Crítica | Maldição da Múmia - Sujo, cruel, deliberadamente perturbador. Uma obra que parece ter prazer em testar os limites do espectador, tanto física quanto emocionalmente.
| Divulgação | Warner Bros. Pictures |
• Por Alisson Santos
Sob a direção de Lee Cronin, Maldição da Múmia abandona qualquer resquício de aventura exótica ou romantização clássica da mitologia egípcia para mergulhar de cabeça em um horror cru, quase ofensivo em sua brutalidade. Não é uma obra que deseja agradar; ela quer incomodar. E, em muitos momentos, consegue.
Cronin parece menos interessado em revisitar o legado da franquia e mais empenhado em deformá-lo. Há aqui um desejo evidente de replicar — ou talvez canalizar — a energia visceral de A Morte do Demônio: A Ascensão, seu trabalho anterior. A influência não é apenas estética, mas estrutural; o horror doméstico, enclausurado, centrado em uma unidade familiar que lentamente se desfaz sob forças malignas. A múmia, nesse contexto, deixa de ser uma figura mitológica distante e se transforma em algo íntimo, invasivo, quase parasitário.
O roteiro constrói sua narrativa como um mistério que se expande gradualmente, mas sempre com um núcleo emocional bem definido; a família. E é justamente aí que o filme encontra sua força mais inesperada. As crianças não são apenas coadjuvantes vulneráveis — elas são o coração pulsante da história. Há uma autenticidade nas performances que contrasta violentamente com o grotesco ao redor. Destaque absoluto para Natalie Grace, cuja atuação remete diretamente à intensidade perturbadora de Linda Blair em O Exorcista. Sua presença não apenas eleva o filme, como o ancora emocionalmente em meio ao caos.
Tecnicamente, Cronin demonstra um controle admirável. O uso de dioptria dividida cria uma sensação constante de desorientação, como se múltiplas camadas da realidade estivessem colidindo dentro do mesmo quadro. O design de som é sufocante — cada ruído parece calculado para provocar desconforto físico. E a maquiagem prática, visceral e grotesca, reforça o compromisso do filme com um horror mais tátil, quase palpável. Há momentos em que a repulsa é tão intensa que beira o insuportável — e isso, curiosamente, é um elogio. Mas nem tudo funciona.
| Divulgação | Warner Bros. Pictures |
Há uma sensação persistente de que o filme foi mutilado na sala de edição. Transições abruptas, saltos narrativos estranhos e uma progressão irregular prejudicam a imersão. Certas cenas parecem começar no meio de uma ideia ou terminar antes de atingir seu potencial completo. O resultado é um filme que, paradoxalmente, parece ao mesmo tempo inchado e incompleto.
Esse problema se agrava especialmente no último ato. Os minutos finais se arrastam em uma tentativa de conclusão que não encontra o equilíbrio. O clímax, que deveria ser o ápice emocional e narrativo, se dilui em uma sequência prolongada que perde impacto justamente por durar mais do que deveria. Não é que o desfecho seja ruim — ele apenas não parece merecido.
Ainda assim, há algo inegavelmente magnético em Maldição da Múmia. É um filme desagradável no melhor e no pior sentido da palavra; sujo, cruel, deliberadamente perturbador. Uma obra que parece ter prazer em testar os limites do espectador, tanto física quanto emocionalmente.
No fim das contas, não é um grande filme — mas também está longe de ser descartável. É um trabalho falho, irregular, por vezes frustrante, mas constantemente envolvente. Para quem aprecia o estilo agressivo de Cronin, há muito o que admirar aqui. Para os demais, resta uma experiência que, mesmo imperfeita, dificilmente será esquecida.
Maldição da Múmia estreia hoje nos cinemas.
Avaliação - 6/10
Esse eu quero muito ver. Amo o gore de A Morte do Demônio.
ResponderExcluirVou ver hoje. Essa crítica já me mantém com os pés no chão. Vi algumas pessoas comparando com o final de Invocação do Mal 4, uma parada com muito CGI e agora vi vocês reclamando do final, acho que é unânime.
ResponderExcluirQuero muito ver.
ResponderExcluirCurti bastante a forma como a crítica não tenta “passar pano” pro filme. Dá pra sentir que é uma experiência pesada mesmo, dessas que ficam na cabeça depois. Esse lance do horror mais íntimo, envolvendo a família, me chamou atenção, parece fugir bem do padrão múmia “aventura”. Agora, esse problema na edição desanima um pouco, principalmente no final… mas ainda assim fiquei com vontade de ver pra sentir esse desconforto todo que você descreveu.
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