Crítica | Lanternas - Ela tenta humanizar uma mitologia extraordinária, mas às vezes humaniza tanto que diminui aquilo que torna essa mitologia extraordinária.
| Divulgação | HBO Max |
• Por Alisson Santos
Lanternas é uma série que entende muito bem seus personagens, mas nem sempre parece entender o tamanho do universo que tem nas mãos. A produção da HBO encontra força na relação entre Hal Jordan e John Stewart e constrói um drama de personagens consistente, apoiado por excelentes atuações de Kyle Chandler, Aaron Pierre e Kelly Macdonald. O problema é que, ao longo de sua primeira temporada, a série frequentemente parece interessada demais em ser um drama policial e familiar sofisticado e de menos em ser uma grande história sobre os Lanternas Verdes.
Essa escolha não é necessariamente um erro. Na verdade, parte do charme de Lanternas está justamente em colocar uma mitologia gigantesca dentro de uma história aparentemente pequena. O problema surge quando essa contenção deixa de ser uma escolha narrativa e passa a limitar aquilo que a própria série poderia oferecer. Durante boa parte da temporada, é possível imaginar os acontecimentos funcionando perfeitamente em uma produção como "True Detective" ou "Fargo". O que deveria ser um diferencial acaba, em alguns momentos, parecendo uma descaracterização.
A investigação envolvendo Hal e John funciona, sobretudo porque dá espaço para a relação entre os dois. Hal é apresentado como um homem experiente, arrogante e profundamente marcado pelos próprios erros, enquanto John precisa lidar com um passado que o tornou desconfiado e extremamente controlado. A dinâmica entre os dois é provavelmente o elemento mais bem resolvido da temporada. Kyle Chandler consegue transmitir o desgaste de Hal sem transformar o personagem em uma caricatura de veterano amargurado, enquanto Aaron Pierre constrói um John silencioso, intenso e cheio de conflitos internos.
O problema é que essa relação ocupa tanto espaço que a mitologia dos Lanternas frequentemente fica em segundo plano. A série passa episódios construindo cuidadosamente seus personagens enquanto deixa elementos potencialmente muito mais interessantes esperando nos bastidores. Quando finalmente decide ampliar sua escala, a mudança é tão abrupta que fica evidente o quanto Lanternas poderia ter feito mais com seu universo.
O episódio final resume perfeitamente essa contradição. Depois de finalmente apresentar acontecimentos de proporções maiores, mundos alternativos e uma dimensão mais fantástica, a série volta rapidamente ao terreno do drama íntimo. A resolução é satisfatória em termos emocionais, mas decepcionante quando considerada dentro do potencial da franquia. Há uma sensação constante de que estamos diante de uma história que sabe que pode ser grandiosa, mas prefere se conter.
O mistério central também apresenta problemas. A revelação envolvendo Noah funciona graças à atuação de Shea Pritchard, que transforma o personagem em uma das surpresas mais interessantes da temporada. A ideia de um adolescente carregando uma natureza alienígena assassina e entrando em conflito com a própria identidade possui potencial dramático e até poderia sustentar uma história independente. Pritchard consegue equilibrar ameaça, fragilidade e desespero sem exageros.
Entretanto, a revelação de que Kerry matou Hal para proteger Noah não produz o impacto que deveria. A série passou tempo demais preparando o mistério para que sua resolução parecesse relativamente previsível quando finalmente acontece. O problema não está apenas em o público conseguir antecipar a resposta, mas no fato de que a revelação não altera emocionalmente a história com a intensidade esperada. O assassinato deveria reorganizar tudo aquilo que vimos anteriormente, mas acaba funcionando mais como uma peça necessária para fechar o quebra-cabeça.
| Divulgação | HBO Max |
Existe também uma certa insistência no sentimentalismo. A temporada quer concluir os conflitos de seus personagens de maneira emocionalmente satisfatória, mas algumas resoluções são excessivamente convenientes. O arco de John, em particular, chega a um ponto importante, mas a transformação poderia ter sido mais impactante. A série passa muito tempo preparando sua ascensão e, quando finalmente chega a hora de mostrar o personagem assumindo seu lugar como Lanterna Verde, prefere uma conclusão relativamente discreta.
Aaron Pierre consegue vender essa transformação porque sua atuação é uma das melhores coisas da produção. John não precisa de grandes discursos para transmitir conflito. Seu passado militar, sua dificuldade em confiar nos outros e sua resistência ao próprio destino são comunicados principalmente pelo comportamento do ator. Mas a própria série parece não confiar plenamente na força desse momento e acaba diminuindo sua importância ao invés de transformá-lo em uma verdadeira culminação.
O mesmo problema aparece com a mitologia dos Lanternas. Personagens como Sinestro e Guy Gardner aparecem, mas nem sempre de maneira tão significativa quanto poderiam. A ausência de uma presença maior dos Guardiões também pesa. Para uma história que deveria apresentar ao público a dimensão cósmica dos Lanternas, é estranho que boa parte dessa mitologia permaneça distante. A produção sugere constantemente que existe um universo muito maior além daquela investigação, mas raramente permite que o espectador realmente explore esse universo. A série parece constantemente ter vergonha do seu material base.
Isso cria uma contradição curiosa; Lanternas é melhor quando se concentra em seus personagens, mas também é justamente aí que começa a parecer limitada. Hal e John são interessantes o suficiente para sustentar uma temporada, porém uma série sobre os Lanternas Verdes precisa eventualmente justificar por que essa história pertence a esse universo e não poderia ser contada com policiais comuns, agentes secretos ou investigadores.
Ainda assim, seria injusto reduzir a produção aos seus problemas. A direção, as atuações e o cuidado com os personagens colocam Lanternas acima de boa parte das produções de super-heróis que dependem exclusivamente de espetáculo. A série entende que poder não significa necessariamente maturidade e que coragem não é ausência de medo. John, principalmente, funciona porque sua jornada não é simplesmente aprender a utilizar um anel, mas decidir se está disposto a aceitar aquilo que o poder representa.
A questão é que Lanternas parece chegar ao final ainda no começo de algo maior. O potencial está evidente, os protagonistas funcionam e existe uma base suficientemente forte para sustentar novas temporadas. Mas a primeira temporada não entrega completamente a experiência que seu conceito promete. Ela é muito boa como drama de personagens, competente como investigação e apenas ocasionalmente empolgante como ficção científica de grande escala.
Ela tenta humanizar uma mitologia extraordinária, mas às vezes humaniza tanto que diminui aquilo que torna essa mitologia extraordinária. O resultado é uma produção madura, bem atuada e frequentemente envolvente, mas também excessivamente contida, previsível em alguns de seus mistérios e frustrantemente econômica quando deveria abraçar a grandiosidade de seu universo.
Lanternas já está disponível na HBO Max.
Avaliação - 6/10
Resumiu perfeitamente o meu sentimento com essa série.
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