Crítica | Backrooms: Um Não-Lugar - O filme parece preocupado demais em manter o público “orientado” em meio à loucura. E, curiosamente, quanto menos explica, mais assustador se torna.

Divulgação | Imagem Filmes

• Por Alisson Santos

Kane Parsons transforma Backrooms: Um Não-Lugar em algo raro dentro do horror contemporâneo; um filme que compreende profundamente o medo irracional da arquitetura vazia. Em vez de depender de sustos fáceis ou monstros constantemente visíveis, o longa mergulha no desconforto psicológico dos espaços liminares — corredores infinitos, escritórios desertos, luzes fluorescentes tremeluzindo e salas que parecem existir fora da lógica humana. O resultado é uma experiência sufocante, hipnótica e, acima de tudo, estranhamente familiar.

Desde seus primeiros minutos, Parsons demonstra uma segurança visual impressionante para um diretor estreante. A câmera quase sempre parece perdida dentro daquele labirinto amarelo, como se o próprio filme estivesse tentando encontrar uma saída. Existe uma sensação constante de deslocamento; cada corredor leva a outro corredor, cada porta parece esconder uma repetição imperfeita da anterior, e o espectador rapidamente entende que a ameaça principal não é necessariamente algo escondido na escuridão, mas a possibilidade de permanecer preso naquele vazio para sempre. 

A grande inteligência do filme está em entender o que tornou a websérie original tão poderosa. Kane Parsons não tenta transformar Backrooms em um terror convencional cheio de explicações mitológicas excessivas. Embora o roteiro ocasionalmente se aproxime demais da necessidade de racionalizar o inexplicável, o diretor sabe que o verdadeiro fascínio do conceito está justamente na ambiguidade. O Complexo não funciona como um simples cenário sobrenatural; ele parece uma manifestação física da ansiedade contemporânea.

Nesse sentido, Backrooms: Um Não-Lugar acaba funcionando quase como um retrato melancólico do colapso dos espaços públicos modernos. Shopping centers abandonados, escritórios impessoais, depósitos vazios e apartamentos sem personalidade aparecem tanto dentro quanto fora do Complexo, criando a sensação de que a própria realidade já começou a se transformar em uma versão artificial dos Backrooms. Parsons sugere que a sociedade moderna vive cercada por ambientes projetados para existir sem humanidade genuína. Tudo parece provisório, frio e descartável.

Essa leitura ganha ainda mais força na maneira como o filme retrata a internet contemporânea. Os Backrooms funcionam como uma extensão física de um mundo digital saturado por repetição, automatização e artificialidade. Há algo profundamente perturbador na ideia de que os corredores infinitos do Complexo sejam apenas uma continuação lógica de um ambiente online dominado por conteúdo genérico, publicidade invasiva e conexões humanas cada vez mais vazias. Parsons transforma uma creepypasta em comentário social sem jamais soar didático.

Visualmente, o filme é extraordinário. A mistura entre cenários físicos e efeitos digitais cria uma estética extremamente desconfortável. Os ambientes parecem reais o suficiente para despertar reconhecimento imediato, mas artificialmente distorcidos a ponto de gerar estranhamento constante. A direção de arte entende perfeitamente a lógica do terror liminar; móveis incompletos, paredes sem identidade, carpetes úmidos e salas iluminadas por um amarelo doentio compõem um espaço que parece existir entre o sonho e o pesadelo.

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O trabalho de som merece destaque especial. Poucos filmes recentes usam o áudio de maneira tão agressivamente psicológica. O zumbido das lâmpadas fluorescentes, os ecos distantes e os ruídos industriais criam uma tensão permanente, mesmo nos momentos em que nada explicitamente ameaçador acontece. Parsons sabe que o silêncio absoluto pode ser tão aterrorizante quanto qualquer criatura escondida nas sombras.

As atuações de Chiwetel Ejiofor e Renate Reinsve são fundamentais para impedir que o longa se torne apenas um exercício abstrato de atmosfera. Ejiofor traz um desgaste emocional convincente ao homem lentamente consumido pelo Complexo, enquanto Reinsve funciona como a âncora racional da narrativa, mesmo quando a realidade começa a se dissolver diante dela. Ambos conseguem transmitir humanidade suficiente para equilibrar o caráter quase experimental do filme.

Ainda assim, Backrooms não é uma obra perfeita. Em determinados momentos, o roteiro parece hesitar entre ser uma experiência puramente sensorial e um drama psicológico mais tradicional. Algumas explicações enfraquecem parcialmente o mistério, e há cenas em que o filme parece consciente demais da necessidade de manter o público “orientado” dentro de sua loucura. Curiosamente, quanto menos o longa explica, mais assustador ele se torna.

Mesmo com essas limitações, o impacto da obra é inegável. Kane Parsons demonstra uma voz autoral extremamente clara logo em seu primeiro longa-metragem. Há uma confiança estética rara aqui, especialmente para alguém tão jovem. O diretor entende ritmo, silêncio, composição visual e, principalmente, atmosfera. Em muitos momentos, Backrooms lembra experiências como Skinamarink e até ecos corporativos de Ruptura, mas ainda assim mantém uma identidade própria.

O que torna Backrooms: Um Não-Lugar verdadeiramente perturbador é a sensação de que seu horror talvez não seja tão fantasioso quanto parece. O filme sugere que já vivemos cercados por espaços vazios de significado, ambientes feitos para circulação automática e relações cada vez mais artificiais. O Complexo apenas torna literal uma sensação contemporânea de desconexão e isolamento.

Ao final, a impressão que permanece não é necessariamente a de ter assistido a um filme de monstros ou fantasmas, mas a de ter encarado uma distorção cruel da própria existência moderna. Kane Parsons transforma corredores vazios em um pesadelo existencial e entrega uma estreia que, mesmo imperfeita, confirma o surgimento de uma voz fascinante dentro do horror contemporâneo. Backrooms não assusta apenas pelo que mostra, mas pela desconfortável possibilidade de que já estejamos vivendo dentro dele.

Backrooms: Um Não-Lugar estreia amanhã nos cinemas.

Avaliação - 7/10

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