Crítica | Hope: O Primeiro Impacto - Transforma o filme de monstro em uma parábola caótica sobre medo, fé e incompreensão.
| Divulgação | Imagem Filmes |
• Por Alisson Santos
Na Hong-jin não parece interessado em fazer um filme de ficção científica que possa ser facilmente explicado. Depois de O Lamento (2016), o diretor volta a colocar uma comunidade isolada diante de algo que escapa completamente à compreensão humana, mas desta vez troca o sobrenatural religioso por uma ameaça de escala cósmica. Hope: O Primeiro Impacto começa como um suspense rural, transforma-se em filme de monstro, depois em ação desenfreada e, quando parece finalmente revelar suas cartas, abre ainda mais perguntas. É uma experiência tão ambiciosa quanto irregular.
A premissa é simples apenas na superfície. Em uma pequena comunidade sul-coreana próxima à Coreia do Norte, uma vaca aparece brutalmente mutilada. O chefe de polícia Bum-seok (Hwang Jung-min) e seu primo Sung-ki (Zo In-sung) tentam descobrir o que aconteceu, mas acabam seguindo caminhos diferentes. Enquanto a polícia tenta entender o que está acontecendo dentro da cidade, os caçadores entram na mata atrás daquilo que acreditam ser um animal. O detalhe mais importante é que Na Hong-jin demora deliberadamente para mostrar o que está por trás dos ataques. O filme constrói a ameaça antes de revelar sua forma, fazendo com que cada corpo, ruído e rastro de destruição pareça mais assustador justamente porque ainda não sabemos o que estamos procurando. E essa primeira hora é extraordinária.
Na Hong-jin entende que um monstro é mais interessante quando ainda é uma hipótese. A câmera percorre ruas, casas, florestas e estradas como se o perigo pudesse surgir de qualquer lugar. O cotidiano permanece absurdamente cotidiano enquanto a violência cresce ao redor dos personagens. Há espaço para piadas, discussões, comida, reclamações e até situações grotescas em meio ao caos. Essa mistura de humor vulgar, brutalidade e comportamento cotidiano dá ao filme uma identidade muito própria.
É também aí que Hope encontra uma de suas melhores ideias; seus personagens não se comportam como heróis de um blockbuster americano. Eles brigam, reclamam, xingam, tomam decisões ruins, fazem piadas quando deveriam estar aterrorizados e continuam tratando uns aos outros como pessoas comuns mesmo quando o mundo está desmoronando. O apocalipse não apaga os hábitos humanos. Na verdade, parece ampliá-los.
O cenário também não está ali apenas como decoração. A proximidade com a Coreia do Norte, as referências à guerra e a presença de uma população majoritariamente idosa dão à comunidade uma relação particular com a violência. Essas pessoas não são simplesmente habitantes indefesos esperando o herói chegar. Existe nelas uma memória coletiva de conflito e uma disposição para reagir quando a ameaça finalmente aparece. A própria apresentação oficial do filme descreve uma comunidade envelhecida tentando sobreviver enquanto os caçadores que saem em busca da criatura acabam se tornando suas presas. É justamente essa inversão que torna Hope mais interessante do que um simples filme de invasão alienígena.
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O diretor não está particularmente interessado em construir uma narrativa tradicional de heróis contra monstros. O conflito nasce daquilo que os personagens não compreendem. A ignorância gera medo; o medo gera reação; a reação produz violência. E, quando finalmente entendemos um pouco mais sobre as criaturas, a situação deixa de ser tão confortável quanto parecia. O filme começa fazendo o espectador acreditar que sabe quem são as vítimas e quem é a ameaça, para depois complicar essa leitura.
Aí entra Hoyeon, como Sung-ae, uma policial que ganha cada vez mais importância conforme a história avança. A atriz sustenta algumas das sequências de ação mais intensas do filme e funciona como contraponto ao comportamento mais caótico de Bum-seok. Sua presença também ajuda a transformar a defesa da comunidade em algo menos dependente do arquétipo do policial masculino que resolve tudo sozinho. Hoyeon chegou a passar por treinamento de armas, direção e preparação física para o papel, e isso aparece especialmente nas cenas automobilísticas.
O problema é que Hope parece não saber exatamente quando deveria terminar. Depois de uma primeira metade construída com precisão, o filme começa a despejar revelações, criaturas, perseguições e explicações em uma sucessão cada vez mais barulhenta. A ação é tecnicamente impressionante, mas sua repetição reduz gradualmente o impacto. Carros, tiros, explosões, corpos sendo arremessados e personagens correndo de um lado para o outro deixam de produzir a mesma tensão porque o filme começa a estabelecer uma espécie de imunidade aos seus próprios personagens. Essa é uma das grandes contradições de Hope; quanto mais grandioso ele fica, menos ameaçador pode parecer.
Quando o espectador percebe que determinados personagens conseguem suportar impactos absurdos sem consequências proporcionais, a sensação de perigo diminui. O realismo cuidadosamente construído na primeira hora começa a ser substituído por uma lógica de desenho animado. É uma escolha que pode funcionar dentro do espetáculo, mas cobra um preço emocional. Se tudo pode acontecer e quase nada deixa marcas permanentes, a violência perde parte de sua força.
Visualmente, o resultado também é desigual. Hong Kyung-pyo, responsável pela fotografia, dá ao filme uma textura impressionante quando trabalha com os espaços reais da comunidade, das montanhas e das estradas. A sensação de materialidade é importante porque torna a invasão ainda mais absurda. Porém, o CGI das criaturas é bem aquém.
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Os próprios monstros são outro ponto de divisão pra mim. O diretor parece querer transformar seus alienígenas em algo simultaneamente monstruoso, mítico e quase religioso. Há ecos de Alien, Avatar, Venom, Hulk e de outras criaturas do cinema fantástico, mas o diretor não está tentando necessariamente criar um novo ícone visual. O que importa é a estranheza delas e, principalmente, a maneira como a percepção humana sobre elas muda ao longo da história. O problema está justamente na explicação final.
A ideia de relacionar as criaturas à fé e à passagem de Hebreus 11:1 — “a fé é a certeza daquilo que esperamos e a prova das coisas que não vemos” — é coerente com o caminho metafísico que o filme vinha construindo. Mas a maneira como a revelação é apresentada é muito menos sutil do que o próprio suspense inicial fazia imaginar. O filme passa boa parte do tempo dizendo ao espectador “não tire conclusões ainda” e depois, no final, praticamente sublinha aquilo que quer que você pense. Isso é particularmente frustrante porque Hope é muito mais interessante quando não explica.
Na Hong-jin é um diretor excepcional quando permite que a imagem produza dúvida. O cadáver da vaca é mais perturbador do que a criatura explicada. A floresta é mais ameaçadora quando não sabemos o que existe nela. A comunidade é mais fascinante enquanto ainda estamos tentando compreender suas relações. O desconhecido trabalha a favor do filme. A explicação, em alguns momentos, trabalha contra ele.
Também existe uma ironia interessante no próprio título. Hope significa esperança, mas o filme está o tempo todo colocando em dúvida o que exatamente significa esperar alguma coisa. Esperança pode ser fé, expectativa, sobrevivência ou simplesmente a necessidade humana de acreditar que existe algum sentido por trás do caos. Quando o filme aproxima essa ideia de uma dimensão quase messiânica, ele deixa de ser apenas uma história de monstros e passa a sugerir uma discussão sobre aquilo que projetamos sobre o desconhecido. É uma ideia enorme para um filme igualmente enorme. Talvez até grande demais para um único longa.
Porque Hope: O Primeiro Impacto claramente não quer ser uma história fechada. A própria estrutura funciona como começo de algo maior, e informações sobre a produção indicam que a intenção é expandir esse universo. Isso explica algumas das perguntas deliberadamente deixadas em aberto, mas também evidencia o principal problema do filme; ele precisa terminar justamente quando começa a ficar mais interessado no próprio universo.
Hope: O Primeiro Impacto estreia em 8 de outubro nos cinemas.
Avaliação - 7/10
Muito ansioso para assistir esse.
ResponderExcluirMuito ansioso para assistir esse.
ResponderExcluirAnsiosa demais. Eu amo o cinema coreano.
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