(MOSTRA SP) Crítica | Nowhere to Lay My Eyes - O resultado é um filme pequeno na duração e na escala, mas surpreendentemente amplo nas questões que consegue colocar em circulação.
| Divulgação | Finecut |
• Por Alisson Santos
Em Nowhere to Lay My Eyes, o diretor Hong Sang-soo retorna a elementos que já fazem parte de seu vocabulário — cineastas, conversas demoradas, refeições, álcool, relações familiares atravessadas por ressentimentos e personagens incapazes de dizer exatamente aquilo que sentem —, mas encontra nessa familiaridade uma nova forma de observar a passagem do tempo. O resultado é um filme pequeno na duração e na escala, mas surpreendentemente amplo nas questões que consegue colocar em circulação.
A trama acompanha Sang-hee, interpretada por uma excepcional Kim Min-hee, durante uma visita à mãe em Jeju. Dez anos de afastamento deveriam transformar o reencontro em um acontecimento dramático, mas Hong rejeita deliberadamente qualquer sentimentalismo. Não há grandes confrontos nem revelações capazes de reorganizar retrospectivamente a vida dos personagens. O desconforto aparece nos detalhes; uma sugestão que ultrapassa os limites da preocupação materna, um elogio que parece carregar uma cobrança, uma tentativa excessivamente entusiasmada de aproximação ou simplesmente um silêncio que dura alguns segundos a mais do que deveria. A família de Hong não precisa gritar para demonstrar que há feridas antigas.
Jeju, nesse sentido, está longe de funcionar apenas como cenário. O vento constante, a mudança repentina do tempo e a paisagem aberta produzem uma curiosa sensação de instabilidade. Quanto mais os personagens tentam estabelecer alguma segurança através das palavras, mais o ambiente parece lembrá-los de que nada permanece completamente imóvel. A própria natureza assume o papel de contraponto às conversas; enquanto os personagens tentam organizar suas relações por meio da linguagem, o mundo ao redor permanece imprevisível.
Hong também demonstra interesse particular pela tensão entre criação artística e responsabilidades familiares. Sang-hee trabalha em uma empresa de alimentos, mas encontra sua verdadeira identidade nos pequenos filmes experimentais que realiza. Seu padrasto é documentarista, enquanto a filha dele desenvolve interesse pela pintura e rapidamente identifica em Sang-hee uma espécie de afinidade artística. Essa rede de personagens permite ao diretor questionar, sem transformar o filme em tese, o que significa fazer arte quando a vida exige outras coisas; cuidar dos pais, trabalhar, manter relações, envelhecer e aceitar que nem todo mundo compreenderá aquilo que nos move.
| Divulgação | Finecut |
É justamente aí que Kim Min-hee se torna indispensável. Sua Sang-hee parece estar permanentemente tentando decidir quanto de si deve revelar. A atriz trabalha com mínimos deslocamentos de expressão, transformando olhares, pausas e pequenas mudanças na voz em acontecimentos dramáticos. Existe uma espécie de melancolia acumulada em seu rosto, como se a personagem carregasse dez anos de ausência sem necessariamente saber se deseja recuperá-los. Não é uma atuação que exige atenção; ela recompensa quem presta atenção. Não por acaso, Kim recebeu o prêmio de Melhor Performance em Locarno.
A simplicidade formal de Hong pode, naturalmente, parecer repetitiva para quem não se interessa por sua filmografia. Nowhere to Lay My Eyes não tenta seduzir o espectador através de uma narrativa convencional. Os acontecimentos são pequenos, os enquadramentos parecem despretensiosos e os movimentos de câmera são econômicos. Mas existe precisão por trás dessa aparente espontaneidade. Cada conversa altera discretamente a percepção que temos dos personagens, e cada repetição acrescenta uma camada àquilo que antes parecia trivial. A câmera de Hong não procura transformar o cotidiano em espetáculo; procura descobrir quanto drama existe dentro dele.
Talvez a maior qualidade do filme esteja justamente em não oferecer respostas definitivas sobre aquela família. A mãe pode ser invasiva e genuinamente amorosa ao mesmo tempo. Sang-hee pode ressentir-se dela e ainda desejar sua aprovação. O irmão pode parecer mais próximo da mãe sem que isso signifique que compreenda melhor aquela relação. E os personagens que inicialmente parecem periféricos acabam revelando formas inesperadas de afeto e reconhecimento.
Por isso, Nowhere to Lay My Eyes não é simplesmente mais um exercício de repetição de Hong Sang-soo. É um filme sobre aquilo que permanece quando já não conseguimos voltar ao passado para consertá-lo. Seus personagens não encontram necessariamente um lugar onde possam repousar o olhar. O que eles encontram é a possibilidade de continuar olhando, mesmo diante daquilo que permanece desconfortável. Hong transforma esse gesto mínimo em cinema: delicado, engraçado, melancólico e profundamente humano.
Nowhere to Lay My Eyes vai ser exibido na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.
Avaliação - 8/10
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