Crítica | Super Mario Galaxy: O Filme - É difícil ficar entediado, porque o filme nunca para tempo suficiente para que suas fragilidades se tornem insuportáveis.

Divulgação | Universal Pictures

• Por Alisson Santos 

Existe uma espécie de paradoxo silencioso no coração de Super Mario Galaxy: O Filme; quanto mais ele tenta se organizar como narrativa, mais ele se distancia daquilo que o torna verdadeiramente especial. E talvez isso não seja exatamente um erro — mas um sintoma claro do momento em que o cinema de franquias se encontra.

Partindo do legado de Super Mario Galaxy, um jogo que nunca se preocupou em justificar sua própria lógica, o filme herda uma tarefa ingrata; transformar sensação em estrutura. O resultado é uma obra que oscila constantemente entre dois impulsos opostos — o da experiência sensorial pura e o da obrigação industrial de construir algo maior, mais coeso, mais “cinematográfico”. E, como já era de se esperar, essas duas forças raramente convivem em harmonia.

Há, sem dúvida, um espetáculo impressionante em jogo aqui. A Illumination eleva o nível técnico em relação ao já bem-sucedido Super Mario Bros. O Filme, apostando em um CGI vibrante que transforma cada galáxia em um playground visual. As sequências de ação — perseguições, combates coreografados — funcionam menos como progressão dramática e mais como estímulo contínuo. E funcionam justamente por isso.

O filme entende, ainda que de forma intermitente, que Mario nunca foi sobre narrativa clássica. Foi sempre sobre movimento, ritmo, descoberta. Quando a direção abraça essa lógica, o resultado é quase hipnótico; mundos que se dobram sobre si mesmos, gravidade como linguagem estética, cores que parecem existir apenas para provocar encantamento imediato. É cinema como fluxo, não como construção. Mas há um custo.

O roteiro é frágil, quase indiferente à própria coerência. E não se trata apenas de uma fragilidade estrutural, mas de uma escolha que revela prioridades muito claras; conectar o máximo de elementos possível em pouco tempo. Em menos de duas horas, o filme atravessa desertos, pirâmides, reinos, galáxias e ainda encontra espaço para introduzir personagens, subtramas e até fanservices, como a presença de Fox McCloud.

Essa condensação transforma a narrativa em algo quase episódico — o que, por um lado, dialoga com a lógica dos jogos, mas por outro impede qualquer aprofundamento real. Nada respira o suficiente para ganhar peso. Tudo acontece, mas pouco permanece. E talvez o exemplo mais curioso disso esteja nos próprios protagonistas.

Divulgação | Universal Pictures

Mario e Luigi, ironicamente, são os elementos menos interessantes da própria história. Funcionam como avatares — guias que nos conduzem de um cenário a outro —, mas raramente como personagens. Seus diálogos carecem de energia, seu carisma parece automatizado, e suas interações nunca alcançam o mesmo brilho de figuras secundárias como Rosalina ou mesmo um surpreendentemente ameaçador Bowser Jr. Há aqui uma inversão curiosa; quanto mais o filme tenta expandir seu universo, menos ele parece interessado em desenvolver seu centro.

Rosalina, por sua vez, surge como um vislumbre do que o filme poderia ter sido. Sua presença carrega uma melancolia discreta, quase deslocada dentro do caos colorido, remetendo à camada mais contemplativa do jogo. Mas essa possibilidade nunca é plenamente explorada — ela existe como promessa, não como desenvolvimento. E então há a questão tonal.

Um dos pontos mais intrigantes levantados é a presença de momentos inesperadamente sombrios, especialmente envolvendo Bowser Jr. Há uma dissonância clara entre o tom leve, quase infantil, da maior parte do filme e essas incursões em algo mais sinistro. Não chega a ser um problema isolado — pelo contrário, poderia ser um diferencial —, mas a forma como isso é inserido reforça a sensação de um filme que nunca decide completamente o que quer ser.

Essa indecisão, no entanto, não impede que a experiência funcione como entretenimento. Pelo contrário; há uma energia constante, quase ininterrupta, que sustenta o filme mesmo quando o roteiro falha. É difícil ficar entediado, porque o filme nunca para tempo suficiente para que suas fragilidades se tornem insuportáveis. E isso nos leva ao ponto central.

Super Mario Galaxy: O Filme não é um fracasso narrativo — ele é, antes, um reflexo de uma indústria que aprendeu a priorizar estímulo sobre significado. Assim como outras produções contemporâneas, ele entende que o público responde ao espetáculo imediato, à referência reconhecível, à nostalgia bem aplicada. E entrega tudo isso com eficiência quase cirúrgica. Mas, ao fazer isso, abre mão de algo mais raro; a construção de uma experiência que ressoe para além do momento.

No fim, o filme funciona melhor quando esquece que precisa ser um filme no sentido tradicional. Quando abandona a necessidade de explicar, conectar, justificar — e simplesmente existe como fluxo de imagens, ideias e sensações. É nesses momentos que ele se aproxima do que Super Mario Galaxy sempre foi; não uma história para ser entendida, mas um mundo para ser sentido. O problema é que esses momentos, embora frequentes, nunca são absolutos. E talvez seja esse o maior limite do filme; não sua incapacidade de ser grandioso, mas sua dificuldade em aceitar que já é — desde que não tente provar isso.

Super Mario Galaxy: O Filme já está disponível nos cinemas.

Avaliação - 6/10

Comentários

  1. Stephanie Xavier1/4/26

    Eu também achei o primeiro melhor. Mais seguro de si.

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  2. Anônimo1/4/26

    Tive a mesma sensação.

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  3. Gabriel Augusto1/4/26

    Concordo!!!

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  4. Rogério Lima1/4/26

    Eu amo esse universo.

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  5. Yuri Sena1/4/26

    Muito ansioso por esse.

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  6. Igor Bento1/4/26

    Análise extremamente coesa com o que o filme é.

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  7. Paulo Henrique2/4/26

    Achei inferior ao primeiro, mas é divertido. Mas é igual o texto diz, as coisas muitas vezes só acontecem.

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