Crítica | Verity - A adaptação de Verity pode não ser totalmente fiel ao livro, mas se constrói de maneira sólida, sem medo de assumir riscos para surpreender o público.
| Divulgação | Sony Pictures |
• Por Daniel Pereira
Nos últimos anos, temos acompanhado uma crescente onda de adaptações de grandes obras, algo que divide a opinião dos fãs assíduos. Muitos esperam ver um sonho materializado, enquanto outros temem por uma adaptação infiel ao material original e que, por consequência, possa prejudicar a imagem construída de algo realmente impactante.
Apesar dessa questão marcante e de os fãs serem uma grande base que irá sustentar o filme, é evidente que, com a divulgação, a maioria esmagadora dos espectadores sequer terá contato com o livro e terá uma experiência totalmente diferente e menos condicionada pela obra original.
Verity é mais uma das obras adaptadas que se encontram no epicentro dessa grande questão e, falando diretamente como um espectador que não consumiu a história do livro, trago uma percepção que certamente pode divergir da dos leitores e gerar novos pontos de vista. A adaptação tem um tom muito marcante e frio, em que o suspense se mostra evidente em cada corte e a cada nova cena, como um elemento do qual não se pode escapar.
É interessante ver que Michael Showalter não poupou esforços para trazer, em sua direção, uma nudez crua de personagens que não conseguem ser felizes. Ainda que certos diálogos consigam ser engraçados em seus comentários ou situações, o filme é marcado por uma deliciosa ausência de alegria, que o torna mais interessante conforme o desenrolar da história.
Construído dentro de uma bolha de suspense, a obra tem um ritmo fluido que não se torna cansativo, sem a necessidade de acelerar ou diminuir a intensidade do que está sendo construído. Tudo tem um timing certeiro, que garante uma fluidez satisfatória. Mesmo que, em um primeiro momento, não seja um filme que se venda como sangrento, temos uma quantidade aceitável de sangue no decorrer da história, e esse detalhe não chega a causar estranheza, pois a direção das cenas é tão funcional que se torna, de certa maneira, natural.
| Divulgação | Sony Pictures |
O mesmo não pode ser dito de determinadas escolhas em relação à interação dos personagens em alguns momentos, pois algumas das cenas de Lowen e Jeremy (Dakota Johnson e Josh Hartnett) não demonstram a naturalidade esperada, soam até mesmo forçadas e improváveis.
Destrinchando um pouco a atuação do elenco, apesar de bons momentos e alguns diálogos interessantes, Dakota Johnson acaba perdendo brilho ao ser devorada pelas atuações de Anne Hathaway e Josh Hartnett, que brilham em seus papéis, gerando uma discrepância em relação a Johnson.
Hartnett consegue ser uma figura carregada de charme e mistério envolvente, como se houvesse algum tipo de atração magnética em tudo o que se propõe a fazer em tela. Talvez sua escalação tenha sido um dos maiores acertos da adaptação, pois consegue despertar um misto de encantamento e desconfiança no espectador, colocando em xeque tudo o que se pensa sobre o personagem ao longo da história.
O mesmo brilhantismo não pode ser aplicado a Dakota, que parece estar tentando criar uma versão de uma mesma personagem de outro universo. A maneira de falar, juntamente aos trejeitos e até mesmo aos olhares, parece colocar a personagem em um looping em que tudo parece sempre ser sexy demais. Talvez seja uma escolha de direção, mas isso acaba empobrecendo a construção da personagem, que parece limitada a essa sexualização. Lowen é uma mulher em luto pela perda da mãe, mas essa dimensão não recebe qualquer aprofundamento.
Mesmo uma cena de jantar comum acaba trazendo à tona um pouco dessa versão marcada por uma sexualidade gritante, que não acrescenta ao desenvolvimento da personagem, apenas escancara de maneira distorcida sua imagem como uma golpista, ainda que essa não pareça ser a intenção da direção.
| Divulgação | Sony Pictures |
Falando diretamente sobre Anne Hathaway, seu desempenho é uma reafirmação do motivo de seu nome estar em tamanho destaque em Hollywood. Verity consegue ser uma personagem envolta em tantas camadas que confunde o público entre o que é a verdade e o que é a mentira. Mergulhar na mente dessa autora é como caminhar em um labirinto, onde a próxima curva sempre poderá ser a pior.
Hathaway consegue ser uma figura odiosa e, ao mesmo tempo, incrível, pois tudo é tão natural em cada trejeito, olhar e fala que sua personagem não precisa de muito esforço para brilhar. Verity Crawford é uma mulher extraordinária, com o mundo em suas mãos.
Parece fácil construir a narrativa de uma obra quando o elenco manifesta o que se espera da adaptação, mas Verity consegue ir um pouco além ao não ter medo de arriscar e abraçar um lado mais sombrio. É interessante como, no desenrolar da história, você, em seu papel de espectador, acompanhando cada passo, começa a duvidar de suas percepções, questionar as ações e fazer pré-julgamentos com base em cada nova camada revelada, até ser surpreendido com um choque que muda tudo o que havia sido mentalizado.
Verity é excelente em sua capacidade de surpreender e sabe como trabalhar e desenvolver uma personagem complexa, tocando em temas sensíveis como maternidade, egoísmo, ciúme e narcisismo. Cada nova descoberta mergulha em uma ferida que merece ser exposta, e esse risco é uma alternativa que funciona.
A adaptação de Verity pode não ser totalmente fiel ao livro, mas se constrói de maneira sólida, sem medo de assumir riscos para surpreender o público. Verity é poético, audacioso e enigmático: uma história em que não existem versões certas ou erradas, apenas possibilidades — e todas elas surpreendem do começo ao fim.
Verity estreia hoje nos cinemas.
Avaliação - 8/10
Já estou puta que tiraram uma das gêmeas.
ResponderExcluirMuito ansiosa!!!
ResponderExcluirAdorei a crítica.
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