| Divulgação | FJ Cines |
• Por Alisson Santos
Lançado em 1977, Suspiria permanece como uma das experiências mais radicais do cinema de terror, não pela história que conta, mas pela forma como decide contá-la. Dirigido por Dario Argento, o filme rejeita a lógica tradicional de progressão narrativa e constrói um universo onde imagem, som e espaço assumem o papel central, deslocando o espectador de uma posição analítica para uma experiência mais sensorial e instintiva.
A premissa é simples; uma jovem bailarina americana chega a uma academia de dança na Alemanha e, aos poucos, percebe que o local esconde algo profundamente errado. No entanto, qualquer tentativa de resumir Suspiria a essa estrutura é insuficiente. O filme não se organiza a partir de causa e consequência, mas de atmosferas sucessivas. As cenas não necessariamente conduzem a uma resolução clara, mas se acumulam como fragmentos de um pesadelo coerente apenas em sua própria lógica interna.
Um dos elementos mais marcantes é o uso da cor. Argento constrói um mundo dominado por tons saturados, especialmente vermelho, azul e verde, que não obedecem a uma lógica naturalista. A iluminação parece sempre artificial, como se cada ambiente estivesse permanentemente encenado. Essa escolha aproxima o filme de tradições como o expressionismo alemão, visível em obras como O Gabinete do Dr. Caligari, onde o cenário não reproduz o real, mas traduz estados psicológicos. Em Suspiria, essa estética cria uma sensação constante de deslocamento. O espectador não reconhece aquele espaço como familiar e, por isso, nunca se sente seguro dentro dele.
A trilha sonora, composta pela banda Goblin, atua como uma extensão desse ambiente. Em vez de acompanhar as imagens de forma discreta, o som invade a cena com intensidade. Sussurros, batidas repetitivas e variações abruptas constroem uma camada sonora que muitas vezes antecede o próprio perigo. O resultado é uma tensão contínua que não depende de eventos específicos. Mesmo em momentos de aparente calmaria, há sempre a sensação de que algo está prestes a acontecer.
A violência, quando surge, não é tratada de forma realista. Argento opta por uma abordagem estilizada, em que cada cena de morte é construída como um espetáculo visual. A câmera enfatiza detalhes, prolonga movimentos e transforma o ato violento em composição estética. Essa escolha não suaviza o impacto, mas o desloca. O choque não vem apenas do que acontece, mas da forma como é apresentado. Há uma tensão entre beleza e brutalidade que define grande parte do filme.
A academia de dança funciona como o eixo simbólico da narrativa. Mais do que um cenário, ela representa uma estrutura fechada, regida por regras que não são totalmente compreendidas pelas personagens. O ambiente é marcado por disciplina, repetição e controle do corpo, elementos que dialogam diretamente com a prática da dança. Nesse contexto, o surgimento do sobrenatural não parece uma ruptura, mas uma extensão lógica desse sistema. O poder exercido pelas figuras que comandam a instituição é organizado, silencioso e persistente.
| Divulgação | FJ Cines |
A protagonista, Susie, ocupa um lugar particular dentro dessa estrutura. Diferente de personagens tradicionais do gênero, ela não assume imediatamente o papel de agente transformador. Sua trajetória é marcada por observação e gradual percepção do ambiente ao seu redor. Essa construção contribui para que o espectador compartilhe de sua posição. Em vez de receber explicações claras, o público é levado a interpretar sinais, muitas vezes incompletos, que reforçam a sensação de instabilidade.
Dentro do contexto do Giallo, Suspiria representa tanto uma continuidade quanto uma ruptura. Elementos como a estilização da violência e a construção visual sofisticada permanecem, mas a ênfase na investigação e na resolução lógica é abandonada. Argento substitui o mistério racional por uma experiência mais próxima do sonho, onde as conexões não precisam ser explicitadas para produzir efeito.
Essa recusa em oferecer respostas claras é parte fundamental da força do filme. Suspiria não se preocupa em esclarecer completamente sua mitologia ou justificar suas escolhas narrativas. Em vez disso, constrói um universo que se sustenta pela coerência interna de seus elementos visuais e sonoros. O espectador não é conduzido a uma compreensão total, mas a uma imersão.
Décadas após seu lançamento, o filme continua relevante justamente por essa abordagem. Em um gênero frequentemente associado a fórmulas e convenções, Suspiria se destaca por sua capacidade de romper expectativas e propor outra relação com o terror. Não se trata de acompanhar uma história até sua resolução, mas de atravessar um ambiente que constantemente desafia a percepção.
Mais do que um marco estilístico, o filme permanece como um exemplo de como o cinema pode operar além da narrativa, utilizando seus próprios recursos para construir significado. Em Suspiria, o horror não está apenas no que é mostrado, mas na forma como o espectador é inserido nesse mundo. É essa combinação de estética rigorosa, construção simbólica e recusa de explicações fáceis que garante ao filme um lugar singular dentro da história do cinema.
Restaurado em 4K, Suspiria retornou aos cinemas brasileiros no dia 23 de abril de 2026 com distribuição da FJ Cines.
Avaliação - 9/10
Filme absurdamente bom.
ResponderExcluir