Crítica | The Boys (Temporada final) - A sensação inevitável é a de assistir uma série que perdeu parte de sua própria fúria antes de chegar ao fim.

Divulgação | Prime Video

• Por Alisson Santos 

A quinta temporada de The Boys encerra uma das séries mais influentes — e contraditórias — da televisão contemporânea de super-heróis de maneira curiosamente melancólica. Não porque o desfecho seja emocionalmente devastador ou particularmente ousado, mas porque a sensação predominante ao longo desses episódios finais é a de desgaste. Existe algo profundamente cansado em quase tudo aqui; na encenação, nos diálogos, na estrutura narrativa e até mesmo na própria violência, que durante anos funcionou como assinatura estética da série. O que antes parecia anárquico e imprevisível agora frequentemente soa mecânico, como uma máquina tentando reproduzir artificialmente a própria irreverência.

Isso não significa que a temporada seja um desastre completo. Longe disso. Ainda existem momentos genuinamente fortes espalhados ao longo dos episódios, especialmente quando a série abandona a necessidade de parecer constantemente irônica e permite que seus personagens simplesmente existam dentro do trauma acumulado de cinco temporadas. O maior exemplo disso talvez seja Kimiko. Em uma temporada onde praticamente todos os arcos parecem girar em círculos, a personagem encontra uma inesperada dimensão emocional através do luto por Francês. O roteiro flerta inicialmente com uma transformação monstruosa — quase sugerindo que sua nova evolução de poderes a empurraria para algo mais brutal e destrutivo — apenas para revelar que sua verdadeira paralisia vem da tristeza. É um dos poucos momentos da temporada em que The Boys abandona o cinismo automático e permite vulnerabilidade sincera.

E talvez seja justamente aí que mora o problema central desta despedida; durante muito tempo, The Boys acreditou que sarcasmo era profundidade. A série construiu sua identidade desconstruindo o imaginário heroico americano através de violência grotesca, sexualidade extrema e sátira política explícita. Funcionava porque havia raiva genuína por trás daquele universo. O Capitão Pátria não era apenas uma caricatura; ele era a representação de um país apaixonado por figuras autoritárias travestidas de patriotismo. Durante suas melhores temporadas, a série entendia perfeitamente que o horror não estava nos superpoderes, mas na banalização da crueldade.

Na quinta temporada, entretanto, essa crítica perde força justamente porque se torna repetitiva. Capitão Pátria passa praticamente todos os episódios reafirmando a mesma lógica messiânica de temporadas anteriores. O discurso do “eu sou um deus” deixa de soar ameaçador porque a série não encontra novas maneiras de explorar sua monstruosidade. Antony Starr continua absolutamente excelente, talvez até melhor do que o material que recebe, mas nem mesmo sua performance consegue esconder que o personagem ficou preso em um eterno loop narrativo. O terror psicológico que antes emergia de sua imprevisibilidade desaparece quando percebemos que ele sempre terminará qualquer cena da mesma maneira; surtando, ameaçando alguém ou reafirmando sua própria divindade.

O próprio visual da temporada reforça essa sensação de esgotamento criativo. Existe uma estranha limitação de escala em vários episódios. Grande parte da temporada parece confinada a corredores, salas fechadas, escritórios e diálogos excessivamente longos entre pequenos grupos de personagens. Para uma história sobre o colapso político e social dos Estados Unidos diante de um superditador, tudo frequentemente parece pequeno demais. A série fala constantemente sobre o fim do mundo, mas raramente transmite visualmente a dimensão desse caos. Em muitos momentos, The Boys parece menos uma superprodução épica e mais uma série tentando esconder limitações orçamentárias através de closes, interiores escuros e conversas expositivas.

Ainda assim, o episódio final encontra alguma força emocional justamente naquilo que escolhe não fazer. O confronto derradeiro entre Billy Bruto e Capitão Pátria não tenta transformar os personagens em figuras mitológicas; pelo contrário, desmonta ambos. Quando Capitão Pátria finalmente morre, não há triunfo. Não há sensação de libertação. Apenas vazio. E talvez essa seja a decisão mais inteligente de toda a temporada. Após cinco anos de destruição, paranoia e radicalização, a morte de um tirano não resolve absolutamente nada. O mundo permanece traumatizado. Ryan continua quebrado emocionalmente. Billy Bruto percebe tarde demais que passou tanto tempo consumido pelo ódio que já não sabe existir sem ele.

Divulgação | Prime Video

Karl Urban entrega aqui uma de suas melhores performances na série justamente porque Bruto finalmente parece cansado de si mesmo. A obsessão que antes impulsionava o personagem agora o corrói de maneira quase silenciosa. Sua decisão final envolvendo o vírus deixa claro que The Boys nunca esteve realmente interessada em heroísmo tradicional. Todos aqui são produtos de ciclos de violência impossíveis de encerrar sem sacrifício absoluto.

Mas mesmo seus momentos mais fortes acabam prejudicados pela irregularidade da temporada. Existe uma sensação constante de que a narrativa está mais preocupada em plantar spin-offs e manter portas abertas para o universo expandido do que em concluir organicamente sua própria história. Personagens importantes recebem encerramentos rápidos demais, enquanto outros parecem existir apenas para preparar futuras produções derivadas. A série frequentemente troca impacto dramático por conveniência narrativa.

O problema fica ainda mais evidente quando observamos como a violência perdeu função dramática. Nas primeiras temporadas, cada explosão de gore carregava choque, humor ou desconforto genuíno. Agora, muitas cenas brutais parecem cumprir apenas obrigação contratual. The Boys se acostumou tanto a tentar ultrapassar limites que eventualmente deixou de entender por que ultrapassá-los importava.

Ainda assim, seria injusto ignorar o impacto cultural gigantesco que a série teve. Durante anos, The Boys foi uma das poucas produções de super-herói realmente interessadas em atacar o próprio gênero de dentro para fora. Sua mistura de sátira política, pessimismo social e horror corporal redefiniu o espaço televisivo das adaptações de quadrinhos. Em seus melhores momentos, conseguiu capturar perfeitamente a sensação de viver em uma sociedade obcecada por celebridades monstruosas transformadas em símbolos patrióticos.

Talvez por isso este encerramento provoque sentimentos tão conflitantes. Não é exatamente um final ruim. É apenas um final incapaz de alcançar a ferocidade que tornou a série especial. O episódio final funciona emocionalmente, fecha os principais arcos e entrega algumas boas cenas de despedida, mas raramente surpreende. Para uma série construída sobre caos absoluto e ruptura constante, terminar de maneira tão segura soa quase irônico.

No fim, a quinta temporada de The Boys parece menos uma explosão final e mais um longo eco de algo que já foi muito mais perigoso. Ainda existe qualidade aqui. Ainda existem personagens excelentes, performances fortes e momentos emocionalmente honestos. Mas a sensação inevitável é a de assistir uma série que perdeu parte de sua própria fúria antes de chegar ao fim.

A última temporada de The Boys já está disponível no Prime Video.

Avaliação - 5/10

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