Daniel Porto, Helga Nemeczyk e Pedro David comentam sobre identidade, expectativas familiares e a luta contra estereótipos em 'A Miss'

Divulgação | Olhar Filmes

• Por Alisson Santos 

A iminente estreia do filme brasileiro A Miss, marcada para o dia 26 de fevereiro, traz para os cinemas uma discussão premente sobre dinâmicas familiares tóxicas, a quebra de estereótipos LGBTQIAPN+ e o peso sufocante das expectativas maternas. Utilizando o universo altamente competitivo e superficial dos concursos de beleza como cenário, a obra promete equilibrar o drama psicológico com contornos de humor ácido.

Numa entrevista reveladora conduzida por Igor do Ó para o MDH Entretenimento, o realizador Daniel Porto e os atores Helga Nemeczyk (Ieda) e Pedro David (Alan) partilharam os bastidores emocionais da produção e a complexidade dos seus personagens.

A DESCONSTRUÇÃO DO LAR PERFEITO E A SOCIEDADE HETERONORMATIVA 

Para o realizador Daniel Porto, o filme nasce de uma reflexão profunda sobre o primeiro ambiente onde os jovens LGBTQIAPN+ enfrentam a rejeição; a própria casa. Desafiando a ideia de que o "mundo lá fora" é o único espaço hostil, Porto analisa como a heteronormatividade molda as expectativas dos pais antes mesmo do nascimento dos filhos.

O realizador aponta que a sociedade cria padrões rígidos e que a quebra dessas normas gera o primeiro embate. "A gente tá numa sociedade heteronormativa que cria meninos e meninas para seguirem padrões, então a primeira grande recusa que eu acho que todo LGBT passou, seja em qual sigla se encaixe, é dentro de casa", afirmou Daniel.

Ele questiona de forma incisiva o clássico argumento parental do "medo do preconceito do mundo", expondo a sua contradição: "Se você tem medo que a gente sofra lá fora, então por que você me causa mal dentro de casa?"

Contudo, o realizador recusa-se a colocar os pais no papel de meros vilões, reconhecendo que estes também são vítimas de uma sociedade que não os preparou para a diversidade. A salvação para estas relações fragmentadas, segundo ele, reside na empatia e no afeto: "Se não for através do sentimento, que é o mais genuíno, que é o amor, a gente não consegue resolver nada disso".

IEDA: O RETRATO DA MATERNIDADE PROJETIVA 

No centro do furacão familiar de A Miss está Ieda, interpretada de forma intensa por Helga Nemeczyk. Ieda não é uma antagonista bidimensional; ela é uma mulher repleta de frustrações que tenta, a todo o custo, viver os seus próprios sonhos por intermédio da sua filha, empurrando-a para o mundo dos concursos de miss.

Helga descreve a sua personagem como um reflexo de muitas dinâmicas reais. "Tem também as mães que projetam os seus sonhos nos seus filhos, as suas frustrações e que vivem para que seus filhos consigam realizar aquilo que elas não realizaram", explica a atriz.

Esta obsessão cega Ieda para a realidade dos seus dois filhos. Enquanto força a filha a entrar num mundo que ela detesta, negligencia por completo o filho, Alan. A atriz partilhou uma das falas mais duras da personagem, que ilustra esta negação intencional: "Eu sempre soube da sua sexualidade, mas eu não quis ver porque não me interessava, porque eu nem tinha tempo para isso, porque eu tava dedicando meu tempo a fazer a tua irmã virar uma miss". Segundo Helga, Ieda acredita genuinamente que está a fazer o melhor pela família, o que torna a sua crueldade não intencional, mas ainda assim devastadora.

A FUGA À CARICATURA E A REPRESENTAÇÃO COM DIGNIDADE 

Pedro David, que se estreia em longas-metragens com a personagem Alan, um jovem gay de 17 anos que tenta encontrar o seu espaço no meio desta família disfuncional, sublinhou o cuidado da equipa em evitar clichés. No cinema e na televisão, personagens LGBTQIAPN+ são frequentemente reduzidas a alívios cómicos ou a estereótipos vazios.

O ator destacou a importância do diálogo constante com Daniel Porto para garantir uma representação digna. "A gente tem que tomar muito cuidado para não cair em estereótipos, para justamente a gente não trazer algo caricato", explicou Pedro. A intenção nunca foi que Alan fosse uma piada, mas sim um ser humano complexo, a lidar com os conflitos típicos da adolescência somados à negligência materna.

A RECEPÇÃO CALOROSA DO PÚBLICO 

O trabalho meticuloso de realização e representação parece ter dado os seus frutos. Durante a entrevista, Pedro David partilhou a sua experiência ao assistir ao filme pela primeira vez numa sala de cinema repleta de público durante a pré-estreia de ontem no Rio de Janeiro.

O ator descreveu um ambiente eletrizante, onde a audiência se envolveu profundamente com a narrativa. "Você sente o que as pessoas estão sentindo, o que que elas estão achando do filme, e olha, eu vi tanta gente rindo e tanta gente chorando", relatou surpreso. Pedro notou que o público reagia ativamente, aplaudindo durante as cenas do concurso e torcendo pelas personagens, criando uma atmosfera que comparou à emoção de um jogo de futebol.

Assista à entrevista completa no nosso canal do YouTube

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