Crítica | Justiceiro: Uma Última Morte - Abandona qualquer pretensão de leveza para mergulhar de vez em um massacre emocional, violento e quase autodestrutivo.
| Divulgação | Marvel Studios |
• Por Alisson Santos
Jon Bernthal já provou há muito tempo que não interpreta Frank Castle — ele simplesmente se transforma nele. Em Justiceiro: Uma Última Morte, a Marvel parece finalmente entender isso e entrega um especial que abandona qualquer pretensão de leveza para mergulhar de vez em um massacre emocional, violento e quase autodestrutivo. O resultado é um projeto imperfeito, excessivo em vários momentos, mas estranhamente fascinante justamente por causa disso.
A trama parte de uma ideia simples; Frank Castle acredita ter encerrado sua guerra. Depois de destruir praticamente todos os responsáveis pela morte de sua família, resta apenas o vazio. E o especial entende muito bem esse vazio. Antes mesmo dos tiros começarem, existe uma sensação constante de desgaste físico e psicológico. Frank não parece um homem vivo; parece um corpo movido apenas por culpa, raiva e memória. Bernthal sustenta isso com uma intensidade absurda. Cada olhar cansado, cada explosão de violência e até os momentos de silêncio carregam um peso que poucos atores conseguiriam transmitir dentro do universo Marvel.
Mas o mais curioso é que Uma Última Morte parece menos interessado em contar algo novo sobre o personagem e mais focado em entregar a experiência definitiva do Justiceiro para quem acompanha essa versão desde Demolidor. É quase uma coletânea dos elementos que definiram o Frank Castle de Bernthal ao longo dos anos; os monólogos diante do trauma, as conversas imaginárias com a família morta, a brutalidade animalesca e a incapacidade absoluta de abandonar a violência. O especial sabe exatamente o que o público espera — e entrega tudo em doses cavalares.
Narrativamente, há problemas claros. O roteiro simplifica muito o mundo ao redor de Frank para justificar a carnificina. Nova York vira praticamente uma zona de guerra estilizada, onde criminosos agem livremente em plena luz do dia, como se a cidade tivesse sido engolida por um pesadelo urbano. Em certos momentos, isso quase transforma o especial em uma versão exploitation dentro do UCM. Só que, curiosamente, é justamente aí que ele encontra sua identidade.
| Divulgação | Marvel Studios |
A segunda metade abandona qualquer freio e mergulha em uma sequência de ação gigantesca, brutal e operística. E aqui o especial acerta em cheio. A direção entende que o Justiceiro não funciona como um herói tradicional; ele funciona como uma força destrutiva imparável. As cenas de combate são secas, violentas e desconfortáveis, mas também extremamente criativas dentro dessa brutalidade. Frank atravessa corredores deixando corpos pelo caminho, luta ferido, queimado, ensanguentado, como se estivesse tentando se destruir junto com todos ao redor. Existe algo quase suicida em cada confronto.
Ao mesmo tempo, o especial nunca tenta suavizar Frank Castle para torná-lo “mais aceitável” dentro da lógica comercial da Marvel. E isso talvez seja sua maior qualidade. O Justiceiro continua sendo um homem quebrado, paranoico e profundamente perturbado. A produção não romantiza exatamente isso — embora claramente se divirta com o caos que ele provoca — mas entende que o personagem só funciona quando permanece desconfortável.
Também ajuda o fato de Bernthal dominar completamente esse espaço. Poucos atores conseguiram uma fusão tão definitiva com um personagem de quadrinhos quanto ele. Assim como Hugh Jackman virou Wolverine e Robert Downey Jr. virou Homem de Ferro, Bernthal simplesmente virou Frank Castle. E Justiceiro: Uma Última Morte existe quase como uma celebração dessa conexão.
Talvez o especial realmente não tenha muito a acrescentar ao personagem em termos de profundidade narrativa. Talvez ele repita estruturas que já vimos antes. Mas quando a violência explode, quando a atmosfera mergulha naquele caos urbano decadente e Bernthal entra em modo absoluto de destruição, fica difícil negar o impacto. É um projeto estranho dentro da Marvel atual; pequeno, brutal, deprimente e completamente incompatível com a imagem mais “segura” do estúdio. Justamente por isso, acaba sendo uma das coisas mais interessantes que eles fizeram nos últimos tempos.
Justiceiro: Uma Última Morte já está disponível no Disney+.
Avaliação - 7/10
Muito bom!
ResponderExcluirSem lacração e só sangue 🤝
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