| Divulgação | V.O. Filmes |
• Por Alisson Santos
Em Silvestre, João César Monteiro mergulha em contos tradicionais portugueses para construir uma obra que rejeita qualquer tentativa de realismo histórico e prefere transformar a Idade Média em um território de fantasia, desejo, violência e teatralidade. Inspirado principalmente por "A Donzela que Vai à Guerra" e "A Mão do Finado", o longa costura diferentes tradições orais e populares para criar uma narrativa que se movimenta entre o conto de fadas, a lenda medieval e o teatro popular.
A história acompanha Sílvia, filha de um nobre que pretende casá-la com D. Paio, um homem rico cuja brutalidade e vulgaridade deixam evidente que o casamento está muito mais relacionado aos interesses familiares do que aos desejos da jovem. Quando acontecimentos violentos atravessam sua vida, Sílvia abandona a posição que lhe foi imposta e assume a identidade de Silvestre, passando a circular como homem e cavaleiro. Maria de Medeiros, em seu primeiro papel no cinema, dá à personagem uma combinação interessante de ingenuidade, determinação e ambiguidade, enquanto Monteiro utiliza a transformação da protagonista para questionar as estruturas de poder que determinam o que uma mulher pode ou não ser.
Em vez de tentar convencer o espectador de que está diante de um Portugal medieval, o diretor faz questão de revelar a artificialidade daquele universo. Os cenários pintados, as cores fortes, os enquadramentos cuidadosamente compostos e a atuação próxima da declamação teatral criam a sensação de estar diante de uma ilustração que ganhou movimento. É um cinema que não pretende esconder suas costuras. Pelo contrário; são justamente essas costuras que dão identidade ao filme.
Essa opção estética pode causar estranhamento, especialmente para quem espera uma aventura medieval tradicional. Monteiro não oferece batalhas grandiosas, reconstruções históricas detalhadas ou uma narrativa preocupada em criar uma ilusão de realidade. Seu interesse está em algo mais primitivo; a forma como histórias são transmitidas, transformadas e absorvidas pela imaginação. Cantigas populares, ditados, elementos da tradição oral e referências às artes plásticas e à música ajudam a construir uma obra que parece nascer de uma memória coletiva.
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Há também uma dimensão feminista bastante evidente na trajetória de Sílvia, mas Monteiro não transforma isso em um discurso simplista. A liberdade conquistada pela personagem depende justamente de assumir uma identidade masculina, revelando uma sociedade na qual a autonomia feminina é limitada por regras familiares, religiosas e sociais. O próprio dispositivo do disfarce permite que o filme explore identidade e desejo sem abandonar a lógica de fábula. Sílvia não apenas foge de um casamento indesejado, ela experimenta a possibilidade de existir fora do papel que lhe foi determinado.
Ao mesmo tempo, Silvestre não é uma obra inteiramente acessível. Seus diálogos declamados, seu ritmo deliberadamente contemplativo e a constante sensação de artificialidade podem criar uma distância considerável entre o espectador e a narrativa. Há momentos em que o filme parece mais interessado na construção de suas imagens e na recuperação de uma tradição cultural do que no desenvolvimento dramático convencional. Para alguns, essa característica pode resultar em uma experiência excessivamente cansativa.
É difícil, porém, negar a singularidade do resultado. Silvestre transforma histórias antigas em algo simultaneamente arcaico e moderno para o ano de 1981, época do seu lançamento original. É um filme sobre uma personagem que precisa vestir outra identidade para conquistar algum controle sobre a própria vida, mas também sobre a própria relação de Portugal com suas histórias, seus mitos e sua memória. Monteiro não trata a tradição como peça de museu: ele a desmonta, reinventa e devolve ao cinema com uma estranheza muito particular.
Silvestre vai ser exibido na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.
Avaliação - 6/10
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