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• Por Alisson Santos
A cada ano, o cinema brasileiro vive um fenômeno curioso — quase esquizofrênico. Durante a temporada de premiações, especialmente quando um filme brasileiro ganha destaque internacional ou chega ao Oscar, instala-se uma espécie de euforia coletiva. A imprensa celebra, as redes sociais se inflamam com orgulho nacional e muitos proclamam que o cinema brasileiro vive um grande momento.
Mas basta a temporada acabar para que a realidade reapareça; salas vazias, estreias ignoradas e uma indústria que continua lutando para encontrar público dentro do próprio país.
Os dados mais recentes deixam isso escancarado.
Em 2025, mais de 100 milhões de pessoas foram ao cinema no Brasil, gerando cerca de R$ 2 bilhões em bilheteria no total do mercado exibidor. No entanto, a presença do cinema brasileiro nesse universo continua extremamente desigual. Embora o market share nacional tenha crescido nos últimos anos, ele ainda gira em torno de 10% a 16% do público em determinados períodos, dependendo da presença de grandes sucessos isolados.
Ou seja; mesmo em um mercado com centenas de lançamentos anuais, o cinema brasileiro continua sendo apenas uma pequena fração da experiência cinematográfica do público do país.
E o problema fica ainda mais evidente quando se observa o desempenho individual dos filmes.
Em 2025, apenas quatro filmes brasileiros ultrapassaram a marca de 1 milhão de ingressos vendidos. Em contraste, dezenas de produções tiveram desempenhos irrisórios nas salas. Um levantamento do setor revelou algo ainda mais alarmante; mais da metade dos filmes brasileiros exibidos em 2025 vendeu menos de mil ingressos em todo o país.
Menos de mil.
Isso significa que muitos filmes nacionais praticamente não existiram para o público.
É um retrato brutal de uma indústria que produz muito, mas encontra enormes dificuldades para transformar produção em espectadores.
Parte do problema está na estrutura do próprio mercado. Apesar de o Brasil possuir mais de 3.500 salas de cinema, a programação continua dominada por blockbusters internacionais e grandes franquias. Filmes estrangeiros chegam com campanhas massivas de marketing, ocupam centenas de salas e garantem horários privilegiados. Já o cinema brasileiro frequentemente estreia com poucas cópias, sessões escassas e horários pouco atrativos.
Quando o público finalmente descobre que o filme existe, ele já saiu de cartaz.
Esse desequilíbrio cria um ciclo perverso; exibidores alegam falta de público para filmes nacionais, mas ao mesmo tempo não oferecem condições reais para que esse público apareça.
Ainda assim, culpar apenas o mercado seria simplificar demais a questão.
Existe também uma contradição profunda no comportamento do público brasileiro. Nas redes sociais, há um discurso constante de valorização da cultura nacional. Quando um filme brasileiro ganha prêmios internacionais, o orgulho coletivo explode. Mas esse entusiasmo raramente se converte em ingressos vendidos.
Celebrar nas redes é fácil. Ir ao cinema exige compromisso.
E cinema não sobrevive de trending topics.
Mas talvez a crítica mais incômoda precise ser direcionada à própria indústria. Nos últimos anos, parte dos criadores brasileiros passou a apostar excessivamente no hype digital como estratégia de divulgação. A lógica parece simples; gerar buzz em festivais, circular em bolhas cinéfilas e confiar que a repercussão online se transformará em público real.
O problema é que muitas vezes esse hype é restrito a um nicho extremamente pequeno. Quando o filme chega ao circuito comercial, a distância entre o discurso da internet e o interesse real do público torna-se evidente.
O resultado é um fenômeno que se repete todos os anos; filmes celebrados em festivais, discutidos intensamente em redes sociais — e completamente ignorados nas salas de cinema.
Enquanto isso, o cinema brasileiro vive um paradoxo histórico. O setor audiovisual movimenta bilhões na economia e gera centenas de milhares de empregos no país. A produção cresce, o reconhecimento internacional aumenta e novos talentos surgem constantemente.
Mas o elo mais básico dessa cadeia continua frágil; o público doméstico.
Se o cinema brasileiro quiser realmente se consolidar como indústria, ele precisa superar três desafios simultâneos; um mercado exibidor concentrado em blockbusters, um público que consome pouco cinema nacional e uma parte da própria indústria que ainda confunde repercussão online com audiência real.
O Oscar, os festivais e as manchetes internacionais ajudam. Eles trazem visibilidade, prestígio e curiosidade.
Mas nenhum prêmio sustenta uma indústria cultural.
Quem sustenta são os espectadores.
E se o público brasileiro realmente quer defender o cinema nacional, a resposta é muito mais simples do que qualquer discurso apaixonado nas redes sociais; é comprar ingresso quando o filme estiver em cartaz.
Viva o cinema nacional 🇧🇷
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