A história de 'Messias de Duna'; a tragédia política que transforma o herói em mito

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• Por Alisson Santos 

ATENÇÃO: o texto abaixo contém spoilers importantes da trama de Messias de Duna, segundo livro da saga criada por Frank Herbert. Se você pretende ler o livro ou assistir futuras adaptações sem conhecer os acontecimentos da história, talvez seja melhor parar por aqui.

Quando Frank Herbert publicou Duna em 1965, criou uma das maiores obras de ficção científica da história. Mas poucos leitores estavam preparados para o rumo que ele daria à continuação. Lançado em 1969, Messias de Duna não é apenas uma sequência; é uma desconstrução brutal do próprio herói que havia sido criado no primeiro livro.

Se Duna conta a ascensão de um messias, Messias de Duna mostra o peso insuportável de ser adorado como um deus.

O IMPÉRIO DE MUAD'DIB

A história começa cerca de 12 anos após os eventos de Duna. Paul Atreides, agora conhecido como Muad'Dib, governa o universo como imperador. Seu poder nasce de três pilares: sua habilidade de presciência, o controle da especiaria e a devoção fanática dos Fremen. Mas o império que ele criou tem um preço terrível.

A jihad lançada em seu nome pelos Fremen já matou bilhões de pessoas em inúmeros planetas. Mesmo sem desejar essa guerra santa, Paul percebe que ela se tornou inevitável no momento em que aceitou o papel de messias. Assim, o personagem que parecia ser o salvador da galáxia passa a viver como prisioneiro do próprio destino.

A CONSPIRAÇÃO CONTRA O IMPERADOR 

Com o poder absoluto de Paul, diversas forças do universo decidem conspirar contra ele. Entre os conspiradores estão: a ordem das Bene Gesserit, a Guilda Espacial e os misteriosos Bene Tleilax. O plano é extremamente sofisticado.

Os Tleilaxu enviam até Paul um ghola — um clone geneticamente recriado — de seu antigo amigo morto, Duncan Idaho. Esse novo Duncan, chamado Hayt, foi programado secretamente para matar o imperador. Ao mesmo tempo, um Face Dancer, criaturas bioengenheiradas, capazes de alterar sua estrutura molecular para imitar perfeitamente a aparência, voz e movimentos de outras pessoas, chamado Scytale, manipula eventos para desestabilizar o governo de Muad'Dib. O objetivo da conspiração não é apenas matar Paul. É quebrar o mito do messias.

O DRAMA PESSOAL DE PAUL 

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No centro da história está também o drama íntimo de Paul e sua companheira Chani. Durante anos, Chani não consegue engravidar. A razão é uma manipulação política da princesa Irulan, que secretamente administra contraceptivos para impedir um herdeiro legítimo.

Quando Chani finalmente engravida, Paul já sabe — graças à presciência — que ela morrerá no parto. Ele enfrenta então um dilema; tentar mudar o futuro e arriscar um destino ainda pior ou aceitar o caminho que sua visão mostra. Chani morre ao dar à luz aos gêmeos Leto II e Ghanima, herdeiros da linhagem Atreides.

A QUEDA DO MESSIAS

Após uma explosão nuclear organizada pelos conspiradores, Paul fica cego. Mas continua enxergando através da presciência. No universo de Duna, um Fremen cego deveria caminhar para o deserto e morrer — um ritual tradicional. Paul desafia essa tradição por um tempo, mas após a morte de Chani e o nascimento dos filhos, ele finalmente aceita seu destino. Muad'Dib abandona o trono e caminha sozinho para o deserto de Arrakis. Seu desaparecimento marca o fim do imperador e o nascimento de um mito religioso ainda maior.

O VERDADEIRO TEMA DO LIVRO 

Ao contrário do primeiro romance, Messias de Duna não é uma história de triunfo heroico. Na verdade, Frank Herbert escreveu o livro para criticar a ideia de líderes messiânicos. Segundo o autor, a humanidade tem o hábito perigoso de transformar líderes carismáticos em salvadores absolutos. Quando isso acontece, sociedades inteiras podem ser levadas à catástrofe. Paul Atreides se torna então uma figura paradoxal; o herói que venceu um império, o imperador que desencadeou um genocídio galáctico, o messias que tentou fugir da própria religião.

Obviamente, Denis Villeneuve não deve seguir Messias de Duna de forma completamente fiel. Assim como já aconteceu na adaptação de Duna, o diretor provavelmente tomará algumas liberdades criativas para ajustar a narrativa ao cinema e ao formato da trilogia. Resta agora esperar para ver como Villeneuve irá reinterpretar esses eventos no cinema, especialmente considerando o tom mais trágico e introspectivo do segundo livro de Frank Herbert.

A PONTE PARA O FUTURO DA SAGA 

A história de Messias de Duna também prepara o caminho para o próximo grande capítulo da saga: Os Filhos de Duna.

Nesse livro, os filhos de Paul assumem o centro da narrativa — especialmente Leto II Atreides, que dará início ao plano mais radical da história da humanidade no universo de Duna. Mas essa já é outra história.

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