Crítica | Carrie, a Estranha - Mike Flanagan amplia o clássico sem perder sua essência.

Divulgação | Prime Video

• Por Alisson Santos 

Recontar Carrie é uma tarefa que parece, à primeira vista, desnecessária. A história de Stephen King já ganhou algumas adaptações e a versão de Brian De Palma, de 1976, permanece profundamente marcada no imaginário do cinema de horror. Mike Flanagan, porém, não parece interessado em simplesmente refazer aquilo que já conhecemos. Sua Carrie, a Estranha utiliza o romance como ponto de partida para construir uma narrativa mais extensa, contemporânea e interessada principalmente na pessoa por trás do mito.

A grande mudança está na forma como Carrie White é apresentada. Na pele de Summer H. Howell, ela não é apenas a garota estranha que sofre na escola e eventualmente transforma sua humilhação em violência. É uma adolescente que passou praticamente toda a vida sob o controle da mãe, que precisa descobrir o mundo ao mesmo tempo em que começa a descobrir a própria identidade. Howell encontra uma delicadeza importante na personagem, fazendo com que sua ingenuidade nunca pareça artificial. Conforme Carrie ganha consciência de seus poderes e de sua própria capacidade de escolher, a transformação se torna menos uma simples descida ao horror e mais uma história dolorosa de amadurecimento. 

Samantha Sloyan também encontra uma nova dimensão para Margaret White. O fanatismo religioso continua presente, mas a série se interessa mais pelas contradições daquela mulher e pelo vínculo doentio que ela estabeleceu com a filha. Existe amor naquela relação, mas é um amor deformado pelo medo, pela culpa e pela necessidade de controle. Sloyan consegue fazer Margaret ser ameaçadora sem transformá-la em uma caricatura, enquanto Howell mostra como a filha lentamente percebe que aquilo que sempre considerou proteção também foi uma forma de aprisionamento.

É nesse ponto que Flanagan demonstra compreender o que ainda torna Carrie tão atual. O bullying permanece no centro da narrativa, mas a escola deixou de ser o único espaço onde a crueldade acontece. Na era das redes sociais, uma humilhação pode acompanhar a vítima para casa, ser compartilhada indefinidamente e ganhar uma dimensão pública impossível de controlar. A série incorpora esse elemento sem abandonar a essência do romance, transformando o cyberbullying em uma extensão natural da violência que King já havia colocado no centro da história. 

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Essa atualização também permite que personagens secundários recebam mais espaço. Sue Snell, Chris Hargensen e outros colegas deixam de existir apenas em função da tragédia de Carrie e passam a ter conflitos próprios. Chris, especialmente, ganha uma camada adicional que ajuda a explicar — sem necessariamente justificar — de onde vem sua crueldade. A série parece interessada na ideia de que pessoas machucadas podem reproduzir violência em outras pessoas, criando uma cadeia de agressões que dificilmente termina em um único indivíduo.

Ao mesmo tempo, essa ambição é responsável por alguns dos problemas da temporada. O romance de King é relativamente curto, enquanto Flanagan precisa sustentar oito episódios. Para isso, novas histórias são incorporadas à trama, incluindo personagens inéditos e uma mitologia sobrenatural que amplia o universo ao redor de Carrie. É uma aposta interessante, principalmente para quem conhece o trabalho do diretor com adaptações de Stephen King, mas nem sempre essas expansões possuem a mesma força da história principal. Algumas subtramas parecem apontar para algo maior e acabam tirando um pouco da atenção de Carrie. 

Ainda assim, existe uma lógica por trás dessa expansão. Flanagan parece menos preocupado em encerrar Carrie definitivamente e mais interessado em explorar as possibilidades sobrenaturais sugeridas pela história. As pequenas vinhetas sobre mulheres e poderes, além da presença de elementos que remetem a outros conceitos do universo de King, dão à série uma identidade própria. Ao mesmo tempo, criam a expectativa de que esse mundo possa continuar depois dos oito episódios. É uma escolha que pode dividir os espectadores; para alguns, representa uma maneira criativa de reinventar o material; para outros, diminui a força singular da tragédia de Carrie. 

Curiosamente, o horror não depende tanto de sustos. Flanagan constrói boa parte da temporada através do desconforto, da tensão familiar e da sensação de que Carrie está sendo lentamente empurrada para um lugar do qual talvez não consiga voltar. O sangue existe, assim como momentos de violência bastante gráficos, mas a série está mais interessada nas consequências emocionais do que em transformar cada episódio em uma sucessão de sustos.

Divulgação | Prime Video

E isso faz com que a conhecida história seja novamente perturbadora. Nós sabemos onde determinados acontecimentos estão caminhando, mas Flanagan utiliza esse conhecimento contra o espectador. A familiaridade não elimina a tensão; em alguns momentos, aumenta. Cada aproximação entre Carrie e seus colegas carrega a expectativa de que alguma coisa pode quebrar definitivamente.

No fim, Carrie, a Estranha funciona melhor quando olha para Carrie como uma pessoa antes de enxergá-la como um ícone do horror. A série entende que seus poderes são consequência de algo muito mais interessante; uma garota tentando descobrir quem é depois de passar a vida ouvindo quem deveria ser.

Mike Flanagan não substitui o clássico de De Palma, nem precisa fazê-lo. Sua versão segue outro caminho, expandindo a história de Stephen King para discutir luto, identidade, violência adolescente, redes sociais e os efeitos de uma educação baseada no medo. Nem todas as novas ideias funcionam com a mesma intensidade, e algumas deixam a narrativa mais dispersa do que deveria. Mas, quando concentra sua atenção em Carrie, Margaret e na relação destrutiva entre as duas, a série encontra uma força própria.

Mais do que uma nova adaptação, Carrie, a Estranha é uma tentativa de descobrir o que ainda existe dentro de uma história que todos pensamos conhecer. E a resposta de Flanagan é interessante; por trás da garota que move objetos com a mente ainda existe uma adolescente tentando entender o mundo.

Carrie, a Estranha estreia em 7 de outubro no Prime Video.

Avaliação - 8/10

Comentários

  1. Igor Barreto4/10/26

    Mike Flanagan acertou novamente.

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  2. Geovanna Silva4/10/26

    Muito ansiosa por essa série.

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