(MOSTRA SP) Crítica | Lua Cheia - Um delicado retrato de uma jovem tentando entender que ocupar o centro não significa necessariamente saber quem se é.

Divulgação | Cinema 6411

• Por Alisson Santos 

Lua Cheia encontra uma maneira curiosa de falar sobre adolescência, desejo e pertencimento sem transformar suas inquietações em um simples drama de amadurecimento. Em seu segundo longa-metragem, Jeong Ji-hye parte de uma situação aparentemente banal; uma garota que descobre que a melhor amiga está namorando justamente o menino de quem ela gosta, para construir um retrato mais amplo de uma juventude tentando descobrir qual lugar ocupa dentro de uma sociedade cada vez mais mediada pela imagem.

A protagonista encontra na dança e no K-pop uma espécie de território próprio. Ser o centro das atenções no clube significa, para ela, mais do que simplesmente performar; é uma maneira de ser reconhecida. Por isso, a descoberta de que sua melhor amiga passou a se relacionar com seu interesse amoroso atinge também sua percepção de identidade. Jeong Ji-hye entende que o conflito não está apenas no ciúme ou na frustração romântica, mas na sensação de perder o controle sobre a própria narrativa. A partir daí, Lua Cheia transforma pequenas inseguranças em questões sobre amizade, autoestima e a necessidade de ser visto.

O interessante é que o filme não se limita ao universo adolescente. A relação com os pais e, principalmente, a aproximação da vizinha com a mãe da protagonista ampliam a discussão sobre exposição e performance. A tentativa de transformar pessoas comuns em personagens para vídeos de redes sociais introduz uma camada bastante contemporânea à narrativa; todos parecem estar, de alguma maneira, representando uma versão de si mesmos para alguém. A diferença é que a protagonista ainda está tentando descobrir quem é antes de decidir quem quer mostrar ao mundo.

Divulgação | Cinema 6411

Jung Min-joo sustenta bem essa perspectiva ao interpretar uma protagonista que pode ser simultaneamente engraçada, insegura, egoísta e vulnerável. O filme não exige que gostemos dela o tempo inteiro, e essa é uma de suas qualidades. Seus sentimentos são legítimos, mas suas reações também podem ser imaturas. Essa contradição aproxima Lua Cheia de uma experiência adolescente mais verdadeira, em que sentimentos enormes costumam nascer de situações que, vistas de fora, parecem pequenas.

O maior mérito de Jeong Ji-hye está justamente nessa capacidade de encontrar significado no banal. Depois de Jeong-sun (2022), a diretora novamente demonstra interesse por personagens que precisam negociar sua existência com as expectativas dos outros, mas agora desloca esse olhar para uma personagem mais jovem e para um universo mais pop e dinâmico. Lua Cheia não é um filme interessado em oferecer respostas definitivas sobre crescer; prefere acompanhar o momento desconfortável em que alguém percebe que amadurecer também significa aceitar que nem tudo pode permanecer como antes.

Pode faltar ao filme uma força dramática mais convencional em determinados momentos, especialmente para quem espera que seus conflitos produzam consequências mais explosivas. Mas essa contenção combina com a proposta de Jeong Ji-hye. Lua Cheia é menos sobre grandes viradas do que sobre aquelas pequenas mudanças internas que acontecem enquanto a vida continua aparentemente normal.

No fim, o filme encontra sua força justamente naquilo que parece simples. Entre uma dança, uma amizade abalada, uma paixão não correspondida e uma família observada com estranhamento, Jeong Ji-hye constrói um delicado retrato de uma jovem tentando entender que ocupar o centro não significa necessariamente saber quem se é. E talvez seja essa a ideia mais bonita do filme; antes de encontrar seu lugar diante dos outros, é preciso aprender a olhar para si mesmo sem precisar transformar tudo em espetáculo.

Lua Cheia vai ser exibido na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.

Avaliação - 7/10

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