Conto | Enquanto ele Respira

Divulgação | MDH Entretenimento

• Por Alisson Santos 

Quando matei Renato pela primeira vez, tive certeza de que estava fazendo um favor ao mundo. Ele implorou pouco. Isso me incomodou mais do que os gritos teriam incomodado. Homens culpados costumam se debater contra a morte como se estivessem tentando negociar com um gerente invisível. Renato apenas me observou, como quem encara uma conta atrasada que sempre soube que chegaria.

A bala entrou abaixo da clavícula. A segunda atravessou-lhe o pescoço. Ele caiu na garagem úmida do prédio onde morava, entre o cheiro de mofo e gasolina antiga. O sangue correu pelo piso inclinado e se acumulou perto do ralo entupido por folhas secas.

Eu fiquei ali alguns segundos, esperando algum sinal extraordinário — um pedido final, um arrependimento teatral, um tremor espiritual qualquer. Mas não houve nada. Só o barulho distante de um elevador subindo e descendo, indiferente.

Renato tinha vendido meu nome para salvar o próprio emprego. Não para escapar da prisão, não para proteger a família. Para manter um salário. Minha demissão virou investigação. A investigação virou processo. O processo virou três anos da minha vida enjaulado em uma sala com homens que conversavam com as paredes.

Eu sobrevivi pensando nele.

Três anos imaginando o momento exato em que o encontraria de novo. O rosto que faria ao perceber que certas decisões nunca deixam de respirar.

E quando finalmente puxei o gatilho, senti uma estranha sensação de ordem. Como se tivesse recolocado um livro torto na estante do mundo.

Fui para casa leve.

Dormir foi fácil.

No dia seguinte, acordei com uma claridade fria atravessando as frestas da persiana. Havia um silêncio diferente no apartamento — menos peso no ar, menos expectativa.

Preparei café. Liguei a televisão sem prestar atenção. Tomei banho demorado, como se a água pudesse lavar não a culpa, mas a tensão acumulada de anos.

Às nove e quinze, desci para comprar pão na padaria da esquina.

Ele estava lá.

Sentado na mesa de plástico perto da vitrine. Mexendo no celular. Vivo.

Não “parecido”. Não “alguém semelhante”. Renato.

A mesma camisa social azul que vestira na noite anterior. O mesmo relógio barato com pulseira de couro rachada. A pequena pinta escura perto da orelha direita. Ele erguia a xícara com a mesma mão que eu vira endurecer ao morrer.

Meu primeiro pensamento foi racional; irmão gêmeo. Sósia. Delírio. Privação de sono.

Meu segundo pensamento foi mais simples; eu não tinha atirado o suficiente.

Ele me viu.

Não houve choque em seu rosto. Apenas uma breve pausa. Um reconhecimento calmo demais para alguém que deveria estar morto.

Ele inclinou a cabeça, como se estivesse tentando lembrar meu nome.

Eu atravessei a rua sem sentir o chão.

Quando entrei na padaria, o cheiro de café fresco me pareceu ácido. Ele continuava sentado. Olhou para mim de frente.

— Você está bem? — perguntou.

A voz era a mesma. Rouca, ligeiramente nasal.

Eu senti um frio espalhar-se pelo estômago.

— Eu te matei ontem — falei, baixo.

Ele franziu a testa.

— Ontem eu fiquei em casa — respondeu. — Trabalhei até tarde.

Havia uma sinceridade banal naquilo. Não parecia um homem fingindo. Parecia alguém genuinamente confuso.

Aproximei-me da mesa.

— Garagem. Dois tiros.

Ele tocou o próprio peito, como se verificasse algo.

— Não.

Abriu a camisa o suficiente para revelar a pele intacta. Nenhuma cicatriz. Nenhum hematoma. Nada.

O mundo começou a se desalinhar.

— Você está me assustando — ele disse. — Aconteceu alguma coisa.

Eu saí sem responder.

Passei o dia tentando reconstruir a noite anterior. Voltei à garagem. Não havia manchas de sangue. O chão estava seco. O ralo limpo. Nenhum vestígio de que alguém tivesse morrido ali.

Fui ao apartamento dele. Toquei a campainha.

Renato abriu a porta com expressão aborrecida.

— De novo? — pergunto

“De novo"

A palavra ecoou como um metal arrastado no concreto.

— O que você quer? — ele insistiu.

Eu olhei para dentro do apartamento. Tudo igual ao que lembrava. O sofá gasto. A estante torta. O ventilador fazendo um barulho intermitente.

— Nada — respondi.

Desci as escadas com o coração martelando.

Se eu estava enlouquecendo, a loucura era detalhista demais.

Esperei três dias.

Observei a rotina dele como um estudioso de pragas observa o retorno de um inseto que já exterminou.

Renato acordava às sete. Saía às oito. Trabalhava. Voltava às dezoito. Jantava algo simples. Assistia televisão até dormir.

Como se nada tivesse acontecido.

Na quarta noite, entrei no prédio novamente.

Ele estava sozinho. A televisão murmurava qualquer programa irrelevante.

Bati à porta.

Ele abriu com um suspiro irritado.

— Você outra vez.

Empurrei-o para dentro antes que pudesse reagir. Desta vez, não houve conversa. Não houve explicação.

Disparei três vezes.

Ele caiu contra a estante. Livros se espalharam pelo chão. Sangue manchou as lombadas.

Eu permaneci ali, respirando rápido. Toquei o pulso dele. Nada. Olhos vidrados.

Esperei dez minutos.

Vinte.

Saí pela escada de incêndio.

Na manhã seguinte, acordei com alguém batendo à minha porta.

Meu corpo inteiro enrijeceu.

Olhei pelo olho mágico.

Renato.

Vivo.

Abri a porta devagar.

Ele parecia constrangido.

— Eu acho que você está passando por algo sério — disse. — Ontem você me ligou de madrugada. Falou coisas estranhas. Disse que eu estava morto.

Meu estômago se contraiu.

— Eu não te liguei.

Ele mostrou o celular. Meu número na tela. Horário: 02:17.

— Você pediu desculpas — ele continuou. — Disse que não conseguia aceitar o que tinha feito.

Minha cabeça começou a doer.

— O que eu fiz? — perguntei.

Ele me olhou com pena.

— Você sabe.

Havia algo diferente em seus olhos agora. Não medo. Não raiva. Algo mais próximo de… paciência.

Como se estivesse esperando que eu entendesse.

— Você não pode fazer isso comigo — eu disse.

— Fazer o que?

— Voltar.

Ele suspirou.

— Eu nunca fui a lugar nenhum.

Silêncio.

Então, quase num sussurro.

— Você é quem não vai.

A frase ficou suspensa entre nós.

Antes que eu pudesse reagir, ele deu um passo para trás.

E desapareceu.

Não “foi embora".

Não “virou o corredor"

Desapareceu!

A imagem dele dissolveu-se no ar como fumaça sugada por um exaustor invisível.

Eu fiquei parado diante da porta aberta, olhando para o corredor vazio.

Os dias seguintes não obedeceram mais à lógica.

Eu via Renato em reflexos. Na vitrine do mercado. No vidro do ônibus. No espelho do banheiro, atrás do meu ombro.

Sempre intacto.

Sempre observando.

Comecei a perceber outra coisa.

As pessoas na rua evitavam esbarrar em mim de maneira exagerada, como se eu ocupasse espaço demais ou espaço nenhum. Quando falavam comigo, repetiam perguntas que eu não lembrava de ter respondido.

Uma noite, no elevador do meu prédio, a vizinha do 402 me encarou com um misto de medo e compaixão.

— O senhor precisa aceitar — ela disse.

— Aceitar o que?

Ela hesitou.

— Que já aconteceu.

O elevador abriu no meu andar antes que eu pudesse insistir.

Voltei ao prédio de Renato — ou ao que eu acreditava ser o prédio dele.

A garagem estava interditada por fitas amarelas.

Polícia.

Meu coração bateu forte.

Aproximei-me de um dos agentes.

— O que houve aqui?

Ele me olhou por um tempo longo demais.

— O senhor não devia estar aqui.

— Eu moro na região — menti. — Foi assalto?

O policial franziu a testa.

— O senhor realmente não lembra?

Um arrepio percorreu minha espinha.

— Lembrar do que?

Ele consultou o bloco de anotações

— Dois homens foram encontrados mortos aqui há três dias.

O ar desapareceu dos meus pulmões.

— Dois?

— Sim. Um morador do prédio e outro indivíduo ainda não identificado.

Meu estômago afundou.

— Como… como morreram?

— Tiros.

O mundo começou a girar lentamente

— E… e o segundo homem?

O policial me observou com estranheza.

— Está em processo de identificação. Mas, pelo que sabemos, ele entrou armado.

Minhas mãos começaram a tremer.

— E o morador?

— Chamava-se Renato Valença.

Eu engoli em seco.

— Ele morreu na hora?

— Não sabemos. Mas os dois estavam mortos quando chegaram.

Um zumbido encheu meus ouvidos.

— O senhor está pálido — o policial comentou. — Está tudo bem?

Eu não respondi.

Afastei-me cambaleando.

Do outro lado da rua, encostado num poste, Renato me observava.

Vivo.

Sem ferimentos.

Ele abriu um leve sorriso.

Não de triunfo.

De resignação.

Atravessou a rua sem que os carros o atingissem. Parou diante de mim.

— Você sempre foi teimoso — disse calmamente.

— Eu… eu estou morto? — minha voz saiu como vidro quebrando.

Ele inclinou a cabeça.

— Você nunca quis aceitar perder. Nem o emprego. Nem a dignidade. Nem a culpa.

— Eu te matei.

— Você tentou.

— Duas vezes.

— Quantas forem necessárias.

O chão pareceu dissolver-se sob meus pés.

— Por que você continua voltando.

Ele aproximou o rosto do meu.

— Porque você não quer morrer.

A frase rasgou o ar.

De repente, a memória se reorganizou.

Eu não estava do lado de fora da arma.

Eu estava do lado de dentro.

Na primeira noite, eu invadi o apartamento dele, decidido a exigir uma explicação. Ele reagiu. Houve luta. A arma disparou.

O primeiro tiro foi meu.

O segundo não.

Eu caí na garagem tentando fugir.

Ele chamou a polícia.

E enquanto eu sangrava, minha mente construiu uma versão em que sobrevivia. Em que voltava. Em que ajustava conta.

Em que não era o derrotado.

— Você morreu ali — Renato disse, com suavidade quase triste. — E desde então, está tentando reescrever a última página.

Olhei ao redor.

As pessoas na rua atravessavam meu corpo sem notar.

Os sons pareciam vir debaixo d’água.

— Não — eu sussurrei. — Eu terminei o que comecei.

Renato tocou meu peito.

Sua mão atravessou minha camisa, minha pele, minhas costelas.

Não senti dor.

Só frio.

— Você não consegue morrer — ele disse. — Porque se aceitar que morreu, precisa aceitar que perdeu.

O mundo começou a apagar pelas bordas.

— Então o que acontece agora? — perguntei, desesperado.

Ele me encarou com uma expressão que não era de vingança.

Era de cansaço.

— Você continua.

— Continuo com o que?

— Tentando me matar.

O cenário se fragmentou como vidro.

Acordei com o cheiro de mofo e gasolina.

Garagem.

Escuridão.

Renato à minha frente, assustado.

A arma na minha mão.

Ele disse

— Você está bem?

E eu respondi, com a certeza absurda de quem já viveu aquilo incontáveis vezes.

— Eu te matei ontem.

Ele franziu a testa.

— Ontem eu fiquei em casa.

O ciclo se fechava novamente.

Enquanto eu ergui a arma, percebi algo que ainda doía mais que a morte.

O homem que não queria morrer não era ele.

Era eu.

E, em algum lugar entre a bala e o chão, eu tinha me tornado incapaz de aceitar o fim.

Por isso continuo aqui.

Atirando.

Morrendo.

Acordando.

E tentando, desesperadamente, matar alguém que já está vivo — enquanto eu apodreço no instante que me recuso a abandonar.

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