder às questões que levanta com soluções fáceis. Em vez disso, 2Vilão insufla na obra uma experiência de observação atenta; a câmera acompanha Caíque como um diário visual, privilegiando o olhar sobre os detalhes — reflexos nas janelas dos ônibus, pausas diante de fachadas e ruas movimentadas, a oscilação entre pressa e silêncio. Essa abordagem contemplativa convida o espectador a compartilhar não apenas o percurso geográfico do protagonista, mas também o seu ritmo interior, feito de cansaço, esperança e sonhos guardados. 

Divulgação | Fílmica

É notável, e parte essencial da potência do filme, a forma como sua própria produção ecoa os temas que explora. A grande maioria dos envolvidos — tanto na frente quanto atrás das câmeras — é formada por jovens artistas e técnicos formados pelo Instituto Criar, muitos oriundos da periferia e de grupos subrepresentados no cinema tradicional. Essa escolha não só legitima a voz e a perspectiva que apresenta, mas também contribui para uma estética orgânica e honesta, onde linguagem, performance e contexto social se entrelaçam de maneira natural e eficaz. 

O elenco, especialmente Bias como Caíque, entrega performances que evitam o exagero melodramático, optando pela autenticidade e pela economia de gestos. O impacto emocional do filme se dá justamente nessa modularidade; os afetos e frustrações emergem de pequenos instantes, olhares perdidos e diálogos mínimos. Isso dá à obra uma qualidade quase meditativa, em que o espectador se coloca lado a lado com o protagonista na longa e muitas vezes monótona marcha por uma vida mais plena.

Mesmo com sua curta duração, Dias e Dias consegue abarcar uma ampla gama de temas — juventude, mobilidade urbana, desigualdade, identidade, pertencimento e esperança — sem jamais soar didático. É um filme que respira a cidade, mas também questiona o que significa viver nela quando nossos sonhos e nossas rotinas se chocam repetidamente com barreiras materiais e simbólicas. Em última análise, a obra de 2Vilão transforma o ordinário em algo cinematograficamente significativo, mostrando que o verdadeiro drama muitas vezes reside nos gestos mais simples e na persistência diária de seguir em frente, um dia após o outro. 

O filme percorrerá inicialmente festivais e tem previsão de lançamento para o final de 2026.

Avaliação - 8/10

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