(MOSTRA SP) Crítica | A História do Concreto - O concreto deixa de ser apenas aquilo que vemos nas calçadas e nos edifícios para se tornar uma representação daquilo que desejamos que seja permanente, embora quase tudo esteja sujeito à deterioração.

Divulgação | Visit Films

• Por Alisson Santos 

John Wilson poderia ter escolhido praticamente qualquer assunto para transformar em seu primeiro longa-metragem, mas escolhe justamente o concreto; um material banal, onipresente e aparentemente incapaz de sustentar uma narrativa cinematográfica durante pouco mais de uma hora e meia. É justamente aí que A História do Concreto encontra sua graça. O filme não está realmente interessado em oferecer uma história definitiva do material que sustenta boa parte das cidades modernas. O concreto é apenas a superfície de uma investigação muito mais íntima sobre permanência, fracasso, envelhecimento e a necessidade quase absurda que temos de construir coisas — prédios, cidades, relações, carreiras e, no caso de Wilson, filmes. Depois do encerramento de "How To with John Wilson", o diretor transforma a própria dificuldade de encontrar um novo caminho em matéria-prima para um documentário que parece estar constantemente prestes a desmoronar.

A estrutura é típica de Wilson; uma pergunta aparentemente simples abre uma sucessão de desvios que, em mãos menos habilidosas, seriam apenas uma coleção de situações excêntricas. Aqui, porém, cada digressão encontra alguma ligação inesperada com o tema central. Uma oficina sobre como escrever filmes da Hallmark, problemas imobiliários, infraestrutura urbana, habitação, pessoas obcecadas por atividades incomuns e personagens que parecem ter escapado de uma comédia absurda passam a compor um retrato acidentalmente melancólico da vida contemporânea. O concreto deixa de ser apenas aquilo que vemos nas calçadas e nos edifícios para se tornar uma representação daquilo que desejamos que seja permanente, embora quase tudo esteja sujeito à deterioração. 

O humor continua sendo a principal ferramenta de Wilson. Sua narração hesitante, aparentemente despretensiosa, produz situações hilárias justamente porque ele nunca parece estar completamente no controle delas. Há uma espécie de ingenuidade performática em seu modo de conversar com desconhecidos, esperar pelo momento certo ou simplesmente observar acontecimentos que poderiam passar despercebidos por qualquer outra câmera. Mas A História do Concreto é mais melancólico do que "How To with John Wilson". Por trás das piadas existe uma ansiedade bastante concreta; o que acontece quando uma obra termina, quando uma carreira precisa ser reconstruída ou quando aquilo que parecia sólido começa a apresentar rachaduras? A própria produção do documentário passa a espelhar seu assunto. Wilson tenta construir um filme enquanto reflete sobre a dificuldade de construí-lo. 

Divulgação | Visit Films

Essa dimensão autorreflexiva é uma das maiores forças do longa. Wilson não tenta esconder as dificuldades de financiamento, as dúvidas criativas ou a fragilidade de seu projeto. Ao contrário, incorpora tudo isso à narrativa. O resultado é um filme que consegue ser simultaneamente documentário sobre uma substância, ensaio sobre uma cidade e autorretrato de um artista tentando descobrir o que fazer depois de alcançar aquilo que parecia ser seu objetivo. O concreto funciona como uma estrutura narrativa suficientemente ampla para comportar essas inquietações sem obrigar Wilson a transformá-las em um discurso convencional. 

Existe, naturalmente, um limite nessa abordagem. Quem entrar no filme esperando um documentário tradicional sobre a história do concreto provavelmente sairá frustrado. Wilson oferece relativamente poucos dados técnicos e históricos, porque seu interesse nunca foi realmente explicar o material de maneira sistemática. O título promete uma coisa e o filme entrega outra, deliberadamente. Para alguns espectadores, a quantidade de desvios pode parecer excessiva e a estrutura episódica, familiar demais para quem já acompanha o trabalho do diretor. A sensação de estar assistindo a um episódio gigantesco de "How To with John Wilson" não é totalmente injustificada. 

Mas é justamente nessa aparente falta de foco que Wilson encontra uma forma muito particular de coerência. A História do Concreto não quer explicar por que o concreto é importante; quer descobrir por que nós somos tão obcecados em criar coisas que permaneçam depois de nossa passagem. E, quando a câmera deixa de observar apenas o concreto para observar as pessoas que dependem dele, o filme ganha uma inesperada dimensão existencial. A matéria aparentemente inerte passa a carregar histórias de ambição, medo, solidão, memória e morte.

A História do Concreto vai ser exibido na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.

Avaliação - 8/10

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