| Divulgação | MDH Entretenimento |
• Por Alisson Santos
A rede de cinemas Cinemark está no centro de uma nova polêmica envolvendo a chamada Cota de Tela, mecanismo criado para garantir espaço ao cinema nacional nas salas brasileiras. O motivo? A exibição em massa da animação Zuzubalândia: O Filme (2024), que estaria sendo utilizada como estratégia para acelerar o cumprimento das metas exigidas pela legislação.
Segundo informações divulgadas pela Folha de S.Paulo, apenas no estado de São Paulo a rede programou 114 sessões do longa em um único dia, muitas delas concentradas entre 11h e 14h45. Em alguns complexos, inclusive, funcionários relataram que as unidades chegam a abrir mais cedo apenas para exibir o filme e depois interrompem as atividades até o restante da programação comercial começar.
O caso chamou ainda mais atenção pelos números. Dados compilados pela Ancine apontam que, somente em 2026, Zuzubalândia acumulou impressionantes 17.237 sessões dentro da Cinemark em todo o Brasil, mas foi assistido por apenas 1.882 pessoas. Isso representa uma média de apenas 0,1 espectador por sessão.
A estratégia aproveita uma brecha da própria regulamentação da Cota de Tela. Como a lei estabelece apenas uma porcentagem mínima de sessões destinadas a produções brasileiras — no caso da Cinemark, 16% da programação anual —, não existe impedimento para que a exibidora repita inúmeras vezes um mesmo título nacional, mesmo em horários de baixíssima circulação.
Outro detalhe curioso envolve a duração do filme. Embora o Observatório Brasileiro do Cinema e do Audiovisual não registre oficialmente as sessões por considerar Zuzubalândia um média-metragem, a Ancine avalia aceitar sua contabilização nas metas da rede por conta da diferença mínima para o tempo exigido de um longa tradicional.
A curta duração da animação também ajuda a explicar sua escolha estratégica. Com pouco mais de uma hora, o filme ocupa menos tempo nas salas e interfere minimamente na programação dos grandes blockbusters internacionais, liberando espaço para títulos considerados mais lucrativos, especialmente durante períodos disputados do calendário cinematográfico.
Funcionários da própria rede teriam confirmado à reportagem que existe uma orientação interna para utilizar o filme como forma de atingir rapidamente as metas da Cota de Tela. A Cinemark, porém, afirma oficialmente que não comenta detalhes relacionados à legislação e diz que as exibições fazem parte do Projeto Escola, iniciativa voltada para reservas de salas por instituições de ensino.
Ainda assim, a justificativa gerou questionamentos. Segundo o regulamento do projeto, qualquer filme da grade poderia ser utilizado pelas escolas, desde que autorizado pela distribuidora, o que levanta dúvidas sobre o motivo da concentração tão agressiva justamente em Zuzubalândia.
A situação reacende um debate antigo dentro do audiovisual brasileiro; exibir filmes nacionais em horários pouco atrativos realmente ajuda na formação de público? Para muitos profissionais do setor, a resposta é não.
Daniel Queiroz, diretor da distribuidora Embaúba Filmes, criticou o modelo atual ao afirmar que a Cota de Tela deveria estimular diversidade e acesso real ao cinema brasileiro, e não apenas cumprir números burocráticos. Já a Ancine reconheceu fragilidades na norma e anunciou mudanças que passam a beneficiar sessões exibidas após as 17h, consideradas horário nobre.
Enquanto isso, a discussão expõe um conflito delicado entre mercado e incentivo cultural. De um lado, exibidoras buscam preservar sua sustentabilidade financeira em meio à queda do público pós-pandemia. Do outro, produtores e distribuidores defendem que a política pública deveria garantir não apenas espaço físico nas salas, mas também condições reais para que o público encontre e consuma cinema brasileiro.
Comentários
Postar um comentário